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Paolo Sarpi
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| Paolo Sarpi | |
|---|---|
| Nascimento | 14 de agosto de 1552 Veneza |
| Morte | 15 de janeiro de 1623 (70 anos) Veneza (República de Veneza) |
| Sepultamento | Cemitério de San Michele |
| Cidadania | República de Veneza |
| Alma mater | |
| Ocupação | filósofo, historiador, escritor, astrônomo, anatomista, teólogo, presbítero regular, teólogo católico |
| Religião | Igreja Católica |
Paolo Sarpi (Veneza, 14 de agosto de 1552 – Veneza, 15 de janeiro de 1623) foi um polímata italiano que se destacou como religioso, teólogo, historiador, astrônomo, matemático, físico, anatomista, escritor e polemista italiano da Ordem dos Servos de Maria.[1]

Sarpi residiu em Veneza durante a época do interdito papal. Suas escritas altamente polêmicas, que em sua maioria criticavam a Igreja Católica e suas tradições, influenciaram Hobbes e Gibbon em seus próprios trabalhos para desmascarar a Igreja.[2]
Em Londres, no ano de 1619, foi publicado o maior trabalho de Sarpi, A História do Concílio de Trento; outras obras, como a História dos Benefícios Eclesiásticos, a História do Interdito e seu Suplemento à História dos Uskoks, foram publicadas postumamente. Organizados em torno de tópicos únicos, são exemplos iniciais do gênero da monografia histórica.[3] Paolo era defensor do pensamento livre, do republicanismo da liberdade da República Veneziana e da separação da Igreja e estado,[4] sendo para muitos um dos percursores do protestantismo.[5] As últimas palavras de Padre Paolo, "Esto perpetua" ("que ela [a república] viva para sempre"), estão presentes em uma carta escrita por John Adams para Thomas Jefferson,[6] o que demonstra a credibilidade de Sarpi diante de outras figuras históricas.
Paolo Sarpi era um seguidor atento das mais recentes pesquisas nas áreas de astronomia, anatomia e balística da Universidade de Pádua.
Primeiros anos
Ele nasceu Pietro Sarpi. Seu pai era comerciante, embora não bem-sucedido; sua mãe era uma nobre veneziana.[7] Seu pai morreu quando ele ainda era criança. O menino brilhante e precoce foi educado por seu tio materno, um professor, e depois por Giammaria Capella, um frade servita. Em 1566, aos treze anos, ele também ingressou na Ordem, recebendo mais tarde o nome religioso de Fra (Irmão) Paolo, pelo qual, com o epíteto Servita, ele sempre foi conhecido por seus contemporâneos.[8]
Sarpi foi designado para um mosteiro em Mântua por volta de 1567. Em 1570, defendeu suas teses em uma disputa acadêmica e foi convidado a permanecer como teólogo da corte do Duque Guglielmo Gonzaga.[9] Ele permaneceu quatro anos em Mântua, estudando matemática e línguas orientais. Em seguida, foi para Milão em 1575, onde foi conselheiro de Carlos Borromeu, futuro santo,[10] mas foi transferido por seus superiores para Veneza, para servir como professor de filosofia no mosteiro servita. Em 1579, foi eleito Prior Provincial[8] da Província Veneziana da Ordem Servita,[11] enquanto estudava na Universidade de Pádua. Simultaneamente, foi nomeado Procurador-Geral da Ordem. Nessa função, foi enviado a Roma, onde interagiu com três papas sucessivos, o Grande Inquisidor e outras pessoas influentes.
Sarpi retornou a Veneza em 1588 e passou os 17 anos seguintes estudando, ocasionalmente interrompido pelas disputas internas de sua comunidade. Em 1601, foi recomendado pelo Senado veneziano para o bispado de Caorle, mas o núncio papal, que desejava obtê-lo para um protegido seu, acusou Sarpi de negar a imortalidade da alma e contestar a autoridade de Aristóteles. Uma tentativa de obter outro bispado no ano seguinte também fracassou, pois o Papa Clemente VIII se ofendeu com o hábito de Sarpi de se corresponder com hereges eruditos.
Veneza em conflito com o Papa
Clemente VIII morreu em março de 1605, e a postura de seu sucessor, o Papa Paulo V, tensionou os limites da prerrogativa papal. Veneza, simultaneamente, adotou medidas para restringi-la: o direito dos tribunais seculares de tomar conhecimento das ofensas de eclesiásticos havia sido afirmado em dois casos emblemáticos, assim como o alcance de duas antigas leis da cidade: uma que proibia a fundação de novas igrejas ou congregações eclesiásticas sem o consentimento do Estado, e outra que proibia a aquisição de propriedades por sacerdotes ou entidades religiosas. Essas leis haviam sido estendidas a todo o território da república. Em janeiro de 1606, o núncio papal entregou um breve exigindo a submissão incondicional dos venezianos. O Senado prometeu proteção a todos os eclesiásticos que, nessa emergência, auxiliassem a república com seus conselhos. Sarpi apresentou uma memória, salientando que as ameaças de censura poderiam ser enfrentadas de duas maneiras: de facto, proibindo sua publicação, e de jure, por meio de um apelo a um concílio geral. O documento foi bem recebido, e Sarpi foi nomeado canonista e conselheiro teológico da república.
Em abril seguinte, as esperanças de um compromisso foram dissipadas pela excomunhão dos venezianos por Paulo e sua tentativa de impor um interdito sobre seus domínios. Sarpi entrou energicamente na controvérsia. Ele começou republicando as opiniões antipapais do canonista Jean Gerson (1363–1429). Em um tratado anônimo publicado pouco depois (Risposta di un Dottore in Teologia), ele estabeleceu princípios que atacavam radicalmente a autoridade papal em assuntos seculares. Este livro foi prontamente incluído no Index Librorum Prohibitorum e o Cardeal Belarmino atacou severamente a obra de Gerson. Sarpi então respondeu em uma Apologia. As Considerazioni sulle censure e o Trattato dell'interdetto, este último parcialmente preparado sob sua direção por outros teólogos, logo se seguiram. Numerosos outros panfletos apareceram, inspirados ou controlados por Sarpi, que havia recebido a nomeação adicional de censor de tudo o que era escrito em Veneza em defesa da república.[12]
Seguindo o conselho de Sarpi, o clero veneziano, em grande parte, ignorou o interdito e desempenhou suas funções normalmente, com a principal exceção dos jesuítas, que partiram por vontade própria, mas foram simultaneamente declarados expulsos por lei. As potências católicas, França e Espanha, recusaram-se a envolver-se na disputa e recorreram à diplomacia.[13] Por fim (abril de 1607), a mediação do rei Henrique IV da França articulou um acordo que preservou a dignidade do papa, mas cedeu nos pontos em questão. Os dois sacerdotes foram devolvidos a Roma, mas Veneza reservou-se o direito de julgar o clero em tribunais civis. O resultado provou não tanto a derrota das pretensões papais, mas o reconhecimento de que os interditos e a excomunhão haviam perdido sua força. "A República", disse Sarpi, "abalou as reivindicações papais. Pois quem já ouviu falar de um interdito papal, publicado com toda a solenidade, que terminou em fumaça?"[14]
Tentativa de assassinato e vida posterior
A república recompensou Sarpi com a distinção de Conselheiro de Estado em Jurisprudência e a liberdade de acesso aos arquivos do Estado. Essas honras exasperaram seus adversários, particularmente o Papa Paulo V. Em setembro de 1607, por instigação do papa e de seu cardeal-sobrinho, Scipione Borghese, Fa Sarpi tornou-se alvo de uma tentativa de assassinato. Um frade laicizado e bandido chamado Rotilio Orlandini, auxiliado por seus dois cunhados, concordou em matar Sarpi pela quantia de 8 000 coroas.[15][16] No entanto, o plano de Orlandini foi descoberto e, quando os três assassinos cruzaram do território papal para o território veneziano, foram presos e encarcerados.[15]
Em 5 de outubro de 1607, Sarpi foi atacado por assassinos e dado como morto com três golpes de estilete,[17] mas recuperou-se.[15] Seus agressores encontraram refúgio e uma recepção calorosa nos territórios papais (descrita por um contemporâneo como uma "marcha triunfal"), e o entusiasmo papal pelos assassinos só diminuiu depois de saberem que Fra Sarpi não estava morto.[15] O líder dos assassinos, Poma, declarou que tentara o assassinato por motivos religiosos. O próprio Sarpi, quando seu cirurgião comentou sobre o caráter irregular e pouco artístico dos ferimentos, respondeu: "Agnosco stylum Romanae Curiae" ("Reconheço o estilo da Cúria Romana").[18] Os aspirantes a assassinos de Sarpi se estabeleceram em Roma e, eventualmente, receberam uma pensão do vice-rei de Nápoles, Pedro Téllez-Girón, 3º Duque de Osuna.[19]
O restante da vida de Sarpi foi passado pacificamente em seu claustro, embora conspirações contra ele continuassem a ser tramadas, e ele ocasionalmente falasse em refugiar-se na Inglaterra. Quando não estava ocupado preparando documentos oficiais, dedicava-se a estudos científicos e compôs diversas obras. Serviu ao Estado até o fim. Na véspera de sua morte, ditou três respostas a perguntas sobre assuntos da República de Veneza, e suas últimas palavras foram "Esto perpetua".
Fisiologia
Enquanto residia em Veneza, Sarpi se aplicou a muitos estudos, entre eles anatomia, fisiologia, química e medicina. Seus conhecimentos sobre anatomia, principalmente, tornaram-se tão grandes que foram reconhecidos por Hieronymus Fabricius (também conhecido por Girolamo Fabrizi d'Acquapendente), professor de anatomia de Pádua, que considerava Sarpi uma autoridade no assunto.[20]
Uma de suas mais famosas pesquisas é acerca da circulação do sangue. De acordo com Johannes Leoniceus, Paolo Sarpi foi quem descobriu a circulação do sangue, fazendo conclusões acerca das válvulas das veias, assumindo que essas funcionavam semelhante aos mecanismos de uma bomba que impedia o refluxo de líquidos: para o sangue passar, as válvulas se abrem, mas fecham para impedir o seu retorno. Tal mecanismo possibilita que a circulação ocorra contra a gravidade. É dito que ele compartilhou esse segredo com Acquapendente, que era aluno de Gabriele Falloppio, assim como William Harvey. Não se sabe ainda se tal descoberta foi de Acquapendente, Sarpi ou Harvey,[21] mas para os biógrafos de Sarpi, era amplamente conhecido em Veneza as descobertas dele sobre a circulação e a autoria de tais descobertas, enquanto para outros, Paolo apenas descobriu as válvulas que auxiliam no processo, sendo que a descoberta da circulação em si pertenceria a Harvey.[22] Recentemente, os estudiosos estão divididos: alguns atribuem a descoberta a Acquapendente, e outros ainda atribuem a descoberta das válvulas a Sarpi.[23]
Finalmente, a invenção do termômetro é atribuída a Sarpi por seus biógrafos, e apesar de não ter uma data definida, Marco Foscarini em seus trabalhos sobre a literatura veneziana, observou que Paolo mencionava em suas notas sobre o termômetro, e de acordo com ele a data da invenção foi 1617.[24] Todavia, é relatado que em 1592 Galileu Galilei já havia feito o primeiro termômetro. Portanto, tal invenção também participa das muitas polêmicas que envolvem os estudos de Sarpi.
Acadêmico científico
Sarpi escreveu notas sobre François Viète que estabeleceram sua proficiência em matemática, e um tratado metafísico agora perdido, que se diz ter antecipado as ideias de John Locke. Suas atividades anatômicas provavelmente datam de um período anterior. Eles ilustram sua versatilidade e sede de conhecimento, mas não são significativos. Sua alegação de ter antecipado a descoberta de William Harvey não se baseia em nenhuma autoridade melhor do que um memorando, provavelmente copiado de Andreas Caesalpinus ou do próprio Harvey, com quem, assim como com Francis Bacon e William Gilbert, Sarpi se correspondeu. A única descoberta fisiológica que pode ser atribuída com segurança a ele é a da contratilidade da íris.[25][26]
Sarpi escreveu sobre o movimento dos projéteis no período 1578-84, na tradição de Niccolò Fontana Tartaglia; e novamente ao relatar as ideias de Guidobaldo del Monte em 1592, possivelmente até então tendo conhecido Galileu Galilei. Galileu correspondeu-se com ele. Sarpi ouviu falar do telescópio em novembro de 1608, talvez antes de Galileu. Detalhes então chegaram a Sarpi de Giacomo Badoer, em Paris, em uma carta descrevendo a configuração das lentes. Em 1609, a República de Veneza tinha um telescópio em aprovação para fins militares, mas Sarpi os fez recusar, antecipando o melhor modelo que Galileu havia feito e trazido mais tarde naquele ano.[25][26]
História do Concílio de Trento

Em 1619, sua principal obra literária, Istoria del Concilio Tridentino (História do Concílio de Trento), foi impressa em Londres, publicada sob o nome de Pietro Soave Polano, um anagrama de Paolo Sarpi Veneto (mais o). O editor, Marco Antonio de Dominis (posteriormente declarado herege manifesto pela Santa Inquisição), trabalhou no aprimoramento do texto. Ele foi acusado de falsificá-lo, mas uma comparação com um manuscrito corrigido pelo próprio Sarpi mostra que as alterações são insignificantes. Seguiram-se traduções para outros idiomas.
A ênfase recaía sobre o papel da Cúria Papal e a sua visão sobre a Cúria era hostil. Tratava-se de história não oficial, e não de uma comissão, e tratava a história eclesiástica como política.[27] Sarpi, em Mântua, conhecera Camillo Olivo, secretário do Cardeal Ercole Gonzaga.[28] A sua atitude, "amargamente realista" para John Hale, era acompanhada de uma crítica de que o acordo tridentino não era conciliatório, mas sim concebido para gerar mais conflitos.[29] Denys Hay chama-lhe "uma espécie de retrato anglicano dos debates e decisões",[30] e Sarpi era muito lido pelos protestantes; John Milton chamou-lhe o "grande desmascarador".[31] O seu elogio, contudo, derivava mais de atitudes antipapais e anticlericais do que de uma verdadeira admiração pelo estilo e perspicácia de Sarpi. Estudiosos católicos, como Jacques-Bénigne Bossuet, consideravam Sarpi um historiador sem valor, uma visão amplamente compartilhada pela historiografia mais recente.[32]
O trabalho de Sarpi alcançou tal fama que o Vaticano abriu seus arquivos ao Cardeal Pietro Sforza Pallavicino, a quem contratou para escrever uma refutação em três volumes, intitulada Istoria del Concilio di Trento, scritta dal P. Sforza Pallavicino, della Comp. di Giesù ove insieme rifiutasi con auterevoli testimonianze un Istoria falsa divolgata nello stesso argomento sotto nome di Petro Soave Polano ("A História do Concílio de Trento escrita por P. Sforza Pallavicino, da Companhia de Jesus, na qual uma história falsa sobre o mesmo argumento apresentado sob o nome de Petro Soave Polano é refutada por meio de testemunho oficial", 1656-1657).[33] O grande historiador do século XIX, Leopold von Ranke (História dos Papas), examinou os trabalhos de Sarpi e Pallavicino sobre materiais manuscritos e considerou ambos insuficientes para atender aos seus próprios padrões rigorosos de objetividade. O primeiro é descrito como movido por um ódio mortal – maligno em seu propósito e imprudente em seus meios – fabricando falsidades e distorcendo ou pervertendo verdades; enquanto o jesuíta, embora escrupulosamente correto nos documentos que apresenta, muitas vezes suprime aqueles que se opõem às suas opiniões. Mesmo assim, Ranke considerou a qualidade do trabalho de Sarpi muito alta, considerando-o superior a Guicciardini.[34] Sarpi nunca reconheceu sua autoria e frustrou todos os esforços de Luís II de Bourbon, Príncipe de Condé, para extrair dele o segredo.
A história em vários volumes do Concílio de Trento de Hubert Jedin (1961), também autorizada pelo Vaticano, critica igualmente o uso de fontes por Sarpi.[35][36] David Wootton acredita, no entanto, que há evidências de que Sarpi pode ter usado documentos originais que não sobreviveram e considera o tratamento dado por Sarpi ao Concílio bastante cuidadoso, apesar de sua abordagem parcial.[37]
Outros trabalhos
Em 1615, ocorreu uma disputa entre o governo veneziano e a Inquisição sobre a proibição de um livro. Em 1613, o Senado pediu a Sarpi que escrevesse sobre a história e o procedimento da Inquisição veneziana. Ele argumentou que esta tinha sido criada em 1289, mas como uma instituição estatal veneziana. O papa da época, Nicolau IV, apenas consentiu em sua criação. Este trabalho apareceu em tradução inglesa por Robert Gentilis em 1639.[38]
Um tratado maquiavélico sobre as máximas fundamentais da política veneziana (Opinione come debba governarsi la repubblica di Venezia) foi atribuído a Sarpi e usado por alguns de seus adversários póstumos para escurecer sua memória, mas na verdade data de 1681.[39] No fólio apareceu sua História dos Benefícios Eclesiásticos, na qual, disse Matteo Ricci, "expurgou a igreja da imundície introduzida por decretais espúrios". Apareceu em tradução inglesa em 1736 com uma biografia de John Lockman.[40]
Redes de correspondência e cartas publicadas
Sarpi foi o centro de uma vasta rede política e acadêmica de eminentes correspondentes, da qual sobreviveram cerca de 430 de suas cartas. As primeiras coleções de cartas foram: "Lettere Italiane di Fra Sarpi" (Genebra, 1673); Scelte lettere inedite de P. Sarpi", editada por Aurelio Bianchi-Giovini (Capolago, 1833); "Lettere raccolte di Sarpi", editada por Polidori (Florença, 1863); "Lettere inedite di Sarpi a S. Contarini", editado por Castellani (Veneza, 1892).[41]
Posições e interpretações
Sarpi leu e foi influenciado pelo ceticismo de Michel de Montaigne e seu discípulo Pierre Charron.[42] Como historiador e pensador da tradição realista de Tácito, Maquiavel e Guicciardini, ele enfatizou que o patriotismo, como orgulho ou honra nacional, poderia desempenhar um papel central no controle social.[43] Em vários momentos de sua vida, ele foi suspeito de falta de ortodoxia religiosa: compareceu perante a Inquisição por volta de 1575, em 1594 e em 1607.[44]
Sarpi esperava tolerância ao culto protestante em Veneza e o estabelecimento de uma igreja livre veneziana, pela qual os decretos do Concílio de Trento seriam rejeitados. Sarpi discute suas crenças e motivações íntimas em sua correspondência com Cristóvão de Dohna, enviado a Veneza por Cristiano I, Príncipe de Anhalt-Bernburg.[45] Sarpi disse a Dohna que detestava celebrar missa e a celebrava o menos possível, mas que era obrigado a fazê-lo, pois, caso contrário, pareceria admitir a validade da proibição papal. A máxima de Sarpi era que "Deus não se importa com as aparências, contanto que a mente e o coração estejam retos diante Dele".[46] Outra máxima que Sarpi formulou a Dohna foi Le falsità non dico mai mai, ma la verità non a ognuno ("Eu nunca, jamais conto mentiras, mas a verdade eu não conto a todos").
Sarpi, no final da sua vida, escreveu a Daniel Heinsius que favorecia o lado dos Contra-Remonstrantes Calvinistas no Sínodo de Dort.[47][48] Contudo, embora Sarpi se correspondesse com Jaime I de Inglaterra e admirasse o Livro de Oração Comum inglês, o teólogo católico Pierre François le Courayer, no século XVIII, escreveu que Sarpi não era protestante, chamando-o de "Catholique en gros et quelque fois Protestant en détail" ("Católico em geral e às vezes protestante em detalhe"). No século XX, William James Bouwsma descobriu que Sarpi era um filo-protestante cujas ideias religiosas eram, no entanto, "consistentes com a ortodoxia católica",[49] e Eric Cochrane descreveu-o como profundamente religioso no espírito típico da Contrarreforma.[50] Corrado Vivanti via Sarpi como um reformador religioso que aspirava a uma igreja ecumênica,[51] e o historiador Diarmaid MacCulloch descreve Sarpi como alguém que se afastou do cristianismo dogmático.[52] Por outro lado, em 1983, David Wootton argumentou que Sarpi era um materialista científico e, portanto, provavelmente um ateu "velado" que era "hostil ao próprio cristianismo" e cuja política visava uma sociedade secular irrealizável em sua época,[53] uma tese que obteve alguma aceitação.[54] Jaska Kainulainen, por outro lado, afirma que a tese de que Sarpi era ateu contradiz o registro histórico, observando que nem o ceticismo pronunciado de Sarpi nem sua visão pessimista das capacidades são incompatíveis com a fé religiosa.[55]
Publicações
- Trattato dell'interdetto di Paolo V nel quale si dimostra che non è legittimamente pubblicato, 1606.
- Apologia per le opposizioni fatte dal cardinale Bellarmino ai trattati et risolutioni di G. Gersone sopra la validità delle scomuniche, 1606.
- Considerationi sopra le censure della santità del papa Paolo V contra la Serenissima Repubblica di Venezia, 1606.
- Istoria del Concilio Tridentino, 1619.
- Il trattato dell'immunità delle chiese (De iure asylorum), 1622.
- Discorso dell'origine, forma, leggi ed uso dell'Uffizio dell'Inquisizione nella città e dominio di Venezia, 1638.
- Trattato delle materie beneficiarie, 1676.
- Opinione del Padre Paolo Servita, come debba governarsi la Repubblica Veneziana per havere il perpetuo dominio, Venezia, 1681. La storiografia recente attribuisce lo scritto al patriziato veneziano medesimo[56]
Edições

- Istoria del Concilio Tridentino, 1619.
- Istoria del Concilio tridentino. [S.l.: s.n.] 1629
- Istoria del Concilio Tridentino, 3 voll., Franco Pagnoni Editore, Milano, 1895.
- Istoria del Concilio tridentino. Col: Scrittori d'Italia 151. 1. [S.l.: s.n.] 1935
- Istoria del Concilio tridentino. Col: Scrittori d'Italia 152. 2. [S.l.: s.n.] 1935
- Istoria del Concilio tridentino. Col: Scrittori d'Italia 153. 3. [S.l.: s.n.] 1935
- Istoria del Concilio Tridentino, 2 voll., testo critico di Giovanni Gambarin, introduzione di Renzo Pecchioli, Collana Biblioteca, Sansoni, Firenze, 1966, pp. 1086; II ed. 1982.
- Lettere inedite di Fra Paolo Sarpi a Simone Contarini ambasciatore veneto in Roma, 1615, pubblicate dagli autografi. Col: Monumenti storici pubblicati dalla R. Deputazione veneta di storia patria. Serie 4, Miscellanea 12. [S.l.: s.n.] 1892
- Pagine scelte, a cura di Arturo Carlo Jemolo, Vallecchi, Firenze, 1924, pp. 71.
- Lettere ai protestanti. Col: Scrittori d'Italia 136. 1. [S.l.: s.n.] 1931
- Lettere ai protestanti. Col: Scrittori d'Italia 137. 2. [S.l.: s.n.] 1931
- Antologia degli scritti politici e storici. A cura di Francesco T. Roffarè, CEDAM, Padova, 1937, pp. 118.
- Istoria dell'Interdetto e altri scritti editi e inediti, Bari, Laterza, 1940.
- Istoria dell'interdetto. Col: Scrittori d'Italia 179. 1. [S.l.: s.n.] 1940
- Istoria dell'interdetto. Col: Scrittori d'Italia 180. 2. [S.l.: s.n.] 1940
- Istoria dell'interdetto. Col: Scrittori d'Italia 181. 3. [S.l.: s.n.] 1940
- Scritti filosofici e teologici. Col: Scrittori d'Italia 202. [S.l.: s.n.] 1951
- Pensieri naturali, metafisici e matematici. Manoscritto dell'iride e del calore - Arte di ben pensare - Pensieri medico-morali - Pensieri sulla religione - Fabulae - Massime e altri scritti. Edizione integrale commentata a cura di Luisa Cozzi e Libero Sosio, Ricciardi, Milão-Napoli, 1951-1956-1996, ISBN 978-88-78-17504-4, pp. XCIV-902.
- Scritti giurisdizionalistici. Col: Scrittori d'Italia 216. [S.l.: s.n.] 1958
- Lettere ai Gallicani, a cura di Boris Ulianich, Wiesbaden, F. Steiner, 1961.
- La Repubblica di Venezia la casa d'Austria e gli Uscocchi. [S.l.: s.n.] 1965
- Scritti scelti: Istoria dell'Interdetto, Consulti, Lettere, a cura di Giovanni Da Pozzo, Collezione di Classici Italiani n.14, UTET, Torino, I ed. 1968- 1974-1982, ISBN 978-88-02-01847-8, pp. 708.
- Storici, Politici, e Moralisti del Seicento, a cura di Luisa e Gaetano Cozzi, Collana La Letteratura Italiana. Storia e Testi vol.35, Milão-Napoli, Ricciardi, 1969-1997.
- Istoria del Concilio Tridentino. Seguita dalla «Vita del padre Paolo» di Fulgenzio Micanzio. A cura di Corrado Vivanti, 2 voll., Collana NUE n.156, Einaudi, Torino, 1974, pp. CLX-XV-1472; Collana Piccola Biblioteca. Nuova Serie, Einaudi, Torino, 2011, ISBN 978-88-06-20875-2.
- Pensieri. A cura di Gaetano e Luisa Cozzi, Collana Classici Ricciardi, Torino, 1976, ISBN 978-88-06-45039-7, pp. CXLVI-74.
- Considerazioni sopra le censure di papa Paolo V contro la Repubblica di Venezia e altri scritti sull'Interdetto, a cura di Gaetano e Luisa Cozzi, Collana Classici Ricciardi, Einaudi, Torino, 1977, ISBN 978-88-06-48223-7, pp. XIII-91.
- Lettere a Gallicani e Protestanti, Relazione dello Stato della Relazione, Trattato delle Materie Beneficiarie. A cura di Gaetano e Luisa Cozzi, Collana Classici Ricciardi, Einaudi, Torino, 1978, ISBN 978-88-06-10900-4, pp. 217.
- Gli ultimi consulti. 1612-1623. A cura di Gaetano e Luisa Cozzi, Collana Classici Ricciardi n.100, Einaudi, Torino, 1979, ISBN 978-88-06-24976-2, pp. 122.
- Dai «Consulti», il carteggio con l'ambasciatore inglese sir Dudley Carleston. A cura di Gaetano e Luisa Cozzi, Collana Classici Ricciardi, Einaudi, Torino, 1979, ISBN 978-88-06-12971-2, pp. XIV-253.
- Dal «Trattato di pace et accomodamento» e altri scritti sulla pace d'Italia. 1617-1620. A cura di Gaetano e Luisa Cozzi, Collana Classici Ricciardi, Einaudi, Torino, 1979, pp. XII-138.
- Consulti, 2 voll., a cura di Corrado Pin, Pisa-Roma, Istituti Editoriali e Poligrafici Internazionali, 2001.
- Letteratura e vita civile. Paolo Sarpi, Collana I Classici del Pensiero Italiano n. 23, Edizione speciale per Il Sole 24 Ore, Milano, 2006, pp. XIII-562.
- Della potestà de' prencipi, a cura di Nina Cannizzaro, Collana I Giorni, Marsilio, Venezia, 2007.
- Scritti filosofici inediti. Tratti da un manoscritto della Marciana a cura di G. Papini, Collana Cultura dell'anima, Rocco Carabba, Editore Lanciano, 2008 (reimpressão anastática de 1910), ISBN 978-88-63-44004-1, pp. 126.
Manuscritos
- Consulti: incipit - vol. III, p. 17, XVII século XVII, Milão, Biblioteca Nacional Braidense, Coleção de Manuscritos, AG.X.3/11.1.
- Consulti: vol. III, p. 18 - vol. VI, p. 99, XVII século XVII, Milão, Biblioteca Nacional Braidense, Coleção de Manuscritos, AG.X.3/11.2.
- Consulti: vol. VI, p. 100 - explicit, XVII século XVII, Milão, Biblioteca Nacional Braidense, Coleção de Manuscritos, AG.X.3/11.3.
Referências
- ↑ «Sarpi, Paolo». liberliber.it. Consultado em 23 de setembro de 2010. Arquivado do original em 11 de março de 2007
- ↑ Nadon, "Paolo Sarpi and the Venetian Interdict", Enlightenment and Secularism: Essays on the Mobilization of Reason, página 20.
- ↑ Peter Burke, editor and translator, The History of Benefices and Selections from the History of the Council of Trent, by Paolo Sarpi (New York: Washington Square Press, 1962), p. xxvii.
- ↑ Naylor, Ron (dezembro de 2014). «Paolo Sarpi and the first Copernican tidal theory». The British Journal for the History of Science (em inglês) (4): 661–675. ISSN 0007-0874. doi:10.1017/S0007087413000976. Consultado em 15 de janeiro de 2021. Cópia arquivada em 14 de maio de 2026
- ↑ Sarpi "De fato foi o autor Italiano mais amplamente traduzido para o inglês entre 1620–1720," Christopher Nadon, "Paolo Sarpi and the Venetian Interdict", Enlightenment and Secularism: Essays on the Mobilization of Reason, Christopher Nadon, editor (Lexington Books, 2013), página 20.
- ↑ David C. Hendrickson, Professor de Relações Internacionais na Faculdade do Colorado, "Venice and the Liberty of States", IR and all that : Classic Readings on International Relations, 13 de Dezembro, 2013 (em inglês).
- ↑ Burke, The History of Benefices and Selections from the History of the Council of Trent, by Paolo Sarpi, p. x.
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- ↑ Eric Cochrane respondeu chamando a tese de Wootton de obra de "criptografia" em vez de história e o acusou de não ter lido ou de ter suprimido evidências contraditórias dos estudiosos citados em sua extensa bibliografia. Veja resenha de Eric Cochrane, «Paolo Sarpi: Between Renaissance and Enlightenment. David Wootton», no The Journal of Modern History: 57: 1 (março de 1985): 151–53. Apesar disso, vários estudiosos aceitaram a teoria de Wootton, incluindo A.P. Martinich, Richard Tuck, Paul A. Rahe e Gianluca Mori. Veja Kainulainen, Paolo Sarpi: a Servant of God and State (Brill, 2014), p. 127.
- ↑ Kainulainen, Paolo Sarpi: A Servant of God and State, pp. 129–30.
- ↑ Borgna Romain, Faggion Lucien (dir.), Le Prince de Fra' Paolo. Pratiques politiques et forma mentis du patriciat à Venise au XVII° Siécle, Aix-en-Provence, Université de Provence, 2011
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