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Povo romano
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Pintura mural do século I d.C. de Pompeia representando um banquete multigeracional | |
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|---|---|
| Latim•Grego•Outras línguas do Império Romano | |
| Religiões | |
| Culto imperial•Religião romana antiga•Religião helenística•Cristianismo | |
| Grupos étnicos relacionados | |
| Povos itálicos antigos•Povos mediterrâneos antigos•Românicos modernos e Gregos modernos |
O povo romano era a etnia e o corpo de cidadãos romanos (em latim: Rōmānī; em grego clássico: Ῥωμαῖοι Rhōmaîoi) durante o Reino Romano, a República Romana e o Império Romano. Este conceito sofreu mudanças consideráveis ao longo da longa história da civilização romana, à medida que as suas fronteiras se expandiam e contraíam. Originalmente incluindo apenas os latinos da própria Roma, a cidadania romana foi estendida ao resto dos povos itálicos no século I a.C. e a quase todos os súbditos do Império Romano no final da Antiguidade. No seu auge, os romanos governaram grandes partes da Europa, do Oriente Próximo e do Norte da África por meio de conquistas feitas durante a República Romana e o subsequente Império Romano. [1] Embora definida principalmente como uma cidadania, a "romanidade" também foi descrita de várias formas como uma identidade cultural, uma nacionalidade ou uma multietnia que eventualmente abrangeu uma vasta diversidade regional.[2][3] [a][4][5]
Concessões de cidadania, crescimento demográfico e colónias de colonos e militares aumentaram rapidamente o número de cidadãos romanos. O aumento atingiu o seu pico com a Constituição Antonina do Imperador Caracala em 212 d.C., que estendeu os direitos de cidadania a todos os habitantes livres do império. A identidade romana proporcionou um maior sentido de identidade comum e tornou-se importante ao distinguir como não romanos colonos e invasores bárbaros.[6][7] A cultura romana estava longe de ser homogénea; embora houvesse um idioma cultural comum, um dos pontos fortes do Império Romano também era a sua capacidade de incorporar tradições de outras culturas, notavelmente, mas não exclusivamente, da Grécia.

O colapso do Império Romano do Ocidente no século V pôs fim à dominação política do Império Romano na Europa Ocidental, mas a identidade romana sobreviveu no Ocidente como um importante recurso político. Devido aos fracassos do Império Romano do Oriente, também chamado de Império Bizantino, em reconquistar e manter o controlo do Ocidente e à supressão dos novos reinos germânicos, a identidade romana desapareceu no Ocidente, praticamente desaparecendo nos séculos VIII e IX. No Oriente de língua grega, ainda sob controlo imperial, a identidade romana sobreviveu até a queda do Império Bizantino em 1453 e além.
Enquanto que a identidade romana desapareceu na maioria das terras onde antes era proeminente, para algumas regiões e povos ela mostrou-se consideravelmente mais tenaz. Na Itália, "romanos" (Romani em latim e italiano) tem sido contínua e ininterruptamente o gentílico dos cidadãos de Roma desde a fundação da cidade até aos dias atuais. Durante o Império Romano do Oriente e por algum tempo após a sua queda, os gregos identificaram-se como Romioi, ou nomes relacionados. Na Suíça, vários nomes são referências romanas: os Romandos e o povo Romanche. Vários nomes derivam do latim Romani (como os romenos, aromenos e istro-romenos ), ou do germânico walhaz (um termo que originalmente se referia aos romanos; adotado na forma Vlach como a autodesignação dos megleno-romenos).[8]
Romanidade
Significado de "romano"
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Não-romanos
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Muitos estudiosos consideram inadequado aplicar o conceito moderno de racismo à Roma Antiga sob a justificativa de que suas hierarquias eram fundamentadas em critérios culturais e não biológicos, porém a historiografia recente demonstra que os romanos elaboraram representações hierarquizadas dos povos estrangeiros e subjugados. Mais do que preconceitos, eram discursos que atribuíam características morais, políticas e culturais, contribuindo para reforçar a identidade romana como superior e legitimar sua expansão imperial. Autores como Benjamin Isaac defendem que, embora não existisse um racismo biológico nos moldes modernos, eram formas de pensamento proto-racial e etnocêntrico que naturalizavam a inferioridade de determinados povos.[9]
As representações não eram homogêneas, mas variavam conforme o grupo em questão e o contexto político. Os gregos eram retratados como excessivamente sofisticados, moralmente decadentes e pouco afeitos às virtudes romanas; os persas apareciam como símbolo do luxo, despotismo e submissão ao poder absoluto; os judeus eram frequentemente caracterizados como obstinados, exclusivistas e resistentes à integração aos costumes romanos;[10] gauleses e germânicos eram frequentemente representados pelos autores romanos como "barbari", guerreiros corajosos e fisicamente vigorosos, mas também impulsivos e associados à ausência dos costumes e da disciplina considerados próprios da civilização de Roma.[11]
A distinção entre romanos e bárbaros não decorria da língua ou da origem étnica, mas dos costumes e do caráter. Ser bárbaro não constituía uma condição biológica, mas um modo de vida inferior ao romano. Essa concepção permitia que povos conquistados fossem progressivamente incorporados ao Império por meio da adoção dos costumes romanos, processo frequentemente apresentado como uma missão civilizadora, ignorando costumes diferentes e pré-estabelecidos.
Autores como Estrabão apresentavam a expansão de Roma como um empreendimento capaz de levar estabilidade e civilização aos povos considerados inferiores, enquanto Tácito, ao descrever os germanos na Germania, oscilava entre reconhecer determinadas virtudes e reafirmar sua condição de bárbaros.[11] Assim, os discursos romanos sobre os povos estrangeiros não constituíam apenas descrições etnográficas, mas integravam uma ideologia imperial que reforçava a legitimidade da dominação romana e construía diferentes formas de alteridade para cada povo submetido ou vizinho do Império.
Gregos
A relação entre romanos e gregos foi marcada por profunda ambivalência. Após a conquista da Macedônia (consolidada entre 168 e 148 a.C., com sua anexação oficial em 148 a.C.) e, posteriormente, da Grécia (146 a.C.), Roma incorporou intensamente elementos da cultura grega, como a filosofia, a literatura, a retórica e a educação, que se tornaram referências para as elites romanas. A conhecida expressão de Horácio, “Graecia capta ferum victorem cepit” ("A Grécia conquistada conquistou seu feroz vencedor"), resume a percepção de que, embora Roma tenha submetido a Grécia militarmente, acabou por assimilar grande parte de sua cultura.[12] Essa admiração, contudo, coexistia com críticas aos gregos contemporâneos. Muitos autores distinguiam o prestígio da Grécia clássica do comportamento atribuído aos gregos de sua própria época. Enquanto atenienses e espartanos do período clássico eram frequentemente lembrados como modelos de excelência intelectual, política e, em certa medida, militar, os gregos contemporâneos aos romanos eram retratados como menos virtuosos, mais inclinados ao luxo, à retórica excessiva e à instabilidade política.
Essa ideia também era aplicada às comunidades gregas estabelecidas fora da Grécia continental, frequentemente descritas como tendo degenerado ao assimilar costumes locais e se afastar das virtudes atribuídas aos seus antepassados.[13] Todavia, os macedônios constituíram uma exceção parcial a essa percepção, pois, antes de sua conquista por Roma, eram vistos como importantes adversários militares,[14] e somente após sua derrota passaram gradualmente a ser associados, na literatura romana, ao Oriente helenístico e à decadência atribuída a essa região, muitas vezes atribuindo o fracasso macedônico à decadência asiática, pois voltaram corrompidos e “afeminados” de suas campanhas militares.
A partir do século II a.C., tornou-se recorrente entre autores romanos a ideia de que o contato com o Oriente helenístico havia corrompido os costumes tradicionais de Roma. Salústio, escrevendo na metade do século I a.C, atribuiu às campanhas de Lúcio Sula na Ásia a introdução da luxúria, da ganância e da perda da disciplina militar entre os romanos.[15] Discursos preservados por Tito Lívio também opunham povos considerados guerreiros, como macedônios, trácios e ilírios, aos gregos da Ásia Menor, descritos como naturalmente servis e pouco aptos à guerra. Essa tradição literária apresentava uma gradação geográfica da ideia de corrupção da moral romana por influências externas: inicialmente atribuída ao sul da Itália, depois à Grécia continental e, por fim, à Ásia Menor e ao Oriente Próximo, considerados os espaços de maior luxo e decadência.[16]
Segundo o historiador Benjamin Isaac, essas representações estavam ligadas à ideia de que o ambiente e os costumes influenciavam o caráter dos povos, constituindo uma forma de proto-racismo, isto é, um conjunto de concepções que antecederam o desenvolvimento do racismo moderno.[17] Assim, o contato prolongado com o Oriente passou a ser frequentemente apresentado como capaz de corromper o próprio povo romano, tornando o luxo oriental um símbolo da decadência moral e do afastamento da tradicional virtude de Roma, seguindo também a associação comum da contraposição entre o homem romano viril, másculo e forte contra o homem oriental afeminado e sem vigor.
Autores romanos também distinguiam, em certa medida, os gregos da Grécia continental daqueles estabelecidos na Ásia Menor e em outras regiões orientais, estes que eram frequentemente associados ao luxo, à decadência e à servilidade em grau ainda maior. Essa diferenciação, contudo, nem sempre era mantida. Juvenal, por exemplo, ao criticar a presença grega em Roma, afirma que apenas uma pequena parcela dessa "escória" provinha da Grécia propriamente dita, atribuindo a maior parte à imigração oriunda da Síria e de outras regiões orientais.[18] Já Tácito, ao descrever uma guarnição de origem grega em Trapezo, na região do Ponto, atribuiu-lhe a "indolência" e a "licenciosidade dos gregos", sem distinguir entre gregos continentais e orientais[19]. De acordo com Benjamin Isaac, isso pode refletir um processo pelo qual, após a integração das províncias orientais ao Império Romano, a distinção entre gregos "asiáticos" e outros gregos tornou-se, por vezes, menos significativa.[20]
Apesar dessas críticas, a cultura grega permaneceu como a principal referência intelectual e artística para as elites romanas ao longo de todo o período imperial. Vegécio e Cícero convergiam ao reconhecer a superioridade artística e intelectual dos gregos, admitindo que os romanos eram superados nesses aspectos, embora reivindicassem para seu povo outras formas de excelência como a organização militar e a religião.[21][22]
Germânicos
Os povos germânicos ocupavam um lugar distinto na visão romana sobre os povos não romanos. Enquanto os gregos eram frequentemente associados à cultura e ao refinamento, os germânicos eram descritos principalmente por suas características físicas e militares. Nas fontes romanas, aparecem como povos de grande estatura, ferozes em combate e situados em um estágio de civilização considerado inferior ao do mundo greco-romano. Essa percepção era fortemente influenciada pela teoria ambiental, segundo a qual o clima e o território determinavam o caráter dos povos. Em contraste com os habitantes do Oriente, frequentemente retratados como "efeminados", "moles" e enfraquecidos pelo clima ameno, os germânicos eram apresentados como homens robustos, vigorosos e naturalmente inclinados à guerra em razão das condições rigorosas do norte da Europa.[23] Tácito, um dos principais autores romanos a descrever os povos germânicos, retratou-os como um povo fisicamente robusto, adaptado ao clima rigoroso da Germânia e caracterizado pela coragem e pela simplicidade de seus costumes.[24] Sua elevada estatura física também era frequentemente destacada por autores romanos como Vegécio, que a contrastava com a menor estatura dos próprios romanos.[21] Ao mesmo tempo, acreditava-se que o ambiente hostil tornava esses povos resistentes e inclinados à guerra, mas também selvagens e desprovidos das qualidades intelectuais, artísticas e políticas que os romanos atribuíam aos gregos.[25]
A relação entre Roma e os povos germânicos foi marcada, sobretudo, por preocupações militares e estratégicas. Desde o saque de Roma pelos gauleses, em 390 a.C., desenvolveu-se entre os romanos um temor persistente de que os povos do norte pudessem representar uma ameaça à própria existência da cidade. Segundo o historiador Arthur M. Eckstein, retomando a interpretação de J. H. C. Williams, esse imaginário permaneceu presente nas narrativas romanas sobre a resistência do Capitólio e na construção da ideia de Roma Aeterna, sendo posteriormente reforçado pelas guerras contra os cimbros e teutões no final do século II a.C., que consolidaram a imagem dos povos germânicos como invasores particularmente perigosos.[26]
Apesar da reputação militar dos germânicos, os romanos atribuíam sua própria superioridade à disciplina, ao treinamento e à organização de seus exércitos, e não à força física. Autores como Vegécio sustentavam que essas qualidades explicavam o sucesso romano diante de povos naturalmente mais fortes, porém menos disciplinados.[21] Contudo, Roma reconhecia o valor militar de determinados grupos germânicos e passou a empregá-los como tropas auxiliares, especialmente na cavalaria. Júlio César, por exemplo, recrutou contingentes germânicos durante suas campanhas na Gália, incorporando suas habilidades ao exército romano.[27]
Outro aspecto recorrente nas representações romanas era a ideia de que a mudança de ambiente poderia provocar a degeneração dos povos. Segundo essa concepção, o contato com regiões mais férteis e confortáveis levava inevitavelmente à perda das virtudes guerreiras. Algumas fontes antigas como Floro, por exemplo, afirmavam que os cimbros perderam sua força ao entrarem na Itália, onde o clima mais ameno e o acesso ao vinho, ao pão e à carne cozida teriam enfraquecido sua natureza combativa.[28] De acordo com Benjamin Isaac, essa lógica era sempre concebida em uma única direção: a mudança de ambiente implicava necessariamente deterioração, nunca aperfeiçoamento. Assim, embora autores romanos afirmassem repetidamente que o contato com o Oriente enfraquecia os romanos, nenhuma fonte sustentava que soldados enviados à Germânia retornassem mais fortes, nem que povos orientais adquirissem maior vigor ao migrarem para regiões setentrionais ou ao entrarem em contato com os germanos. Para Isaac, a literatura romana admitia apenas a perda das qualidades originais dos povos considerados vigorosos, jamais o processo inverso.[23]
Gauleses
Os gauleses figuram entre os principais povos não romanos descritos pelas fontes clássicas e constituem um exemplo privilegiado de como Roma construiu representações sobre aqueles que estavam além de suas fronteiras. Conforme trabalhado por Benjamin Isaac, figuras como Políbio, Cícero e Júlio César descreveram os gauleses como guerreiros corajosos e fisicamente vigorosos, mas também impulsivos.[29] Longe de serem descrições neutras, essas caracterizações integravam uma tradição etnográfica que opunha as virtudes romanas aos supostos vícios dos povos conquistados, contribuindo para legitimar a expansão imperial.[30]
Apesar de sua diversidade interna, os gauleses eram formados por diferentes comunidades distribuídas pela Gália, compartilhando práticas culturais, religiosas e linguísticas que os aproximavam entre si. Para os autores romanos, contudo, essa diversidade foi frequentemente reduzida à categoria genérica de “gauleses”, apresentada como um povo homogêneo e definido por traços como a bravura, a impulsividade e a instabilidade.[31] Essa caracterização, entretanto, não se restringe à literatura latina, sendo também reiterada por autores gregos como Diodoro Sículo e Estrabão, conforme demonstra Benjamin Isaac. Mais do que descrever os gauleses, essas narrativas ajudavam a construir uma fronteira simbólica entre romanos e não romanos, transformando a alteridade em um elemento essencial para justificar a conquista e afirmar a superioridade política e cultural de Roma.[32]
Judeus
Os judeus habitavam diversas regiões sob domínio romano com destaque para a Judeia, anexada a Roma em 63 a.C. A visão dos romanos sobre os judeus era, de modo geral, negativa e estereotipada quanto ao seu estilo de vida e à sua religiosidade.
Os judeus, mesmo não vivendo geograficamente isolados, eram acusados de serem antissociais e misantrópicos, por não terem solidariedade com outros povos, como no compartilhamento de alimentos. Tal comportamento era considerado bárbaro. Tácito escreveu que os judeus sentem hostilidade e ódio de todos os outros povos e instituíram a circuncisão como forma de diferenciá-los dos demais. A aversão ao judaísmo existia porque, além de sua propagação ser considerada uma ameaça à religião romana, havia reprovação de suas práticas, como a circuncisão, considerada marca dos judeus, e o shabat (descanso de sábado) que, para alguns autores, evidenciava a ociosidade do povo judaico.[33] No século V, Rutilius Namatianus escreveu que o deus judaico era fraco ou efeminado por ter descansado no sétimo dia.[34] No entanto, o judaísmo era permitido no Império romano e essa concessão existia por uma política realista dos próprios romanos, sendo consequência da resistência dos judeus, que prefeririam morrer a venerar o imperador como um deus.[35] Uma evidência de prática permitida do judaísmo está em um decreto do século II de Antonino Pio,[36] que determinou que somente os judeus poderiam circuncidar seus filhos; se um não judeu fizesse, seria punido com castração. Com a cristianização do Império no século IV, as hostilidades em relação aos judeus aumentaram. Em carta, o imperador Constantino (ou algum conselheiro) dizia que os judeus “haviam manchados as mãos com os crimes mais terríveis e cujas mentes estavam cegadas”.[37]
Também existem notáveis registros de inferiorização da intelectualidade dos judeus. Ápio afirmou que os judeus não produziram nenhum homem notável como inventores nas artes e ofícios ou homens notáveis por sua sabedoria. O imperador Juliano escreveu que os hebreus não criaram nenhuma ciência ou estudo filosófico nem tiveram um comandante como Alexandre, o Grande ou Júlio César.[38]
Fenícios e cartagineses
A visão romana sobre os fenícios e, em particular, sobre os cartagineses, pode ser analisada como o resultado de um longo processo de construção literária e ideológica,[39] herdada de uma tradição grega que remonta a Homero, que descreve os fenícios como “marinheiros honestos que fazem o que podem para cumprir sua parte de um acordo”,[40] enquanto também os retrata como mercadores enganadores e gananciosos,[41] e a Platão, que acusa os fenícios de terem “uma abordagem em relação à riqueza e à vida em geral muito estreita”[42] e por serem gananciosos.[43] Ele também usa o termo “história fenícia” como provérbio para uma mentira persuasiva.[44]
Os primeiros testemunhos romanos sobre os cartagineses são produzidos influenciados pelo período de intensa disputa militar e comercial, principalmente durante o período das Guerras Púnicas, conforme visto na obra Poenulus, do dramaturgo romano Plauto, publicada entre 195 a.C. e 189 a.C., onde ele aplica aos cartagineses os mesmos atributos negativos que a tradição grega reservava aos fenícios, especialmente a dissimulação linguística e a falsidade:[45] “Esse sujeito conhece todas as línguas, mas finge astutamente que não: ele é um verdadeiro cartaginês (Poenus)?”.[46] Essa percepção do cartaginês como alguém que oculta intencionalmente seu conhecimento para enganar o interlocutor será um topos recorrente na literatura romana. De forma semelhante, Lucílio, satirista romano ativo no último terço do século II a.C., se refere a um siro-fenício como agiota,[47] reverberando visões romanas aristocráticas sobre os fenícios residentes da Roma republicana, muito antes da incorporação da região ao império.[45]
Desse modo, repercutindo a retórica hostil contra Cartago, um fragmento remanescente de Catão, o Velho, ao inflamar os romanos contra seus adversários púnicos, incitando uma política de aniquilação contra eles, questionava: “Quem são aqueles que frequentemente violavam os tratados? Os cartagineses. Quem são aqueles que travavam guerras da forma mais cruel? [...] Quem são aqueles que devastaram a Itália? [...] Vêem, portanto, como é apropriado conquistá-los.”[48] Nesse trecho se faz presente os arquétipos de traição, crueldade e agressão, comumente associados aos cartagineses durante a era republicana, não sendo a única forma de representação conhecida desse período.[45]
Contrariamente aos escritos depreciativos sobre os cartagineses, o historiador grego Políbio, descreve Aníbal, o grande general cartaginês da Segunda Guerra Púnica, inimigo mortal de Roma, como possuidor de qualidades tanto positivas quanto negativas, mas sem expressar um sentimento antipúnico, generalizações ou estereótipos.[49] De modo semelhante, o também historiador Cornélio Nepo, afirma que “Se é verdade [...] que o povo romano superou todas as outras nações em valor, deve-se admitir que Aníbal superou todos os outros comandantes em habilidade [...] Pois sempre que ele enfrentou esse povo na Itália, saiu invariavelmente vitorioso [...]”,[50] assim elucidando certas diferenças no imaginário romano sobre os cartagineses.
Entretanto, a historiografia atual argumenta que é possível notar uma mudança drástica na representação de Aníbal e dos cartagineses na obra de Tito Lívio e durante a era de Augusto, onde essa caracterização se torna radicalmente negativa.[51] Lívio descreve Aníbal com um paradoxo que sublinha a corrupção moral: “Essas qualidades admiráveis do homem eram equiparadas por seus vícios monstruosos: sua crueldade era desumana, sua perfídia pior do que a dos púnicos; ele não tinha respeito pela verdade [...] nenhum temor pelos deuses [...], nenhum escrúpulo religioso.”[52] Essa passagem demonstra como Tito Lívio não apenas condena Aníbal, mas recicla os estereótipos negativos relativos aos fenícios como astúcia, falta de confiabilidade e traição, e os associa aos cartagineses, refletindo o tom geral da era augusta.[53]
Além disso, um ponto fundamental para entender a imagem dos cartagineses perante os romanos é o conceito de Punica fides ("fé púnica"), que se tornou sinônimo de traição e mentira e constituiu um dos pilares da visão romana sobre os cartagineses. Embora a expressão literal apareça com menos frequência do que a tradição sugere, sua ocorrência em vários autores romanos atesta sua consolidação como lugar-comum.[54] Cícero chama os cartagineses de “mentirosos não por origem, mas devido à natureza de sua localização, com seu porto, que os colocou em contato com mercadores e estrangeiros que falavam línguas estrangeiras.”[55] Tal causalidade ambiental é conectada com a ideia do determinismo geográfico abordado por Benjamin Isaac, ao descrever as origens do racismo romano e demonstrar como os romanos mobilizavam diferentes registros explicativos, desde a natureza inata até a influência do meio, para justificar o mesmo preconceito.[56] Valério Máximo, autor da época de Tibério, ecoa o estereótipo ao mencionar “aquela astúcia púnica, notória em todo o mundo"[57]”, enquanto Sílio Itálico descreve os jovens de Cartago e Tiro (cidade fenícia) como “hábeis em enganar e sempre prontos a preparar estratagemas nas trevas”.[58] A poesia flaviana, representada por Estácio, também explora esse repertório, celebrando a Via Domitiana com a exclamação de que “nenhuma horda líbia” a usará em “guerra traiçoeira”.[59]
Ademais, ao sintetizar a visão romana, pode-se afirmar que há uma boa dose de retórica e hostilidade contra os fenícios e cartagineses tanto nos autores gregos quanto nos romanos, antigos e posteriores, mas que o tom e o estilo de ambos mudaram no reinado de Augusto, com Tito Lívio sendo o grande representante dessa mudança.[60] Essa nova retórica intensifica a desumanização do inimigo, transformando os cartagineses no arquétipo do bárbaro traiçoeiro, cruel e avarento, outrora usado pelos gregos contra os fenícios, em igual medida, talentosos e imorais, ricos e cruéis. Tal combinação singular da competência aliada à perfídia torna-os particularmente perigosos e, por isso, alvos de uma estigmatização mais aguda e duradoura.
Ver também
Notas
- ↑ Embora não sejam uma etnia no sentido de partilharem a mesma descendência genética, os romanos poderiam, segundo Diemen (2021) e outros, ser vistos como uma etnia no sentido de "uma identidade social (baseada num contraste em relação aos outros) caracterizada por parentesco metafórico ou fictício".[3]
Referências
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Fontes
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