BRZEN
Lipólise
Texto da Wikipédia (pt), licença CC BY-SA. O BETARUBI mostra o verbete inteiro nesta página — a leitura não continua fora do site.


A lipólise é a via metabólica através da qual os lípidos triglicerídeos são hidrolisados em glicerol e ácidos gordos livres.[1] É utilizada para mobilizar a energia armazenada durante o jejum ou o exercício físico, ocorrendo geralmente nos adipócitos do tecido adiposo.[2] A lipólise é o processo metabólico pelo qual os triglicerídeos (TAGs ou triacilgliceróis) são degradados por hidrólise, resultando nas suas moléculas constituintes: glicerol e ácidos gordos livres. O armazenamento de gorduras no organismo consiste na acumulação de triglicerídeos no tecido adiposo, sendo utilizado para produzir, quando necessário, calor, energia e isolamento térmico.[3]
Mecanismos


No organismo, as reservas de gordura encontram-se no tecido adiposo. Nestas áreas, os triglicerídeos intracelulares são armazenados em gotículas lipídicas citoplasmáticas dos adipócitos. Quando as enzimas lipases são fosforiladas, conseguem aceder às gotículas lipídicas e, através de múltiplos passos de hidrólise, degradam os triglicerídeos em ácidos gordos e glicerol. Cada passo da hidrólise resulta na remoção de um ácido gordo. O primeiro passo, que é o passo limitante da velocidade da lipólise, é realizado pela triglicerídeo lipase adiposa (ATGL). Esta enzima catalisa a hidrólise de triacilglicerol (triglicerídeo) em diacilglicerol (diglicerídeo) e um ácido gordo. Em seguida, a lipase sensível a hormonas (HSL) catalisa a hidrólise de diacilglicerol em monoacilglicerol (monoglicerídeo) e um ácido gordo; finalmente, a monoacilglicerol lipase (MGL) catalisa a hidrólise de monoacilglicerol em glicerol e um ácido gordo.[4]
As perilipinas são proteínas que atuam como um escudo físico ou estrutura dinâmica, impedindo que as enzimas lipolíticas do citosol acedam aos triglicerídeos armazenados durante períodos de abundância energética. [5]
A perilipina 1A é uma proteína reguladora fundamental da lipólise no tecido adiposo. Esta proteína associada à gotícula lipídica do adipócito, quando inativa, impede a interação das lipases com os triglicerídeos da gotícula e sequestra o coativador da ATGL, designado CGI-58 (identificação de gene comparativa 58, também conhecido como ABHD5). Quando a perilipina 1A é fosforilada pela PKA, liberta o CGI-58 e acelera o acoplamento de lipases fosforiladas na gotícula lipídica.[6] O CGI-58 pode ser posteriormente fosforilado pela PKA para auxiliar a sua dispersão pelo citoplasma, onde pode então coativar a ATGL.[7] A atividade da ATGL é também afetada pelo regulador negativo da lipólise G0S2 (gene do interruptor de G0/G1 2). Quando expresso, o G0S2 atua como um inibidor competitivo na união do CGI-58.[8] A proteína específica de gorduras 27 (FSP-27, também chamada CIDEC) é igualmente um regulador negativo da lipólise; a sua expressão está negativamente correlacionada com os níveis de ARNm de ATGL.[9]
Regulação

A lipólise pode ser regulada pela ligação do AMP cíclico à proteína quinase A (PKA) e consequente ativação desta. A PKA pode fosforilar lipases, a perilipina 1A e o CGI-58 para incrementar a velocidade da lipólise. As catecolaminas ligam-se a recetores 7TM (recetores acoplados à proteína G) situados na membrana do adipócito, os quais ativam a adenilato ciclase. Isto resulta num aumento da produção de AMPc, que ativa a PKA e origina um incremento da taxa lipolítica. Apesar da atividade lipolítica do glucagon (que também estimula a PKA) in vitro, o papel desta hormona na lipólise in vivo é alvo de debate.[11]
A insulina contrarregula este incremento quando se liga a recetores específicos na membrana do adipócito. Estes recetores ativam substratos proteicos que, por sua vez, ativam a fosfoinositídeo 3-quinase (PI-3K), a qual fosforila a proteína quinase B (PKB) (também designada Akt). A PKB fosforila então a fosfodiesterase 3B (PD3B), que converte o AMPc produzido pela adenilato ciclase em 5'AMP. Esta redução dos níveis de AMPc induzida pela insulina diminui a velocidade da lipólise.[12]
A insulina atua também no cérebro, especificamente no hipotálamo médio-basal, onde suprime a lipólise e diminui a atividade do sistema nervoso simpático.[13] A regulação deste processo envolve interações entre recetores de insulina e gangliosídeos presentes na membrana plasmática neuronal.[14]
A taxa de lipólise varia entre os diferentes depósitos de gordura devido a diferenças na expressão de recetores adrenérgicos. Os recetores beta-adrenérgicos (\u03B2\u2081, \u03B2\u2082, \u03B2\u2083) estimulam a lipólise através da ativação da adenilato ciclase, enquanto os recetores alfa-2 (\u03B1\u2082\u2090) a inibem.[15] O tecido adiposo subcutâneo abdominal apresenta uma maior razão \u03B1\u2082:\u03B2 em comparação com o tecido adiposo visceral, o qual expressa predominantemente o recetor \u03B2\u2083 e é mais sensível à estimulação por catecolaminas.[16]
No sangue
Os triglicerídeos são transportados pelo sangue até aos tecidos-alvo (tecido adiposo, músculo, etc.) por lipoproteínas, como as VLDL. Nestes locais, sofrem lipólise pela ação de lipases celulares, libertando glicerol e ácidos gordos livres para captação celular.[17] Os ácidos gordos não captados de imediato ligam-se à albumina, que é o seu principal transportador sanguíneo.[18]
O glicerol entra na corrente sanguínea e é absorvido pelo fígado ou rins, onde a glicerocinase o converte em glicerol-3-fosfato. Este é convertido em diidroxiacetona fosfato (DHAP) e depois em gliceraldeído-3-fosfato (GA3P), reintegrando as vias da glicólise e da gluconeogénese.[19]
Lipogénese
Enquanto a lipólise é a hidrólise de triglicerídeos, a esterificação é o processo de formação dos mesmos. A esterificação de ácidos gordos no glicerol (lipogénese) e a lipólise são processos essencialmente inversos.[20]
Procedimentos médicos
A lipólise física envolve a destruição de células adiposas e pode ser utilizada em procedimentos cosméticos. Para além da lipoaspiração minimamente invasiva, existem métodos não invasivos em medicina estética: terapia laser, criolipólise, radiofrequência e ultrassons focados.[21][22] Estes métodos são, contudo, menos eficazes que a lipoaspiração tradicional (lipectomia).[carece de fontes]
Referências
- ↑ Lafontan, Max; Langin, Dominique (2009). «Lipolysis and lipid mobilization in human adipose tissue». Progress in Lipid Research. 48 (5): 275–297. Bibcode:2009PLipR..48..275L. PMID 19464318. doi:10.1016/j.plipres.2009.05.001
- 1 2 Duncan, Robin E.; Ahmadian, Maryam; Jaworski, Kathy; Sarkadi-Nagy, Eszter; Sul, Hei Sook (agosto de 2007). «Regulation of Lipolysis in Adipocytes». Annual Review of Nutrition. 27 (1): 79–101. Bibcode:2007ARNut..27...79D. PMC 2885771
. PMID 17313320. doi:10.1146/annurev.nutr.27.061406.093734 - ↑ Edwards, Michael; Mohiuddin, Shamim S. (2026). Biochemistry, Lipolysis. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing. PMID 32809399. Consultado em 18 de abril de 2026
- ↑ Frühbeck, G; Méndez-Giménez, L; Fernández-Formoso, JA; Fernández, S; Rodríguez, A (junho de 2014). «Regulation of adipocyte lipolysis.». Nutrition Research Reviews. 27 (1): 63–93. PMID 24872083. doi:10.1017/S095442241400002X
- ↑ Brasaemle, Dawn L. «Thematic review series: Adipocyte Biology. The perilipin family of structural lipid droplet proteins: stabilization of lipid droplets and control of lipolysis». Journal of Lipid Research. 48 (12): 2547–2559. ISSN 0022-2275. doi:10.1194/jlr.R700014-JLR200 – via Journal of Lipid research
- ↑ Itabe, H; Yamaguchi, T; Nimura, S; Sasabe, N (28 de abril de 2017). «Perilipins: a diversity of intracellular lipid droplet proteins.». Lipids in Health and Disease. 16 (1): 83. PMC 5410086
. PMID 28454542. doi:10.1186/s12944-017-0473-y - ↑ Sahu-Osen, A; Montero-Moran, G; Schittmayer, M; Fritz, K; Dinh, A; Chang, YF; McMahon, D; Boeszoermenyi, A; Cornaciu, I; Russell, D; Oberer, M; Carman, GM; Birner-Gruenberger, R; Brasaemle, DL (janeiro de 2015). «CGI-58/ABHD5 is phosphorylated on Ser239 by protein kinase A: control of subcellular localization.». Journal of Lipid Research. 56 (1): 109–21. PMC 4274058
. PMID 25421061. doi:10.1194/jlr.M055004 - ↑ Cornaciu, I; Boeszoermenyi, A; Lindermuth, H; Nagy, HM; Cerk, IK; Ebner, C; Salzburger, B; Gruber, A; Schweiger, M; Zechner, R; Lass, A; Zimmermann, R; Oberer, M (2011). «The minimal domain of adipose triglyceride lipase (ATGL) ranges until leucine 254 and can be activated and inhibited by CGI-58 and G0S2, respectively.». PLOS ONE. 6 (10 (número do artigo: e26349)). Bibcode:2011PLoSO...626349C. PMC 3198459
. PMID 22039468. doi:10.1371/journal.pone.0026349 - ↑ Singh, M; Kaur, R; Lee, MJ; Pickering, RT; Sharma, VM; Puri, V; Kandror, KV (23 de maio de 2014). «Fat-specific protein 27 inhibits lipolysis by facilitating the inhibitory effect of transcription factor Egr1 on transcription of adipose triglyceride lipase.». The Journal of Biological Chemistry. 289 (21): 14481–7. PMC 4031504
. PMID 24742676. doi:10.1074/jbc.C114.563080 - ↑ Nielsen, TS; Jessen, N; Jørgensen, JO; Møller, N; Lund, S (junho de 2014). «Dissecting adipose tissue lipolysis: molecular regulation and implications for metabolic disease.». Journal of Molecular Endocrinology. 52 (3): R199–222. PMID 24577718. doi:10.1530/JME-13-0277
- ↑ Schmitz, Ole; Christiansen, Jens Sandahl; Jensen, Michael D.; Møller, Niels; Gravholt, Claus Højbjerg (1 de maio de 2001). «Physiological Levels of Glucagon Do Not Influence Lipolysis in Abdominal Adipose Tissue as Assessed by Microdialysis». The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (em inglês). 86 (5): 2085–2089. ISSN 0021-972X. PMID 11344211. doi:10.1210/jcem.86.5.7460
- ↑ Jocken, JW; Blaak, EE (23 de maio de 2008). «Catecholamine-induced lipolysis in adipose tissue and skeletal muscle in obesity.». Physiology & Behavior. 94 (2): 219–30. PMID 18262211. doi:10.1016/j.physbeh.2008.01.002
- ↑ Scherer T.; O'Hare J.; Diggs-Andrews K.; Schweizer M.; Check B.; Lindner C.; et al. (1 de fevereiro de 2011). «Brain Insulin Controls Adipose Tissue Lipolysis and Lipogenesis». Cell Metabolism. 13 (2): 183–194. PMC 3061443
. PMID 21284985. doi:10.1016/j.cmet.2011.01.008 - ↑ Herzer, Silke; Meldner, Sascha; Gröne, Hermann-Josef; Nordström, Viola (1 de outubro de 2015). «Fasting-Induced Lipolysis and Hypothalamic Insulin Signaling Are Regulated by Neuronal Glucosylceramide Synthase» (PDF). Diabetes (em inglês). 64 (10): 3363–3376. ISSN 0012-1797. PMID 26038579. doi:10.2337/db14-1726
- ↑ Lafontan, M; Berlan, M (1993). «Fat cell adrenergic receptors and the control of white and brown fat cell function». Journal of Lipid Research. 34 (7): 1057\u201391. PMID 8371057. doi:10.1016/S0022-2275(20)37694-1
- ↑ MauriΦge, P; Prud'homme, D; Lemieux, S; Tremblay, A; DesprΘs, JP (1991). «Regional variation in adipose tissue lipolysis in lean and obese men». Journal of Lipid Research. 32 (10): 1625\u201333. PMID 1797943. doi:10.1016/S0022-2275(20)41652-4
- ↑ King, Michael W. «Oxidation of Fatty Acids». Consultado em 9 de abril de 2012. Cópia arquivada em 14 de janeiro de 2016
- ↑ Tom Brody, Nutritional Biochemistry, (Academic Press, 2ª edição 1999), 215-216. ISBN 0121348369
- ↑ Nelson, David L.; Cox, Michael M. (2008). Lehninger Principles of Biochemistry. [S.l.]: W. H. Freeman. p. 650. ISBN 978-1-4292-2416-1
- ↑ Baldwin, Kenneth David Sutherland; Brooks, George H.; Fahey, Thomas D. (2005). Exercise physiology: human bioenergetics and its applications. New York: McGraw-Hill. ISBN 978-0-07-255642-1
- ↑ Kennedy, J.; Verne, S.; Griffith, R.; Falto-Aizpurua, L.; Nouri, K. (2015). «Non-invasive subcutaneous fat reduction: A review». Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology. 29 (9): 1679–88. PMID 25664493. doi:10.1111/jdv.12994
- ↑ Mulholland, R. Stephen; Paul, Malcolm D.; Chalfoun, Charbel (2011). «Noninvasive Body Contouring with Radiofrequency, Ultrasound, Cryolipolysis, and Low-Level Laser Therapy». Clinics in Plastic Surgery. 38 (3): 503–20, vii–iii. PMID 21824546. doi:10.1016/j.cps.2011.05.002
