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Língua teneteara
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| Teneteara Ze'egeté | ||
|---|---|---|
| Falado(a) em: | Maranhão, Pará | |
| Região: | Norte e Nordeste brasileiro | |
| Total de falantes: | 23949 | |
| Família: | Tupi Guarani | |
| Escrita: | Alfabeto latino adaptado | |
| Estatuto oficial | ||
| Língua oficial de: | Barra do Corda (MA, Brasil) | |
| Códigos de língua | ||
| ISO 639-1: | -- | |
| ISO 639-2: | --- | |
A língua tenetehára ou teneteara é uma língua indígena brasileira. Pertence à família linguística tupi-guarani, do tronco tupi. Subdivide-se nos dialetos guajajara e tembé. A língua teneteara atualmente é falada no centro do Maranhão e no Pará por um total de mais de vinte mil pessoas.
Etimologia
Tenetehára significa "somos os seres humanos verdadeiros". O nome Tembé deriva de timbeb, cujo significado é nariz chato, enquanto Guajajara significa "donos do cocar". A língua teneteara é chamada por seus falantes de ze'egeté, que significa língua verdadeira.[1]
História
A região conhecida mais antiga habitada pelos Teneteara foi o médio rio Pindaré, e no século XVIII, as regiões dos rios Grajaú e Mearim começaram a fazer parte do território. A primeira expedição que se tem noticia sobre contato europeu com os teneteara ocorreu em 1615, quando jesuítas franceses estiveram na região do Pindaré.[2]
Em meados do século XIX, os povos Guajajara e Tembé se separaram, uma vez que os últimos migraram até a região dos rio Gurupi, Capim e Guamá [2], dando a origem aos dois dialetos da língua Teneteara.
Também no século XIX, o grupo Tembé passou a ser vitima da política de aldeamentos das Diretorias Parciais, criada em 1845, e que aumentou a subjeção dos indígenas aos colonizadores, limitando as áreas indígenas o que resultou na grande concentração de pessoas e viabilização da proliferação de doenças e diminuição da população. [3]
Em 1901, os tenetearas lideraram o Massacre do Alto Alegre contra missionários capuchinhos, com o objetivo de resgatar terras ancestrais, tomadas por brancos cristãos. [4][5]
Em 1945, com a criação da Reserva Indígena do Alto do Rio Guamá, quatro diferentes povos, incluindo o povo Tembé, tiveram território reservado para si. Os demais povos que ficaram na região, na época eram Timbira, Ka'apor e Guajá. [6]
O conflito entre tenetearas e capuchinhos
Em 1895, padres capuchinhos começaram a se instalar na região de Barra da Corda e criaram uma escola para crianças indígenas na cidade, que mais tarde foi realocada para um terreno mais próximo das aldeias.[7]
No entanto, para a catequização ser considerada eficiente por eles, as sociedades e culturas indígenas deveriam ser desestruturadas. Uma correspondência da missão do Alto Alegre revela o plano “desmembrar as aldeias indígenas e reduzi-las a grupos familiares”. Para isso, eles chegaram a conclusão que o território indígena deveria ser diminuído. [7]
Enquanto os colonizadores descreviam os Teneteara como “selvagens”, os indígenas mantinham seu modo de vida tradicional, baseado na caça, agricultura e forte organização social. No entanto, textos escritos pelos colonizadores retratam a população indígena como selvagem, miserável e sem humanidade. [8]
No entanto, acredita-se que um possível estopim para o massacre ocorreu devido à forma que a catequização nos internato ocorria. Inicialmente apenas jovens de até quatorze anos seriam levados para o internato. No entanto, os religiosos passaram a incluir também recém-nascidas. Diante disso, as lideranças Teneteara reagiram à forma forçada com que os capuchinhos retiravam seus familiares para a missão. O chamado “massacre” foi, portanto, uma reação para expulsá-los de suas terras. Segundo relatos dos indígenas mais antigos, as crianças eram tiradas das mães e, quando morriam, eram descartadas de maneira desumana, versão que nem sempre aparece nas explicações escritas sobre a revolta teneteara contra os frades.[9] Além disso, os Teneteara queriam a recuperação de terras ancestrais tomadas pelos colonizadores.
Em 13 de março de 1901, liderados por João Caboré (Cauviré Imana), os Teneteara atacaram a missão, dando início a um dos episódios mais violentos do sertão maranhense. O conflito resultou na morte de missionários, colonos e centenas de indígenas. A repressão foi intensa, terminando na prisão de João Caboré e no envio de tropas pelo governo estadual. O episódio refletiu um profundo choque cultural, marcado pela imposição religiosa e pela resistência indígena. [10]
Distribuição
Como já mencionado nas sessões anteriores, o povo Tenetehára se dividiu em dois grupos: os Guajajara e os Tembé, dando origem aos dialetos da língua.
Os Tembé atualmente estão localizados na Reserva Indígena do Alto do Rio Guamá, no estado do Pará. Desde 1945, os Tembé tem direito ao território da reserva[6] e atualmente o divide com outros dois povos, Ka'apor e Awa Guajá.
Já os Guajajara vivem majoritariamente no estado do Maranhão, na região Nordeste do Brasil. Seu território tradicional abrange áreas de floresta tropical na porção oriental da Amazônia, especialmente nas bacias dos rios Pindaré, Grajaú, Mearim e Zutiua. [11]
Atualmente, estão distribuídos em mais de dez Terras Indígenas, com destaque para a Terra Indígena Araribóia, situada entre os municípios de Amarante do Maranhão, Grajaú e Santa Luzia, onde mantêm vivas suas práticas culturais, sociais e espirituais. A Terra Indigena Arariboia, junto as terras Bacurizinho e Cana-Brava abrigam cerca de 85% da população guajajara.[11]
Fonologia
| Bilabial | Alveolar | Alveopalatal | Velar | Lábiovelar | Glotal | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Oclusivas | p | t | k | kʷ | ʔ | |
| d | ||||||
| Fricativas | s | |||||
| z | ʒ | |||||
| Africadas | tʃ | |||||
| dʒ | ||||||
| Vibrantes simples | r | |||||
| Nasais | m | n | ɲ | ɲʷ | ||
| Glides | w | j | h |
O fonema /s/ possui 3 variações, são elas: [s] [ts] tʃ]. A variação entre [s] e [ts] ocorre de forma livre. No entanto, [tʃ] só se realiza antes da vogal anterior alta [i] ou da anterior média [e]. O fonema /d/ tem 5 alofones. [d], [z] [ʒ] [dʒ] estão em variação livre, enquanto o alofone [j] só se realiza na fronteira da palavra ou quando está ao lado de outra consoante. Os fonemas /p/, /k/, /kw/, /ʔ/, /m/, /n/, /ɲ/, /ɲw/, /w/ e /h/ não têm limitações em suas ocorrências fonéticas. [13]
Em suma, a língua possui 21 fonemas: 14 consonantais e 7 vocálicos. [14]
| Anterior | Central | Posterior | |
|---|---|---|---|
| Alta | i | ɨ | u |
| Média | e
ε |
ə | o
ͻ |
| Baixa | a | a | a |
Ortografia
Os seguintes grafemas são utilizados na língua teneteara:
- Vogais: a, e, i, o, u, y, à
- Consoantes: p, t, k, ', m, n, g, gw, k, kw, z, x, h, r, w.
| Grafema | Fonema (IPA) | Aproximação |
|---|---|---|
| a | /a/ | pai |
| e | /e/ | mês |
| i | /i/ | vi |
| o | /o/ | avô |
| u | /u/ | lua |
| y | /ɨ/ | roses (em inglês) |
| à | /ə/ | banana (em inglês) |
| p | /p/ | pai |
| t | /t/ | tia |
| m | /m/ | mão |
| n | /n/ | não |
| g | /ɲ/ | banca |
| gw | /ɲw/ | language (em inglês) |
| k | /k/ | casa |
| kw | /kw/ | quase |
| z | /d/, /z/, /ʒ/ e /dʒ/ | dia, zero, já, june (em inglês) |
| x | /s/ | sol |
| h | /h/ | rato |
| r | /r/ | caro |
| w | /w/ | quase |
- A maioria desses grafemas corresponde ao símbolo fonológico da tabela fonética da sessão "Fonética", com a exceção dos grafemas vocálicos <y> e <à>, que correspondem respectivamente a /ɨ/ e /ə/, x, que é representado pelo fonema /s/, g e gw que equivalem aos fonemas /ɲ/ e /ɲw/ e, por fim, <z> que é representado por /d/ e seus variantes fonéticos. [16][17]
Gramática
O Teneteara é uma língua de ergatividade cindida, com alinhamento ergativo na concordância verbal mas com comportamento acusativo em certos contextos condicionados pela pessoa, pelo tipo de verbo e pelo tipo de oração.
Morfologia
Prefixos pessoais
Na língua teneteara, os verbos recebem dois sistemas de prefixos pessoais distintos: [18]
Nominativos
| Prefixos pessoais nominativos | Pessoa |
|---|---|
| a | 1ª sg. |
| re- | 2ª sg. |
| u-, w-, o- | 3ª |
| si-
da- |
1ª pl. inclusivo |
| uru- | 1ª pl. exclusivo |
| pe- | 2ª pl. |
O prefixo si- é ocorre nos verbos transitivos, enquanto o prefixo da- aparece nos intransitivos.[18]
Absolutivos
Os pronomes absolutivos não marca a pessoa, e sim a relação entre o verbo e o DP.
| Adjacência do complemento | Não adjacência do complemento | |
|---|---|---|
| Classe I | ø- | i- |
| Classe II | r- | h- |
Ou seja, quando ocorrem os prefixos absolutivos ø- ou r-, é porque existe uma relação de adjacência entre o núcleo do sintagma verbal e o sintagma determinante. Quando o sintagma determinante está omitido, são utilizados os prefixos i- e h-. [19]
Além disso, os prefixos absolutivos indicam se o objeto ou o sujeito estão em uma posição derivada. [20]
Plural
Para indicar coletividade ou plural, é adicionado o sufixo flexional -kwer/-wer aos substantivos[21]:
(1a) awa "homem"
(1b) awa-kwer "homens/conjunto de homens"
(2a) kudə "mulher"
(2b) kudə-ŋwer "mulherada"
(3a) ure "nós"
(3b) ure-kwer "nós" = a nação, os Tenetehára
Esse sufixo pode coexistir com o quantificador "wə", que denota a existência de mais uma entidade nominal[21]:
(5) kudə-ŋwer wə "a mulherada (possivelmente, mais de um conjunto de mulherada)"
Além disso, é possível indicar quantificação reduplicando o tema nominal[21]:
(5a) ita "pedra"
(5b) ita.ita "pedras (mais de uma pedra)"
- Quando o nome possui mais de uma silaba, há uma redução da ultima consoante ou parte da raiz[22]:
(6b) miar "caça"
(6b) mia.miar "caças"
Diminutivo
O sufixo -a'i ou -'i indica diminutivo[22].
(7a) taw "aldeia"
(7b) taw-a'i "aldeia pequena"
(8a) awa "homem"
(8b) awa-'i "homem pequeno"
Intensificação:
O sufixo -a'u denota intensificação de uma propriedade intrínseca de um adjetivo, adverbio ou substantivo, conforme abaixo[22]:
(9a) uhu "grande"
(9b) uhu-a'u "grande mesmo, enorme"
(10a) maniku por "paneiro cheio"
(10b) maniku por-a'u "paneiro bem cheio"
Já o sufixo -uhu ou -hu denota intensidade de uma propriedade que é intrínseca ao núcleo do sintagma nominal, como se vê nos exemplos abaixo[23]:
(11a) awa "homem"
(11b) awa-(u)hu "homem grande"
Sintaxe
O Tenetehára apresenta a ordem básica VSO (Verbo - Sujeito - Objeto) em orações independentes, e a ordem é pelos dois dialetos: Guajajara e Tembé. Segue um exemplo[24]:
u-haw teko iware
3-cortar a gente madeira
"A gente corta madeira"
No entanto, há raros exemplos em ambos os dialetos de frases utilizando ordens diferentes. No Guajajara, foram encontradas 19 com a ordem VSO, 4 com a ordem VOS, 3 com a ordem SVO e 2 usando a ordem SOV. [24]
Já no Tembé, 39 apresentavam a ordem VSO, 21 com a ordem SVO, 17 com a ordem SOV e 6 com a ordem OSV. Outras 71 orações não apresentavam verbo ou sujeito. Estão distribuídas da seguinte forma: 50 com a ordem VO, 13 com a ordem VS, 5 com a ordem SV e 3 com a ordem OV. [25]
Vocabulário
Subtantivos
Os substantivos do Tenetehára se distribuem em duas classes temáticas com base nos prefixos relacionais que recebem. Os temas da classe I tomam os alomorfes ø- (adjacência) e i- (não-adjacência); os da classe II tomam r- (adjacência) e h- (não-adjacência). [15]
Seres da natureza
| Teneteara | Portugues |
|---|---|
| awa | homem |
| kuza | mulher |
| kunumi | criança |
| dawar | onça |
| marakaza | gato do mato |
| pira | peixe |
| tapi'ir | anta |
| dawsi | jabuti |
| kwarahi | sol |
| 'iwira | madeira, árvore |
| man | manga |
| ita | pedra |
| wakari | acari (peixe) |
Lugares
| Teneteara | Português |
|---|---|
| tekohaw | aldeia |
| tapwij | casa |
| ko | roça |
| dipa | lago |
Adjetivos
Os adjetivos no Tenetehára seguem o núcleo nominal no sintagma nominal (ordem Nome-Adjetivo), à semelhança do português. Eles podem ainda constituir predicados nominais sem cópula. [15]
| Teneteara | Português |
|---|---|
| piahu | novo |
| pinim | pintado |
| karaiw | branco |
Verbos
Os verbos do Tenetehára se dividem em duas grandes classes temáticas e em dois tipos funcionais: transitivos (com argumento externo A e argumento interno O) e intransitivos, que se subdividem em ativos (com sujeito Sa) e descritivos/estativos (com sujeito So). Os verbos recebem prefixos pessoais nominativos para concordância com o sujeito, bem como prefixos relacionais absolutivos para o objeto quando este não está contíguo ao verbo.[15]
Verbos transitivos
| Raiz | Significado |
|---|---|
| -'u | comer |
| -zuka ou -duka | matar |
| -m-ur | trazer |
| -ekar | procurar |
| -api | queimar |
| -aro | esperar |
| -dapi-api | atirar repetidamente |
| -pihik | pegar |
| -esak | ver |
| -munik | acender |
| -dusi | amarrar |
| -dapo | fazer |
| -mu-'i | partir |
Verbos intransitivos
| Raiz verbal | SIgnificado |
|---|---|
| -ho ou -ir | ir |
| -ur | vir |
| -r iko | estar vindo |
| -mimud | cozinhar |
| -mono | pôr |
Marcadores temporais
| Forma | Significa |
|---|---|
| kwed | passado imediato |
| nehe | futuro |
| kwehe | passado distante |
Referências
- ↑ De Sousa & Pereira 2023, pp. 279-280.
- 1 2 Duarte 2007, p. 17.
- ↑ Duarte 2007, pp. 17-18.
- ↑ De Sousa & Ferreira 2023.
- ↑ Custódio 2019.
- 1 2 Duarte 2007, p. 18.
- 1 2 De Sousa & Pereira 2023, p. 281.
- ↑ De Sousa & Pereira 2023, p. 282.
- ↑ De Sousa & Pereira 2023, p. 283.
- ↑ De Sousa & Pereira 2023, p. 284.
- 1 2 «Guajajara - Povos Indígenas no Brasil». pib.socioambiental.org. Consultado em 27 de fevereiro de 2026
- 1 2 Duarte 2005.
- ↑ Duarte 2005, pp. 9-13.
- ↑ Duarte 2005, p. 13.
- 1 2 3 4 Duarte 2007.
- ↑ Duarte 2007, p. 29.
- ↑ Duarte 2005, p. 14.
- 1 2 Castro 2007, p. 20.
- ↑ Castro 2007, pp. 21-22.
- ↑ Castro 2007, p. 22.
- 1 2 3 Duarte 2007, p. 32.
- 1 2 3 Duarte 2007, p. 33.
- ↑ Duarte 2007, p. 34.
- 1 2 Duarte 2007, p. 83.
- ↑ Duarte 2007, p. 85.
Bibliografia
- Duarte, Fábio (2005). «Coletânea de narrativas Tenetehára» (PDF)
- Custódio, Maria Aparecida (2019). «MISSÃO CAPUCHINHA E RESISTÊNCIA TENTEHAR: RELEITURAS DO CONFLITO DE ALTO ALEGRE»
- «Guajajara». pib socioambiental. Consultado em 7 de fevereiro de 2026
- «Terra Indígena Alto Rio Guamá». Terras Indígenas do Brasil. Consultado em 25 de fevereiro de 2026
- «Tembé». pib socioambiental. Consultado em 7 de fevereiro de 2026
- «Índigenas». IBGE. Consultado em 25 de fevereiro de 2026
- De Sousa, Diacy; Pereira, Josenildo (2023). «O MASSACRE DE ALTO ALEGRE (1901): NUANCES DA MEMÓRIA TENETEHARA»
- Duarte, Fábio (2007). «Estudos de Morfossintaxe Tenetehára» (PDF)
