BRZEN
Língua inuctune
Texto da Wikipédia (pt), licença CC BY-SA. O BETARUBI mostra o verbete inteiro nesta página — a leitura não continua fora do site.
| Inuctune Qaanaamitun, avanersuarmiutut, maanaamitun | ||
|---|---|---|
| Outros nomes: | Inuíte polar, groenlandês do norte | |
| Falado(a) em: | ||
| Região: | Noroeste groenlandês | |
| Total de falantes: | c. 770[1] | |
| Família: | Esquimó-aleuta Esquimó Inuíte Inuctune | |
| Escrita: | Alfabeto latino | |
| Estatuto oficial | ||
| Língua oficial de: | Groenlândia (Dinamarca) | |
| Códigos de língua | ||
| ISO 639-1: | -- | |
| ISO 639-2: | --- | |
Inuctune, inuíte polar, groenlandês(português brasileiro) do norte ou gronelandês(português europeu) do norte (em inglês: inuktun ou polar inuit , em groenlandês/gronelandês: avanersuarmiutut, em dinamarquês: nordgrønlandsk, polarinuitisk, thulesproget), é a língua de aproximadamente 770 indígenas inuítes que moram na cidade de Qaanaaq e em assentamentos próximos, no noroeste da Groênlandia, no círculo polar ártico, sendo o menor dialeto groenlandês em termo de falantes.[2] O inuctune pertence ao ramo esquimó — e especificamente, inuíte —, da família esquimó-aleuta (ou escaleutas), que se subdivide em inuíte e iupíque, e está situada dialetologicamente entre o groenlandês e o inuctitute canadense, inuvialuctune, ou inuinactune. A língua atualmente está em risco de extinção.[3]
O groenlandês do norte é um dos três dialetos inuítes da Groenlândia, e é falado em um contexto diglóssico, junto com o kalaallisut (groenlandês ocidental), e o kalaattisit (tunumiisut, ou groenlandês oriental), e é o mais distinto do groenlandês padrão. Todos os seus falantes também estão familiarizados com o groenlandês (kalaallisut) padrão por meio da mídia, ou instituições como escolas e igrejas, assim, são bilíngues, e o dinamarquês é compreendido e falado pela maioria; além disso, o inglês também é falado, porém por um número menor de pessoas.[4]
O léxico do dialeto está se tornando mais "groenlandizado" devido à influência do groenlandês ocidental como língua da educação e da mídia. Grande parte do vocabulário usado pelos falantes mais velhos da língua pode não ser compreendido pelos falantes mais jovens.[5] A fala também pode se diferenciar de acordo com a idade do falante, havendo diferenças entre a maneira como aqueles abaixo de 50 anos e aqueles mais velhos, ou originalmente da região, falam inuctune.[6] Lexicamente, a variedade do dialeto falada pelos inughuit mais jovens se aproxima ainda mais do groenlandês padrão. A língua não possui uma forma de escrita própria e, portanto, seus falantes acreditam que sua cultura é oral e deve permanecer assim.[7]
Inuíte polar é uma língua altamente polissintética, aglutinativa, ergativa-absolutiva — o que significa que a marcação de caso para o sujeito de um verbo intransitivo é a mesma que para o objeto de uma oração transitiva —,[8] e usa morfologia derivacional e morfologia concatenativa, o que permite a formação de palavras muitas longas, com o sentido do que seria uma frase inteira em outro idioma, como o português. O número dual ainda existe na língua.[9] Além disso, o inuctune não possui gênero gramatical e as terminações flexionais verbais podem indicar modo, transitividade, pessoa (1ª, 2ª, 3ª e 4ª pessoas, onde a quarta pessoa denota um sujeito em terceira pessoa de um verbo subordinado ou o possuidor de um substantivo que é correferente com o sujeito em terceira pessoa da oração principal) e número (singular, plural, dual como em Inuctitute).[8]
Etimologia

O povo do noroeste da Groenlândia se autodenominam de inughuit (ou inughuaq, no singular) e são um sub-grupo dos inuítes. O gentílico significa "o povo grande ou importante".[10] O nome inuktun (“inuctune”) é um endônimo para sua língua e deriva da raiz inuk, que significa "pessoa" ou "inuíte", combinada com a forma equativa tun, semelhante a construções similares em outras línguas inuíte que denotam "a língua dos inuítes". Não há indicações de um uso histórico desse termo, e parece ter surgido apenas durante o século XX, como forma de diferenciarem-se de outros grupos.[10] No groenlandês padrão, o termo dado ao dialeto, avanersuarmiutut, significa "a língua do povo do grande norte".
Alguns inughuit, porém, podem chamar o dialeto de maanaamitun, “língua do aqui”, ou ainda qaanaamitun, “a língua de Qaanaaq”, devido a concentração de falantes no assentamento.[11]
História
A língua foi inicialmente descrita pelos exploradores Knut Rasmussen e Peter Freuchen que viajaram para o norte da Groenlândia no início do século XX e estabeleceram um posto em Dundas, próximo a Pituffik, em 1910. Além disso, foi a última língua a entrar na Groenlândia, a partir do Canadá, e pode ter chegado na região apenas no século XVIII.
Em geral, embora mais conservador em relação a outros dialetos da Groenlândia, o inuctune desenvolveu características fonológicas próprias e idiossincráticas, distanciando-se mais do proto-inuíte e de seus dialetos vizinhos contemporâneos, ao mesmo tempo que substituiu parte de seu léxico por palavras importadas do groenlandês ocidental. Embora as diferenças gramaticais em relação ao groenlandês ocidental sejam pequenas, o inuctune preservou a categoria de número dual, praticamente perdida em outras regiões da Groenlândia.[12]
História da documentação
O inuctune já foi documentado por vários pesquisadores nos séculos XX e XXI. O vocabulário comparativo de Birket-Smith (1928) inclui transcrições linguisticamente precisas do inuíte polar baseadas em trabalho de campo. O trabalho de campo de Holtved em 1935-1937 e 1946-1947 resultou em um corpus rico com 178 textos ditados e gravados, principalmente narrativas, publicados com transcrições foneticamente precisas e um volume de traduções livres. Um breve artigo sobre características linguísticas do inuctune foi publicado por Holtved em 1952. Documentação posterior inclui um substancial dicionário temático e esboço gramatical de Fortescue (1991), um estudo fonético de Jacobsen (1991) e notas linguísticas e etnolinguísticas de Leonard (2015).[13]
Distribuição

Além da cidade de Qaanaaq, a língua também é falada em Savissivik (Haviggivik, na língua local), Muriuhaq, Qeqertat (Qiqitat), Qikiqtarhuaq e Siorapaluk (Hiorapaluk), locais que recebem nomes em inuctune.[14]
Linguisticamente, na fonologia e léxico, estão mais próximos dos povos da ilha de Baffin, falantes da língua qikiqtaaluk uannangani, do que o oeste, ou sul, groenlandês.[6] A raridade das formas indicativas e o uso de formas participiais na oração principal da língua distinguem nitidamente o inuctune do kalaallisut, em vez disso, aproximando-o ainda mais de alguns dialetos canadenses como o inuctitute do norte de Baffin. Sua fonologia é tão suficientemente distinta de outros dialetos que não é compreendida em outras regiões da Groenlândia.
O esquimó polar está intimamente relacionado a dialetos ocidentais como o esquimó do cobre (kitlinermiut, falado no noroeste da região de Nunavut, no Canadá), mas com uma mistura mais recente do dialeto da ilha de Baffin do Norte após a chegada de um xamã canadense (Qi'ddaq) à região. O esquimó polar tem sua própria posição no contínuo dialetal inuíte, distinta também do groenlandês ocidental. No entanto, o inuíte da ilha de Baffin é o dialeto do leste canadense com o qual os inuítes estão mais familiarizados, dado o contato ao longo dos últimos cem anos.[15]
O inuctune é uma língua ágrafa, ou seja, não possui ortografia própria, e não é ensinado em escolas e, portanto, está mudando mais rapidamente do que língua escrita padrão do sul;[2] entretanto, a maior parte dos habitantes de Qaanaaq e seus arredores usa o dialeto em sua comunicação diária. Apesar disso, diferentes formas de se escrever a língua foram desenvolvidas por linguistas que a estudaram; e que diferem-se do groenlandês padrão em diversas formas em relação a sua grafia.
Línguas relacionadas
- Línguas esquimós
- Línguas inuítes:
- Inupiaque (Inupiaq): no norte e noroeste do Alasca (Estados Unidos) e noroeste do Canadá;
- Inuinactune (Inuinnaqtun) e Inuvialuctune (Inuvialuktun): no Ártico Ocidental do Canadá: Territórios do Noroeste (Nunatsiaq) e Nunavut;
- Inuctitute (Inuktitut): no Ártico Oriental do Canadá (províncias de Terra Nova e Labrador, Quebeque, Manitoba e em Nunavut e Territórios do Noroeste);
- Groenlandês (Kalaallisut): no oeste da Groenlândia;
- Inuctune (Inuktun): no norte da Groenlândia.
- Línguas inuítes:
- Línguas iúpiques:
- Sirenik: extinto, classificação incerta: possivelmente um terceiro ramo das línguas esquimós;
- Naucano (Naukan): na península de Chukotka, (Rússia)
- Língua iúpique siberiano central (Yuit): na península de Chukotka e ilha de São Lourenço;
- Língua iúpique do Alasca Central (Yupʼik): no centro do Alasca
- Alutiiq: na península do Alasca.
Comparação com o groenlandês ocidental
| Pronúncia | |
|---|---|
| Inuctune | Groenlandês ocidental |
| a [a], [ɑ] | |
| aa [aː], [ɑː] | |
| ai [ai] | aa [aː], [ɑː]
ai [ai] |
| au [au] | aa [aː], [ɑː] |
| g [ɣ] | |
| gg [ʔɣ] | gg [xː~çː] |
| gh [xː] | ss [sː] |
| gl [ɣɾ] | ll [ɬː] |
| h [h], [ç] | s [s] |
| i [i], [e~ə] | i [i]
e [e~ə] |
| ii [iː], [eː~əː] | ii [iː]
ee [eː~əː] |
| j [j] | |
| k [k], [ŋ] | k [k] |
| kp [kp~xp] / [pː] | pp [pː] |
| kt [kt~xt] / [tː] | tt [tː] |
| l [ɾ] | l [l] |
| ll [ʔɾ] | ll [ɬː] |
| m [m] | |
| n [n] | |
| ng [ŋ] | |
| ngm [ŋm] / [mː] | mm [mː] |
| ngn [ŋn] / [nː] | nn [nː] |
| p [p] | |
| q [q], [ɴ] | q [q] |
| qp [qp~χp] | rp [pː] |
| qt [qt~χt], [qt͡s~χt͡s] | rt [tː], [tt͡s] |
| r [ʁ] | |
| rl [ʁɾ] | rl [ɬː] |
| rm [ʁm] | rm [mː] |
| rn [ʁn] | rn [ɴ] |
| rng [ɴː] | |
| rh [χː] | rs [sː] |
| rv [ʁv] | rf [fː] |
| s [s] | |
| ss [sː] | |
| t [t], [t͡s] | t [t], [t͡s] |
| ts [tt͡s] | |
| u [u], [o] | u [u]
o [o] |
| uu [uː], [oː] | uu [uː]
oo [oː] |
| v [v] | v [v] |
| vv [ʔv] | ff [fː] |
| Inuctune (Norte) | Groenlandês (Oeste) | Português |
|---|---|---|
| nivirhiaq | niviarsiaraq | menina, mulher não casada |
| ataata | ataata | pai |
| irniq | erneq | filho homem |
| inuk | inuk | pessoa |
| uanga | uanga | eu |
| ihhit | illit | você |
| humi | sumi | onde |
| auk | aak | sangue |
| ihi | isi | olho |
| aghak | assak | mão |
| arvik | arfeq | baleia |
| tuktu | tuttu | rena |
| qughuk | qussuk | cisne |
| hiqiniq | seqineq | sol |
| ulluriaq | ulloriaq | estrela |
| atauhiq | ataaseq | um |
Ortografia
Uma maneira de escrever a língua fora desenvolvida pelo linguista Michael Fortescue — ainda que não proponha seu sistema de escrita como ortografia local e que seu critério para a criação do sistema tenha sido adequação fonológica. Posteriormente, outra ortografia foi proposta pelo linguista Stephen Pax Leonard em seu artigo Some Ethnolinguistic Notes on Polar Eskimo. O comitê linguístico local de Qaanaaq também não conseguiu chegou a um consenso final quanto a uma ortografia padrão para o seu dialeto inuctune, embora concordem que a "nova" ortografia desenvolvida, baseada no groenlandês ocidental (kalaallisut), não é totalmente adequada.[17]
A ortografia do inuctune é realizada a partir do alfabeto latino, e utiliza 19 letras, sendo elas: a, d, e, g, h, i, j, k, l, m, n, o, p, q, r, s, t, u, v. As letra f e b só são usadas em palavras empretadas. As letras j, d, r apenas são usadas como letra inicial em palavras emprestadas de outra língua, como em jannuaari, dissimpari, raatiu.
Não existe uma tradição escrita estabelecida para o inuctune, que mantêm uma tradição oral. Assim, a língua não é padronizada e, portanto, há muita discordância em relação à sua ortografia. Uma palavra como hior’ddo, "por exemplo", pode ser escrita como hior’ddu, hiorllo, hiordu ou de várias outras maneiras, dependendo da ortografia preferida.[7]
Dessa forma, há diferenças na maneira de escrita de alguns grafemas, como o /ll/, correspondente em groenlandês, é escrito como /dd/ por Leonard e como /ll/ por Fortescue. Outras diferenças entre as ortografias propostas por Leonard para Fortescue são, respectivamente, /gg/ -> /gh/, /rr/ -> /rh/, e /tsi/ -> /ti/.
Fonologia
O idioma está, foneticamente, muito distante do que uma transcrição puramente fonêmica sugeriria, e a palavra falada frequentemente não é pronunciada como se poderia tentar escrevê-la. A fonologia do inuctune é caracterizada pela palatalização e velarização/uvularização generalizadas; há também um uso disseminado de grupos consonantais oclusivos/plosivas glotais que correspondem à geminada surda farinjalizada no groenlandês ocidental. A língua também se caracteriza por uma articulação pouco precisa, ou relaxada, de consoantes e vogais,[18] e possui um inventário fonêmico reduzido, portanto, existem muitos homônimos ou quase-homônimos.
A língua se difere do groenlandês padrão quanto sua fonologia como, por exemplo, com a substituição do grafema /s/ para o /h/, com um som usualmente pronunciado como um fricativo palatal, como no alemão ch AFI: [ç].[19] O dialeto também permite mais combinações consonantais que o groenlandês e apresenta pequenas diferenças gramaticais e léxicas.
Alguns fonemas são muito difíceis de se representar por escrito. O fonema /gg/ (segundo a ortografia de Leonard), provavelmente é um som fricativo velar surdo AFI: [x], mas em alguns contextos (vogal anterior alta palatal) pode assumir uma sonoridade mais palatalizada.[20] Para falantes mais velhos, /s/ era frequentemente palatal (em vez de faríngeo /h/), o que se estendeu a grupos consonantais como /gs/ (variedade a /gg/), e outras variações. Em alemão, como mencionado, é escrito como /ch/, mas em um alfabeto com poucas letras como o adotado para o inuctune, é normalmente representado como /gg/, /gh/ ou /hh/. Fortescue escreveu esse grupo consonantal como /gh/.
Consoantes inuctunes modernas[21]
| Labial | Alveolar | Palatal | Velar | Uvular | Glotal | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Nasal | m | n | ng [ŋ] | |||
| Oclusiva | p | t | k | q | ||
| Fricativa | v | s | g [ɣ] | r [ʁ] | h [ç], [h] | |
| Aproximante | l | j |
O inuctune possui seis fonemas vocálicos: /i/, /u/, e /a/, longas e curtas, sendo as mesmas de outros dialetos groenlandeses.
Vogais
| Anterior | Central | Posterior | |
|---|---|---|---|
| Fechada | i iː | u uː | |
| Média | e eː | o oː | |
| Aberta | a aː | ||
Gramática
Sentença
O inuctune adota, tipicamente, a ordem de palavras SOV, sujeito-objeto-verbo.
As frases são formadas assim como em outros dialetos inuítes: raiz (base) + afixo derivacional (pós-base) + enclítico + afixo flexional[22]
- igaqaarhunga 'Eu cozinhei', iga- 'cozinhar'; -qaar 'pretérito'; -hunga 'sufixo para um verbo com radical vocálico, na 1ª do sg.
Alinhamento morfossintático
Assim como as outras línguas esquimós, o inuctune é considerado uma língua ergativo-absolutiva. Isso significa que os sujeitos de verbos intransitivos e os objetos de verbos transitivos são marcados com o caso absolutivo, enquanto os sujeitos de verbos transitivos são marcados com o caso ergativo.
Pronomes
Os pronomes em inuctune variam quanto caso, pessoa (1ª, 2ª, 3ª), e singular, dual, e plural. Há aproximadamente 18 conjugações para cada pronome pessoal. Os pronomes mais básicos são: uanga (eu), illit (você), e una (ele/a), e esses normalmente se apresentam na conjugação verbal.
Possuem vários demonstrativos (pronomes da terceira pessoa) como manna 'este aqui', innga 'aquele ali', e qanna 'aquele lá dentro/fora'. Também há advérbios demonstrativos correspondentes como: maani 'por aqui', ikani 'lá/ali', qamani 'lá dentro (de fora)/lá fora (de dentro)'.[23]
Afixos
Assim como em outros dialetos da Groenlândia, é possível construir palavras compostas por cerca de até seis afixos derivacionais ou pós-bases. Fundamentalmente, as bases posteriores que funcionam como modificadores sentenciais, como afixos negadores ou intensificadores, vêm no final de uma palavra (se uma palavra tiver ambos os afixos, o intensificador é sempre final); as bases posteriores que modificam ou estendem uma base sempre precedem os modificadores sentenciais. Os afixos nominalizadores/verbalizadores sempre seguem, portanto, o radical e alguns afixos são semanticamente incompatíveis com certas inflexões de modo. Os substantivos são incorporados à estrutura verbal por meio de afixos (infixos e sufixos). Esses afixos podem expressar modalidade, tempo, aspecto, voz, negação, reciprocidade, comparação, superabundância etc. Além disso, possui muitos afixos verbalizantes em vez de verbos lexicais que incorporam substantivos.[22]
Sufixos
O universo de sufixos em inuctune pode ser dividido, de forma geral, nas quatro categorias a seguir: tempo, verbal, maneira, gramática. O dialeto é caracterizado por sistemas flexionais muito complexos; suas bases nominais são flexionadas em número, posse pessoal e casos (existem oito casos).[9]
Bases posteriores
Em linguística, uma base posterior, ou pós-base, é um tipo de sufixo derivacional ou morfema gramatical, encontrado predominantemente em línguas esquimó-aleútes e algumas línguas formosanas, que é adicionado após uma raiz ou outra pós-base para modificar o significado de uma palavra, como -huk (ruim, inútil) em qimmihuk "cão inútil".
As variantes palatalizadas ou velarizadas criam bases posteriores longas que parecem autóctones, mas que na verdade não são.
Em um processo semelhante à formação sintática de palavras, é comum usar bases posteriores que transformam raízes nominais em frases verbais, como em[9]
- nipi- ‘voz’, nipaitsoq 'é silencioso' (literalmente "sem voz")
Radicais
Não existem radicais adverbiais ou adjetivais propriamente ditos (exceto as formas adverbiais dos demonstrativos).[24]
Várias palavras no inuíte polar são formadas a partir de um radical, e esse pode ser verbal ou nominal, como em
- nipi- ‘voz (radical nominal): nipiiggoq ‘tem uma boa voz’; nipitooq ‘tem uma voz poderosa’; nipangirhoq ‘fica em silêncio, para de falar’; nipaitsoq ‘está em silêncio’; nipaitsumik ‘silenciosamente’; nipauhoq ‘grita, faz barulho’;[25]
- neri– ‘comer’ (radical verbal): nerihaggat ‘comida’; nerihikkaa ‘alimenta-o’; neriniq ‘comida’; nerikutsoq ‘come só um pouco’; nerittailihoq ‘jejuns’; nerihuaktoq ‘tem soluços’; nerijamahoq ‘está com fome’; nerijamakkukkaa ‘pensa que ele (outro) não tem comida’.[26]
Verbos
As duas funções principais deste paradigma, superordenada e subordinada respectivamente, distinguem-se tanto pela sintaxe como pelas bases posteriores empregadas com elas: certas pós-bases ocorrem tipicamente em verbos de modo indicativo que descrevem a sequência narrativa principal de ações.[27]
Verbo intransitivo ('eu estou comendo')
| Pessoa | Singular | Dual | Plural |
|---|---|---|---|
| 1ª | nirihunga | nirihuguk | nirihugut |
| 2ª | nirihutit | nirihutik | nirihuhi |
| 3ª | nirihuq | nirihuk | nirihut |
Negativa
A conjugação de alguns verbos, especialmente na negativa, é mais complexa. Nos verbos intransitivos na primeira pessoa do singular, basta adicionar o sufixo –ngitsorruanga:[28]
- pilugginnaqtunga 'Eu estou brincando' (1ª pessoa do singular) - pilugginnangitsorruanga ‘Eu não estou brincando',
na segunda e terceira pessoas a conjugação é um pouco diferente:
- pilugginnaqtutin ‘Você está brincando’ (2ª pessoa do singular) - pilugginnangitsutin ‘Você não está brincando’.
Já nos verbos transitivos, a conjugação no afirmativo e negativo se difere ainda mais, com a adição do sufixo –hiutsorruiga:
- takuhiutsorruiga (na 1ª pessoa) ‘Eu não a vi’
- takuhiutsorruigit (na 2ª pessoa) ‘Você não a viu’
- takuhiutsorrigaa (na 3ª pessoa) ‘Ele não a viu’
Modos
Todos os verbos possuem oito diferentes modos de serem conjugados: indicativo, interrogativo, imperativo e optativo, usados nas orações principais e mais regularmente que os outro quatro modos; e causativo, condicional, contemporâneo e participial, usados em orações subordinadas.[29]
| Modo | Inuctune | Português |
|---|---|---|
| Indicativo | nerihoq | ele come |
| Interrogativo | nerigaa? | ele está comendo? |
| Imperativo | nerigit | coma |
| Optativo | nerilli | deixe ele comer |
| Causativo | neriqangat | quando ele estava comendo |
| Condicional | nerikpat | se ele come |
| Contemporâneo | nerilluni | (ele), dormindo |
| Participial | nerittoq | que ele está comendo |
Conjugação verbal em tempo
Pretérito interrogativo[22]
| Pessoa | Inuctune | Português |
|---|---|---|
| 1ª sg. | neriqaik | eu comi? |
| 2ª sg. | neiqait | você comeu? |
| 3ª sg. | neriqaa | ele comeu? |
| 1ª pl. | neriqaiha | nós comemos? |
| 2ª pl. | neriqaijuk | vocês comeram? |
| 3ª pl. | neriqaigit | eles comeram? |
Imperativo[30]
É utilizado para expressar uma ordem ou pedido.
| 3ª sg. | 3ª du. | 3ª pl. | |
|---|---|---|---|
| 2ª sg. | niriguk | nirikkik | nirikkit |
| 2ª du. | nirikku | niritikkik | nirikkit |
| 2ª pl. | nirihiuk | nirihigik | nirihigit |
Com bases -t -tsit, etc., como em makitsit 'levante-se!', termina-se em -ssuk na 2ª sg. e 3ª sg.
Optativo[31]
O modo optativo é usado para expressar desejos, esperança ou possibilidade.
Como no indicativo, mas com la-, li- em vez de hu- na 3ª pessoa, e gi- como em nirilanga 'deixe-me comer', mas nirili 'deixe-o comer'. Também 3ª pl. -lit, 1ª sg.-3ª sg. -lagu, 3ª sg.-3ª sg. -liuk, 3ª g.s-3ª du. -ligik e 3ª sg.-3ª pl. -ligit; o restante das formas sujeito-objeto da 3ª pessoa são paralelas às do causativo.
Causativo[32]
Usado para "tempo em que", no passado; o sentido de 'porque' geralmente requer qa- da pós-base -qihuq e uma forma especial do paradigma com "ng" inicial em vez de "g" ou "k", portanto a 1ª pessoa do singular se dá como -qangama, 3ª pessoa do singular -qangat, etc.
| Pessoa | Singular | Dual | Plural |
|---|---|---|---|
| 1ª | hinikkama | hinikkannuk | hinikkatta |
| 2ª | hinikkavit | hinikkatsik | hinikkasi |
| 3ª | hiningmat | hiningmanik | hiningmata |
| 4ª | hinikkami | hinikkamik | hinikkamik |
Condicional[33]
O modo condicional expressa ações que dependem de uma condição para ocorrer. Pode indicar hipóteses, desejos, ou incerteza.
O mesmo que o causativo, mas com gu- em vez de ga-, como em hinikkuma 'quando (no futuro)/se eu dormir' e com -(k)pat, etc. na 3ª pessoa em vez de -(m)mat, etc. (portanto, hinikpat).
Contemporâneo[33]
| Pessoa | Singular | Dual | Plural |
|---|---|---|---|
| 1ª | hiniglunga | hiniglunuk | hinigluta |
| 2ª | hiniglutit | hiniglutik | hinigluhi |
| 4ª | hinigluni | hiniglutik | hiniglutik |
| 3ª obj | ihiillugu | ihiillugik | ihiillugit |
As formas posteriores ('olhando para isso', etc.) são para todos os sujeitos. E as formas da primeira, segunda e quarta pessoa acima são também usadas para os objetos correspondentes (ihiillunga 'olhando para mim', etc.). O duplo "ll" aparece com as bases vocálicas.
Casos
O sistema de casos do inuctune, que compreende o absolutivo e o relativo e depois os seis casos oblíquos, instrumental, alativo, locativo, ablativo, vialis (ou prolativo) e equativo é o mesmo que se encontrado em outros dialetos da Gronelândia. As palavras em inuctune podem ser conjugadas a partir de substantivos não possessivos, possessivos absolutivos, e possessivos relativos. A conjungação varia quanto a flexão de número em singular, dual, e plural. Além disso, há diferenças entre as terminações das conjugações de palavras com uma base consonantal fraca (como -q, em qimmiq) e palavras de base consonantal forte (como -k, em panik),[34] apresentadas nas tabelas abaixo.
Substantivo não possessivo
| Caso | Singular | Dual | Plural |
|---|---|---|---|
| Absolutivo | -q | -k | -t |
| Relativo | -p | -k | -t |
| Instrumental | -mik | -ngnik | -nik |
| Locativo | -mi | -ngni | -nik |
| Alativo | -mut | -ngnut | -nut |
| Ablativo | -mit | -ngnit | -nit |
| Vialis | -kkut | -kkut | -tigut |
| Equativo | -hut | -ktut | -hut |
| Caso | Singular | Dual | Plural |
|---|---|---|---|
| Absolutivo | -k | -k | -it |
| Relativo | -up | -k | -it |
| Instrumental | -ngmik | -ngnik | -ngnik |
| Locativo | -ngmi | -ngni | -ngni |
| Alativo | -ngmut | -ngnut | -ngnut |
| Ablativo | -ngmit | -ngnit | -ngnit |
| Vialis | -kkut | -kkut | -ktigut |
| Equativo | -ktut | -ktut | -ktut |
Vocabulário
Alguns elementos básicos do léxico do inuctune (palavras para "sim" e "não", por exemplo) derivam do proto-inuíte, e o restante de seu léxico é o mesmo do groenlandês padrão porém reproduzido com a fonologia do inuíte polar, com algumas inovações específicas próprias e do dialeto do norte da ilha de Baffin.[5]
A língua possui alta produtividade morfológica e grande densidade semântica. Além disso, há uma valorização do conhecimento específico e uma menor necessidade de conceitos abstratos: possuem vocabulário extremamente específico relacionado à prática da caça, mas não apresentam uma palavra geral para "foca", por exemplo, embora exista uma palavra que se refere a uma ‘foca que mergulha a cabeça enquanto o resto do corpo permanece na superfície’ (ippigaqtoq).[35]
Em particular, o inuctune possui domínios lexicais bastante ricos referentes à caça, modo de vida tradicional inuíte, clima e condições meteorológicas, mas esses não estão sendo transmitidos para os novos falantes devido às rápidas mudanças de seu ambiente natural.
Exemplo de texto[36]
| Inuctune | Hilaingnarngmi nunarraaq, ungadaangni heqinerriaq dakkiga qaamagd’uni, uungmatigd’id inuunerriangad, hiorgd’ugooq augda uanga ilungni, tigd’erngneq unijuigtsoq pigviggani tikigd’ugu, aulanguhaargdoq. Pigviggap ingergd’arrunngitsup, iluani damagssa inugguid inunngorargdud, ilailu damagssa toqorargdud, hiorgd’ugooq augda uanga ilungni, inuuneq unijuigtsoq pigviggani tikigssergd’ugu, ingergd’anguhaargdoq. |
|---|---|
| Português | Um mundo no ar, um sol brilha à distância, um mundo de corações, como dentro de mim também, como um pulso imparável aguardando sua parada natural. Algumas pessoas nascem e outras morrem, dentro deste tempo em câmera lenta, como dentro de mim, reciclando a vida para sempre, seguindo até o seu fim. |
Númerais
| Número cardinal | Inuctune | Número ordinal | Inuctune |
|---|---|---|---|
| 1 | atauhiq | 1 | hiulliq |
| 2 | marluk | 2 | aippaa |
| 3 | pingahut | 3 | pingajuat |
| 4 | hihamat | 4 | hihammat |
| 5 | tallimat | 5 | tallimaat |
| 6 | arviniglit | ||
| 7 | arviniq marluk | ||
| 8 | arviniq pingahut | ||
| 9 | qulingiluat | ||
| 10 | qulit | ||
| 20 | kauktut |
Marcação temporal
| Inuctune | Português |
|---|---|
| atauhinngurnig | segunda-feira |
| marlunngurnig | terça-feira |
| pingahunngurnig | quarta-feira |
| hihamanngurnig | quinta-feira |
| tallimanngurnig | sexta-feira |
| arvininngurnig | sábado |
| hapaat | domingo |
| hapaatip akunnira | semana |
Os meses do ano são todos emprestados do dinamarquês, mas com um "sotaque" inuctune.
| Inuctune | Português |
|---|---|
| jannuaari | janeiro |
| fipruaari | fevereiro |
| marsi | março |
| apriili | abril |
| maaji | maio |
| juuni | junho |
| juuli | julho |
| aghuusti | agosto |
| sitsimpari | setembro |
| uqtuupari | outubro |
| nuvimpari | novembro |
| dissimpari | dezembro |
Referências
- ↑ «Will the English language ever die?». phys.org. 24 de outubro de 2011. Consultado em 18 de julho de 2012
- 1 2 Fortescue 1991, pp. 1.
- ↑ Gill, Victoria (13 de outubro de 2010). «Scientists will live as an Inuit for one year». BBC News. Consultado em 18 de julho de 2012
- ↑ Fortescue 1991, pp. 2.
- 1 2 Leonard 2015, pp. 37.
- 1 2 Leonard 2015, pp. 7.
- 1 2 Leonard 2015, pp. 19.
- 1 2 Leonard 2015, pp. 27.
- 1 2 3 Leonard 2015, pp. 33.
- 1 2 Leonard 2015, pp. 1.
- ↑ Leonard 2015, pp. 2.
- ↑ Fortescue 2023, pp. 162.
- ↑ Kroeber 2022, pp. 266.
- ↑ Leonard 2015, pp. 6.
- ↑ Leonard 2015, pp. 3.
- ↑ Kahn & Valijärvi 2022, p. 3.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 5.
- ↑ Leonard 2015, pp. 16.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 3.
- ↑ Leonard 2015, pp. 25.
- ↑ Kroeber 2022, pp. 267.
- 1 2 3 Leonard 2015, pp. 30.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 172-173.
- ↑ Leonard 2015, pp. 41.
- ↑ Leonard 2015, pp. 42.
- ↑ Leonard 2015, pp. 44.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 173.
- ↑ Leonard 2015, pp. 29.
- ↑ Leonard 2015, pp. 28.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 175.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 175-176.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 176.
- 1 2 Fortescue 1991, pp. 177.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 169.
- ↑ Leonard 2015, pp. 50.
- ↑ Leonard 2015, pp. 81.
- ↑ Fortescue 1991, pp. 25-26.
- 1 2 Fortescue 1991, pp. 24.
Bibliografia
- Leonard, Stephen Pax (2015). «Contemporary Studies in Descriptive Linguistics» [Estudos contemporâneos em linguística descritiva]. In: Davis, Graeme; Bernhardt, Karl A. Some Ethnolinguistic Notes on Polar Eskimo [Algumas notas etnolinguísticas sobre os esquimós polares] (em inglês). 37. Berna: Peter Lang. pp. 1–275. ISBN 978-3-0353-0736-8
- Fortescue, Michael D. (1991). Inuktun: an introduction to the language of Qaanaaq, Thule = Inuktun : en introduktion til Thulesproget [Inuctune: uma introdução à linguagem de Qaanaaq, Thule] (em inglês e dinamarquês). Copenhague: Institut for Eskimologi, Københavns Universitet. pp. 1–210. ISBN 87-87874-16-4
- Garrett, Andrew (2022). Alfred Kroeber’s Documentation of Inuktun (Polar Inuit) [Documentação de Alfred Kroeber sobre inuctune (inuíte polar)] (em inglês). 64. [S.l.]: Anthropological Linguistics. pp. 263–298. doi:10.1353/anl.2022.a969709
- Fortescue, Michael D. (2023). Greenlandic Dialect Classification [Classificação dos dialetos da Groenlândia] (em inglês). 10. [S.l.]: Dialectologia. pp. 155–168. ISSN 2013-2247. doi:10.1344/DIALECTOLOGIA2022.2022.6
