BETA ZEN
Tecido ósseo
Texto da Wikipédia (pt), licença CC BY-SA. O BETARUBI mostra o verbete inteiro nesta página — a leitura não continua fora do site.

O tecido ósseo é constituinte do esqueleto dos vertebrados; serve de apoio para as partes moles do corpo; protege órgãos vitais; aloja e protege a medula óssea; proporciona apoio aos músculos esqueléticos, transformando suas contrações em movimentos úteis, e constitui um sistema de alavancas que amplia as forças geradas pela contração muscular. Além dessas funções, os ossos funcionam como depósitos de cálcio, fosfato e outros íons, armazenando-os ou liberando-os de maneira controlada, para manter constante a concentração desses importantes íons nos líquidos corporais.
O tecido ósseo é um tipo especializado de tecido conjuntivo formado por células e uma matriz extracelular calcificada, a matriz óssea. A única forma de nutrição dessas células é através de canalículos por onde passam capilares já que a matriz calcificada não permite a difusão de substâncias até as células.
Todos os ossos são revestidos em suas superfícies externas e internas por membranas conjuntivas que possuem células osteogênicas (ou seja, células que atuam na formação óssea), o periósteo e o endósteo, respectivamente.
Células


Osteócitos
Osteócitos são as células encontradas no interior da matriz óssea , ocupando as lacunas das quais partem em pequenos espaços que se formam entre as células dos ossos, em outras palavras canalículos. Cada lacuna contém apenas um osteócito. Dentro dos canalículos os prolongamentos dos osteócitos estabelecem contatos através de junções comunicantes, por onde podem passar pequenas moléculas e íons de um osteócito para outro.
Osteoblastos
Osteoblastos são as células que sintetizam a parte orgânica - como o colágeno tipo I - da matriz óssea além de participar da mineralização desta. Dispõem-se sempre nas superfícies ósseas, lado a lado, num arranjo que lembra um epitélio simples. Uma vez aprisionado pela matriz recém-sintetizada o osteoblasto passa a se chamar osteócito. A matriz se deposita ao redor do corpo da célula e de seus prolongamentos, formando assim as lacunas e os canalículos respectivamente.
Osteoclastos
Osteoclastos são células móveis, gigantes, multinucleadas e extensamente ramificadas. São as células responsáveis pela remodelação óssea que ocorre ao longo do crescimento de um osso ou em condições que favoreçam a reabsorção óssea, como a osteoporose ou a remodelação de uma região de fratura. Ficam localizados em regiões chamadas lacunas de Howship e podem ser requisitados para outras regiões do osso de acordo com a necessidade, guiando-se através de quimiotaxia.
Matriz óssea
A Matriz óssea tem 50% de seu peso composto por matéria inorgânica. Os íons mais encontrados são o fosfato e o cálcio que formam cristais com estrutura de hidroxiapatita. Há também magnésio, potássio, sódio e citrato em menos quantidades.
A porção orgânica da matriz óssea é composta por 95% de fibras colágenas, constituídas de colágeno tipo I e por pequena quantidade de proteoglicanos e glicoproteínas.
A associação de hidroxiapatita com fibras colágenas é responsável pela dureza e resistência do tecido ósseo. Quando se remove o cálcio dessa equação, o osso mantém sua forma, mas fica tão flexível quanto um tendão. E quando se remove o colágeno, como depois do o osso ser incinerado, ele também mantém a forma, mas fica tão quebradiço que dificilmente pode ser manipulado sem se partir.
Periósteo e Endósteo
As superfícies internas e externas dos ossos são recobertas por células osteogênicas e tecido conjuntivo, que constituem o endósteo e o periósteo, respectivamente.
A camada mais superficial do periósteo contém principalmente fibras colágenas e fibroblastos. Na sua porção profunda, o periósteo é mais celularizado e apresenta células osteoprogenitoras, que se multiplicam por mitose e se diferenciam em osteoblastos, desempenhando papel importante no crescimento dos ossos e na reparação das fraturas.
O endósteo é constituído geralmente por uma camada de células osteogênicas achatadas revestindo as cavidades do osso esponjoso , o canal medular e os canalículos.
As principais funções do endósteo e do periósteo são a nutrição do tecido ósseo e o fornecimento de novos osteoblastos para o crescimento e a recuperação do osso.
Tipos de tecido ósseo
Histologicamente, existem dois tipos de tecido ósseo: imaturo ou primário; e maduro, secundário ou lamelar. Os dois tipos possuem as mesmas células e os mesmo constituintes da matriz. O tecido primário é o que aparece inicialmente, tanto no desenvolvimento embrionário como na reparação das fraturas; sendo temporário e substituído por tecido secundário.
Tecido ósseo primário
O tecido ósseo primário (não lamelar) apresenta fibras colágenas dispostas em várias direções sem organização definida, tem menos quantidade de minerais e maior proporção de osteócitos quando comparada ao tecido ósseo secundário. Encontra-se pouco presente em adultos, persistindo apenas próximo às suturas dos ossos do crânio e nos alvéolos dentários.
O tecido ósseo primário é formado através de ossificação intramembranosa e surge a partir da diferenciação de células de tecido conjuntivo em osteoblastos. A membrana de tecido conjuntivo restante se condensa e forma o periósteo.
Tecido ósseo secundário (lamelar)
O tecido ósseo secundário é a variedade geralmente encontrada no adulto. Sua principal característica é possuir fibras colágenas organizadas em lamelas de 3 a 7 μm (micrômetro) de espessura que, ou ficam paralelas umas às outras, ou se dispõem em camadas concêntricas em torno de canais com vasos formando os Sistemas de Havers ou ósteons.
Outra classificação dos ossos

Observando-se a olho nu a superfície de um osso serrado, verifica-se que há partes sem cavidades visíveis - o osso compacto ou denso - e por partes com muitas cavidades intercomunicantes - o osso esponjoso ou reticulado. Esta classificação é macroscópica e não histológica como visto acima, porém, ainda assim, ela é muito utilizada no dia-a-dia dos zoólogos e paleontólogos. Tais tipos apresentam o mesmo tipo de célula e de substância intracelular, mudando apenas entre si a disposição de seus elementos e a quantidade de espaços medulares. A substância óssea esponjosa e a compacta aparecem juntas na maioria dos ossos dos vertebrados.
Substância óssea esponjosa
A substância óssea esponjosa apresenta espaços medulares mais amplos, sendo formada por várias trabéculas, que dão um aspecto poroso ao tecido. O osso esponjoso é o de menor peso, tem forma de grade, com espaços ósseos nos quais se encontra a medula óssea. Existe tanto a medula óssea vermelha - que produz grande quantidade de células do sangue - quanto a medula óssea amarela - que diminui a quantidade de células no sangue. Com o envelhecimento, perde-se medula óssea vermelha e esta se transforma em amarela.
Geralmente, o osso esponjoso localiza-se na parte interna da diáfise, ou corpo dos ossos, e na epífise, as extremidades.
Substância óssea compacta

Apresenta pouquíssimo espaço medular, possuindo, no entanto, um conjunto de canais que são percorridos por nervos e vasos sanguíneos: canais de Volkmann e canais de Havers. Por serem uma estrutura inervada e irrigada, os ossos têm sensibilidade, alto metabolismo e capacidade de regeneração.
Canais de Volkmann
Os canais de Volkmann começam na superfície externa ou interna do osso, possuindo uma trajetória transversal. Esses canais se comunicam com os canais de Havers. Os canais de Volkmann não apresentam lamelas concêntricas.
Canais de Havers
O Canais de Havers percorrem o osso longitudinalmente (ou no eixo axial) e podem intercomunicar-se por projeções laterais. Em cortes transversais, percebe-se que ao redor de cada canal de Havers existem várias lamelas concêntricas de substância intercelular e de células ósseas. Cada conjunto deste, formado pelo canal central de Havers e por lamelas concêntricas, é chamado de Sistema de Havers ou Sistema haversiano.
Histogênese
Ossificação intramembranosa
A ossificação intramembranosa ocorre na formação de ossos curtos, ossos do crânio e no crescimento em espessura de ossos longos. Esse tipo de ossificação não depende da presença de tecido cartilaginoso e sim de uma membrana conjuntiva, na qual haverá diferenciação de células mesenquimais em osteoblastos. O local de início da ossificação é chamado centro de ossificação primária. Vários centros de ossificação podem ser iniciados ao mesmo tempo, como ocorre na formação do crânio, cujos ossos ainda não se encontram totalmente fundidos no momento do nascimento.
Ossificação endocondral
A ossificação endocondral ocorre na formação de ossos longos (como o fêmur) na fase embrionária e também nas extremidades desses ossos ao longo do crescimento do indivíduo. As extremidades ósseas são chamadas epífises. Nestas regiões, há uma camada de cartilagem e para que ocorra o crescimento, os condrócitos presentes nesse tecido deverão sofrer proliferação seguida de morte, deixando uma matriz cartilaginosa que, em seguida, é vascularizada e invadida por células do tecido ósseo, como componentes da medula óssea, osteoclastos e osteoblastos. A matriz cartilaginosa é utilizada como base para a deposição da matriz calcificada. Após a formação da matriz extracelular óssea, há ação de osteoclastos na porção mais central do osso, formando (ou aumentando, no caso de um osso em crescimento) a cavidade medular.
Crescimento e remodelação dos ossos
O crescimento dos ossos consiste na formação do tecido ósseo novo, associada à reabsorção parcial de tecido já formado. Deste modo, os ossos conseguem manter sua forma enquanto crescem.

Apesar de sua resistência às pressões e da sua dureza, o tecido ósseo é muito plástico, sendo capaz de responder a modificações nas forças a que está submetido remodelando sua estrutura interna.
Fraturas
Nos locais de fratura óssea ocorre hemorragia, pela lesão dos vasos sanguíneos, destruição da matriz e morte de células ósseas.
Macrófagos removem o coágulo sanguíneo, restos de células e restos da matriz para que se possa começar o reparo da fratura. O periósteo e o endósteo próximos à área de fratura respondem com uma intensa proliferação, formando um tecido muito rico em células osteoprogenitoras que constitui um colar em torno da fratura e penetra entre as extremidades ósseas rompidas. Esse processo se desenvolve de modo a aparecer um calo ósseo após algum tempo.
As trações e pressões exercidas sobre o osso durante a reparação da fratura, e após o retorno do paciente a suas atividades normais, causam a remodelação do calo ósseo e sua completa substituição por tecido ósseo lamelar. Se essas trações e pressões forem idênticas às exercidas sobre o osso antes da fratura, a estrutura do osso volta a ser a mesma que existia anteriormente; é exatamente essa uma das principais funções das sessões de fisioterapia recomendada para pacientes que sofreram fraturas. Ao contrário dos outros tecidos conjuntivos, o tecido ósseo, apesar de ser duro, repara-se sem a formação de cicatriz.
Papel metabólico do tecido ósseo
O esqueleto é a reserva de cálcio dos vertebrados, contendo mais de 90% desse íon em sua composição inorgânica. A concentração deste no sangue ( calcemia ) deve ser mantida constante para o funcionamento adequado do organismo. Há um intercâmbio contínuo entre os íons cálcio do sangue e dos ossos. Quando nos alimentamos, esse íon é absorvido da comida para a corrente sanguínea e rapidamente é depositado nos ossos. De forma inversa, quando há diminuição da calcemia o cálcio dos ossos é mobilizado para o sangue.
Essas transferências de íons cálcio entre esses dois tecidos (o sangue também é considerado um tecido) podem ocorrer de maneira espontânea, por difusão simples, ou podem ser mediadas por um hormônio das glândulas paratireoides, o paratormônio, e um outro hormônio da tireoide, a calcitonina.
Articulações


As articulações são estruturas formadas por tecido conjuntivo que unem os ossos entre si, formando o esqueleto. Elas podem ser classificadas em diartroses, que permitem grande movimento dos ossos (vide imagem), e sinartroses, nas quais não ocorrem movimentos ou estes são muito limitados.
Nas diartroses existe uma cápsula que liga as extremidades ósseas, delimitando uma cavidade fechada, a cavidade articular. Ela contém um líquido incolor, transparente e viscoso, o líquido sinovial, com alta concentração de ácido hialurônico, molécula com efeito lubrificante que facilita o movimento articular.
A resiliência da cartilagem é um eficiente amortecedor das pressões mecânicas intermitentes que são exercidas sobre a cartilagem articular. Mecanismos semelhantes ocorrem nos discos intervertebrais.
Metabolismo de carboidratos do tecido ósseo
Glicólise

A glicose desempenha funções fundamentais no metabolismo das células ósseas, atuando tanto como fonte de energia quanto como precursora de importantes vias biossintéticas. Inicialmente, a glicose é metabolizada pela glicólise, um processo que consome duas moléculas de ATP nas etapas iniciais e produz quatro moléculas de ATP ao final, resultando em um ganho líquido de duas moléculas de ATP por glicose. Durante essa via, também ocorre a oxidação de duas moléculas de NAD⁺, formando duas moléculas de NADH.[1][2]
Embora a glicólise seja menos eficiente na produção de ATP por molécula de glicose quando comparada à fosforilação oxidativa, ela ocorre rapidamente e representa uma importante fonte energética para as células ósseas. Nos osteoblastos maduros, a glicólise aeróbica pode ser responsável por até 80% do ATP produzido. Essa elevada produção de energia é essencial para sustentar processos altamente demandantes, como a síntese de colágeno, principal componente orgânico da matriz óssea.[1]
Além de fornecer energia, a captação e o metabolismo da glicose são necessários para a manutenção da estabilidade do fator de transcrição RUNX2, considerado o principal regulador da diferenciação osteoblástica. A atividade glicolítica adequada impede a degradação desse fator, permitindo a expressão de genes relacionados à formação óssea e à produção de proteínas da matriz extracelular, incluindo o colágeno.[1]
A glicose também fornece intermediários metabólicos para vias biossintéticas. Um exemplo é a frutose-6-fosfato, que pode ser direcionada para a via das hexosaminas. Essa via produz açúcares utilizados na síntese de glicoproteínas, proteoglicanos e glicosaminoglicanos, moléculas fundamentais para a organização estrutural, hidratação, mineralização, comunicação celular e manutenção da viabilidade da matriz óssea.[1][2]
Além disso, a glicose captada pelas células, principalmente por meio do transportador GLUT1, alimenta diversas vias metabólicas ramificadas que fornecem intermediários necessários para a biossíntese de proteínas e componentes da matriz extracelular. Dessa forma, sua função vai além da geração de ATP, contribuindo diretamente para os processos anabólicos associados à formação óssea.[1][2]
Nos condrócitos, células responsáveis pela formação e manutenção da cartilagem, a glicólise assume um papel ainda mais importante devido à baixa vascularização desse tecido. Nessas células, a glicólise responde por aproximadamente 60% da produção de ATP, sendo essencial para sua sobrevivência e função. A ausência do transportador GLUT1 resulta em uma redução acentuada da produção de colágeno e de matriz extracelular.[1]
Glicogenólise
A glicogenólise é o processo metabólico responsável pela degradação do glicogênio para fornecer energia ou disponibilizar glicose de acordo com as necessidades do organismo. No tecido ósseo, essa via funciona como um importante sistema de reserva energética, especialmente em condições de hipóxia ou escassez de nutrientes. O processo inicia-se pela ação da enzima glicogênio fosforilase, que utiliza fosfato inorgânico para romper as ligações glicosídicas α-1,4 do glicogênio, liberando glicose-1-fosfato (G1P). Quando a degradação alcança os pontos de ramificação da molécula, entram em ação as enzimas de desramificação, que removem as ligações α-1,6 e permitem a continuação da degradação do polímero. A glicose-1-fosfato produzida é então convertida em glicose-6- fosfato (G6P) pela enzima fosfoglucomutase. [2]
O destino da glicose-6-fosfato varia conforme o tecido. No fígado e nos rins, a enzima glicose-6-fosfatase converte a G6P em glicose livre, que pode ser liberada na corrente sanguínea para contribuir com a manutenção da glicemia. Já no músculo esquelético e na maioria das células ósseas, onde essa enzima está ausente ou apresenta atividade muito limitada, a glicose-6-fosfato é direcionada diretamente para a glicólise, produzindo ATP para atender às demandas energéticas locais.[1][2]
No tecido ósseo, a glicogenólise apresenta uma importância particular nas células-tronco e progenitoras esqueléticas (SSPCs). Essas células frequentemente enfrentam ambientes com baixa vascularização e reduzida disponibilidade de oxigênio, como ocorre após lesões, fraturas ou procedimentos de regeneração óssea. Nessas condições, os estoques de glicogênio acumulados previamente tornam-se uma fonte crítica de energia. A degradação desse glicogênio permite a produção contínua de glicose-6-fosfato e ATP, sustentando a sobrevivência celular e os processos necessários para o reparo tecidual.[1][2]
A adaptação a essas condições é fortemente influenciada pelo fator induzível por hipóxia HIF1α. A ativação dessa via aumenta o acúmulo de glicogênio nas SSPCs antes mesmo que o estresse metabólico ocorra, funcionando como uma forma de preparação metabólica. Dessa maneira, quando o suprimento sanguíneo é reduzido ou a disponibilidade de nutrientes diminui, as células podem mobilizar rapidamente suas reservas através da glicogenólise, preservando seu metabolismo e sua capacidade regenerativa.[1][3]
Glicogênese
A glicogênese é o processo bioquímico responsável pela síntese de glicogênio, a principal forma de armazenamento de glicose no organismo. Embora ocorra predominantemente no fígado, onde contribui para a manutenção da glicemia, e no músculo esquelético, onde funciona como reserva energética local, estudos demonstram que essa via também está presente em células do tecido ósseo, especialmente em condrócitos préhipertróficos da placa de crescimento e em células progenitoras esqueléticas (SSPCs) localizadas no periósteo. Nesse contexto, a glicogênese atua como uma estratégia de armazenamento energético, permitindo que as células disponham de reservas de glicose para situações de baixa disponibilidade de nutrientes ou de suprimento sanguíneo reduzido.[1][2]
O processo inicia-se com a entrada da glicose na célula, onde ela é fosforilada pelas enzimas hexocinase ou glicocinase, formando glicose-6-fosfato (G6P). Em seguida, a G6P é convertida em glicose-1-fosfato (G1P) pela enzima fosfoglucomutase. A glicose1-fosfato então reage com UTP para formar UDP-glicose, a forma ativada da glicose, em uma reação catalisada pela UDP-glicose pirofosforilase. Posteriormente, a enzima glicogênio sintase incorpora as moléculas de UDP-glicose a uma cadeia pré-existente de glicogênio por meio de ligações glicosídicas α-1,4. À medida que a cadeia cresce, a enzima de ramificação cria ligações α-1,6, formando uma estrutura altamente ramificada que facilita tanto o armazenamento quanto a rápida mobilização da glicose quando necessário.[1][2]
No tecido ósseo, a glicogênese desempenha funções específicas relacionadas à sobrevivência celular e ao desenvolvimento esquelético. Em células progenitoras esqueléticas, a sinalização mediada pelo fator induzível por hipóxia HIF1α estimula o acúmulo de glicogênio como uma forma de pré-condicionamento metabólico. Esse estoque energético torna-se essencial para a sobrevivência celular em ambientes com baixa disponibilidade de oxigênio ou nutrientes, permitindo que a glicose armazenada seja posteriormente mobilizada pela glicogenólise para sustentar o metabolismo celular e favorecer a regeneração óssea. Nos condrócitos, a enzima glicogênio sintase 1 (GYS1) é responsável pela formação dessas reservas de glicogênio. Embora a ausência dessa enzima não impeça o crescimento normal da cartilagem, evidências sugerem que a glicogênese pode participar da regulação de determinadas lesões tumorais cartilaginosas, como os encondromas, em contextos associados a mutações genéticas específicas.[1][4][5]
Gliconeogênese
A gliconeogênese é a via metabólica responsável pela síntese de glicose a partir de precursores não carboidratos, desempenhando um papel essencial na manutenção da glicemia durante períodos de jejum prolongado ou de elevada demanda energética. Esse processo ocorre predominantemente no fígado, responsável por cerca de 90% da produção de glicose, e nos rins, que contribuem com aproximadamente 10%, embora pequenas atividades também possam ser observadas em outros tecidos. A via possui caráter compartimentalizado, iniciando-se na mitocôndria e finalizando-se no citoplasma.[1][2][6]
A gliconeogênese utiliza diferentes substratos como matéria-prima para a produção de glicose. Entre eles estão o lactato proveniente do músculo esquelético e dos eritrócitos por meio do ciclo de Cori, aminoácidos como alanina e glutamina, e o glicerol liberado durante a degradação de triglicerídeos no tecido adiposo. A atividade da via é regulada principalmente por hormônios que refletem o estado energético do organismo. Glucagon, cortisol, adrenalina e tiroxina estimulam a gliconeogênese, aumentando a expressão das enzimas-chave e favorecendo a produção de glicose. Por outro lado, a insulina atua como principal inibidor da via, reduzindo a produção hepática de glicose após a alimentação.[1][6]
No tecido ósseo, entretanto, a gliconeogênese apresenta um papel bastante diferente daquele observado em órgãos clássicos como fígado e rins. Osteoblastos, osteoclastos e condrócitos saudáveis não realizam gliconeogênese ativa, sendo predominantemente consumidores de glicose para sustentar processos como proliferação celular, síntese de matriz extracelular, mineralização e reabsorção óssea. Dessa forma, essas células dependem do fornecimento de glicose proveniente da circulação e de outras vias metabólicas para atender suas necessidades energéticas e biossintéticas.[1][2][3][6]
Em contraste, em tumores ósseos e em metástases que colonizam o tecido ósseo, enzimas típicas da gliconeogênese podem ser recrutadas para desempenhar funções completamente diferentes de sua atividade fisiológica original. As enzimas fosfoenolpiruvato carboxicinase citoplasmática (PCK1) e mitocondrial (PCK2) tornamse componentes centrais da reprogramação metabólica das células cancerígenas. Nessas células, o oxaloacetato derivado do ciclo de Krebs é convertido em fosfoenolpiruvato, que deixa de ser utilizado para produzir glicose e passa a servir como precursor para a síntese de lipídios, nucleotídeos e outras moléculas necessárias para a rápida proliferação tumoral.[5][6]
Assim, embora a gliconeogênese não desempenhe papel central no metabolismo de células ósseas saudáveis, diversas enzimas dessa via podem ser reutilizadas por células tumorais para sustentar crescimento, sobrevivência e adaptação metabólica em ambientes hostis, transformando a maquinaria gliconeogênica em uma ferramenta para a progressão tumoral.[5][6]
Veja também
- Lista de ossos do esqueleto humano
- Ortopedia
- Idade óssea
- Osteoporose
- CID-10 Capítulo XIII: Doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Karner, Courtney M.; Long, Fanxin (outubro de 2018). «Glucose metabolism in bone». Bone (em inglês). 115: 2–7. PMC 6030501
. PMID 28843700. doi:10.1016/j.bone.2017.08.008. Cópia arquivada em 8 de julho de 2025 - 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Dashty, Monireh (1 de outubro de 2013). «A quick look at biochemistry: Carbohydrate metabolism». Clinical Biochemistry. 46 (15): 1339–1352. ISSN 0009-9120. doi:10.1016/j.clinbiochem.2013.04.027
- 1 2 Stegen, Steve; van Gastel, Nick; Eelen, Guy; Ghesquière, Bart; D’Anna, Flora; Thienpont, Bernard; Goveia, Jermaine; Torrekens, Sophie; Van Looveren, Riet; Luyten, Frank P.; Maxwell, Patrick H.; Wielockx, Ben; Lambrechts, Diether; Fendt, Sarah-Maria; Carmeliet, Peter (fevereiro de 2016). «HIF-1α Promotes Glutamine-Mediated Redox Homeostasis and Glycogen-Dependent Bioenergetics to Support Postimplantation Bone Cell Survival». Cell Metabolism. 23 (2): 265–279. ISSN 1550-4131. PMC 7611069
. PMID 26863487. doi:10.1016/j.cmet.2016.01.002. Cópia arquivada em 14 de julho de 2025 - ↑ Stegen, Steve; Carmeliet, Geert (julho de 2024). «Metabolic regulation of skeletal cell fate and function». Nature Reviews Endocrinology (em inglês). 20 (7): 399–413. ISSN 1759-5029. doi:10.1038/s41574-024-00969-x. Cópia arquivada em 10 de abril de 2024
- 1 2 3 Devignes, Claire-Sophie; Carmeliet, Geert; Stegen, Steve (1 de dezembro de 2022). «Amino acid metabolism in skeletal cells». Bone Reports. 17. 101620 páginas. ISSN 2352-1872. PMC 9475269
. PMID 36120644. doi:10.1016/j.bonr.2022.101620. Cópia arquivada em 10 de setembro de 2022 - 1 2 3 4 5 Yu, Shuo; Meng, Simin; Xiang, Meixiang; Ma, Hong (1 de novembro de 2021). «Phosphoenolpyruvate carboxykinase in cell metabolism: Roles and mechanisms beyond gluconeogenesis». Molecular Metabolism. 53. 101257 páginas. ISSN 2212-8778. PMC 8190478
. PMID 34020084. doi:10.1016/j.molmet.2021.101257. Cópia arquivada em 7 de agosto de 2022
- Junqueira, L. C. & Carneiro, J. Histologia Básica. 11ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.
- Junqueira, L. C. & Carneiro, J. Histologia Básica. 10ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004.
- White, A. & Wallis, G. Endochondral ossification: A delicate balance between growth and mineralisation. Aug. 2001. Currenty Biology Vol. 11 No. 15.
- Mackie, E. J., Ahmed,Y. A., Tatarczuch, L., Chen, K.-S., Mirams, M. Endochondral ossification: How cartilage is converted into bone in the developing skeleton. The International Journal of Biochemistry & Cell Biology 40 (2008) 46–62.
Ligações externas
- [http://www.manualmerck.net/?url=/artigos/%3Fid%3D72 Manual Merck - Ossos, articulações e músculos}
- Reabsorção Óssea - O que é, como ocorre, consequências
