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Trindade e Martim Vaz
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Vista parcial da ilha da Trindade | |
| Localização no Oceano Atlântico | |
| Coordenadas: | |
Mapa de Trindade Mapa de Martim Vaz | |
| Geografia | |
|---|---|
| País | Brasil |
| Localização | Oceano Atlântico |
| Ponto culminante | Pico do Desejado, 600 m m |
| Área | 10,4 km² |
| Demografia | |
| População | 36 habitantes, em média |
Trindade e Martim Vaz é um arquipélago localizado no sul do Oceano Atlântico, a cerca de 1,1 mil quilômetros a leste da costa do estado brasileiro do Espírito Santo, do qual faz parte. O arquipélago tem uma área total de 10,4 quilômetros e uma estação de pesquisa apoiada pela Marinha do Brasil com capacidade para até 8 pessoas.[1]
O arquipélago consiste em cinco ilhas e vários rochedos e ilhéus; Trindade é a maior ilha, com uma área de 10,1 quilômetros quadrados; cerca de 49 quilômetros a leste dela estão os minúsculos ilhéus de Martim Vaz, com uma área total de 0,3 quilômetros quadrados.
As ilhas são de origem vulcânica e possuem terreno acidentado; a data da última erupção na ilha é desconhecida, mas ocorreu na ponta sudeste da ilha, no Vulcão de Paredão.[2] São em grande parte áridas, com exceção da parte sul de Trindade. Foram descobertas em 1502 pelo explorador português Estêvão da Gama e permaneceram portuguesas até se tornarem parte do Brasil com a sua independência em 1822. De 1895 a 1896, Trindade foi ocupada pelo Reino Unido até que um acordo com o Brasil fosse alcançado. Durante o período de ocupação britânica, Trindade era conhecida como South Trinidad.
As ilhas estão situadas a cerca de 2,1 mil quilômetros a sudoeste da Ilha de Ascensão, a 2,5 mil quilômetros a oeste de Santa Helena e a 4,2 mil quilômetros da costa oeste da África. Devido à introdução de espécies invasoras, como ovelhas, a biodiversidade da ilha deteriorou-se muito desde a segunda metade do século XX, com muitas espécies nativas a tornarem-se ameaçadas de extinção.[3]
História
Séculos XVI-XVIII


A ilha de Martim Vaz foi descoberta em 1501, durante o reinado de D. Manuel I de Portugal, pelo navegador galego João da Nova. No ano seguinte, o navegador português Estêvão da Gama visitou a ilha vizinha e chamou-a ilha da Trindade, quando passaram a fazer parte do Império Português.[4][5]
Muitos visitantes estiveram em Martim Vaz, o mais famoso dos quais foi o astrônomo inglês Edmund Halley, que tomou posse da ilha em nome da Monarquia Britânica em 1700.[6] Cabras e porcos selvagens, descendentes dos libertados por Halley, ainda eram encontrados em Martim Vaz em 1939.[7]
O HMS Rattlesnake, uma corveta de 198 toneladas com 12 canhões e velas de tipo cutter, naufragou na Ilha da Trindade em 21 de outubro de 1781, logo após o comandante Philippe d'Auvergne ter assumido o comando. O Rattlesnake havia recebido ordens para inspecionar a ilha a fim de determinar se ela seria uma base útil para os navios que partiam para a Índia. Ela ancorou, mas naquela noite o vento aumentou e, às sete horas, já estava a arrastar-se. Duas horas depois, a primeira âncora se soltou e o comandante d’Auvergne manobrou para sair, içando as velas mestra e de proa e usando o cabo de âncora restante como um guincho. Isso conseguiu virar a proa do Rattlesnake para o mar. A corda restante foi então cortada, e a corveta virou e partiu para o mar. No entanto, o fundo do mar ficou raso rapidamente e, de repente, o Rattlesnake bateu em uma rocha submersa. O navio começou a encher de água, então, para preservar a vida da tripulação, d’Auvergne o encalhou.[8]:40–45
O comodoro Johnstone, a bordo do HMS Jupiter, já havia manifestado o desejo de colonizar a ilha e reivindicá-la para o Reino Unido; assim, d'Auvergne concordou em permanecer na pequena ilha com 30 marinheiros britânicos, 20 marinheiros franceses capturados, uma mulher francesa, alguns animais e suprimentos. Eles receberam novos suprimentos de outro navio em janeiro de 1782, mas depois parecem ter sido esquecidos, pois viveram na pequena ilha por um ano até que o HMS Bristol e um comboio de navios da Companhia das Índias Orientais, que por acaso atracou ali, os resgataram no final de dezembro de 1782.[8]:40–45
Johnstone tinha feito uma base naval em Trindade, então Portugal reagiu. Enviaram a Nossa Senhora dos Prazeres, de 64 canhões, comandada pelo Capitão de Mar e Guerra José de Melo, com 150 soldados e artilharia, mas os ingleses já tinham abandonado a Ilha.[6]
Século XIX

Em 1839, a Expedição Ross fez uma breve parada em Trindade, conforme relatado por Robert McCormick. Ele descreveu o Pico Monumento como a "Rocha dos Nove Pinos".[9]
Em 1889, Edward Frederick Knight partiu em busca de tesouros na ilha. Ele não teve sucesso, mas escreveu uma descrição detalhada da ilha e de sua expedição, intitulada "The Cruise of the Alerte" (A Viagem do Alerte).
Principado de Trinidad de 1893

Em 1893, outro franco-americano, James Harden-Hickey, reivindicou a ilha e se declarou Jaime I, Príncipe de Trinidad.[10] De acordo com os seus planos, Trinidad, após ser reconhecida como um país independente, se tornaria uma ditadura militar e ele seria o ditador.[11] Ele desenhou selos postais, uma bandeira nacional e um brasão de armas; estabeleceu uma ordem de cavalaria, a "Cruz de Trinidad"; comprou uma escuna para transportar colonos; nomeou M. le Comte de la Boissiere como secretário de Estado; abriu um escritório consular na Rua 36 Oeste, número 217, na cidade de Nova York; e até emitiu títulos do governo para financiar a construção de infraestrutura na ilha. Apesar de seus planos, sua ideia foi ridicularizada ou ignorada pelo mundo.[12][13][14][15][16][17]
Tentativa de domínio britânico em 1895
Em julho de 1895, os britânicos tentaram novamente tomar posse desta posição estratégica no Atlântico.[11] Os britânicos planejavam usar a ilha como estação de cabos.[11] No entanto, os esforços diplomáticos brasileiros, juntamente com a permissão de Portugal,[18] restituíram a Ilha da Trindade à soberania brasileira.[18]
Século XX
Primeira Guerra Mundial

Em 14 de setembro de 1914 aconteceu a Batalha de Trindade; uma ação entre navios durante a Primeira Guerra Mundial. A batalha ocorreu ao largo da costa do Brasil na ilha da Trindade entre a Marinha Imperial Alemã e a Marinha Real Britânica.[19]
Presídio político nos anos 1920
O isolamento e falta de estrutura de Trindade fizeram a administração de Artur Bernardes aproveitar-se da ilha como um presídio político durante o estado de sítio de 1924–1926. Os primeiros presos políticos desembarcaram em dezembro de 1924. Passaram pela ilha vários militares com carreiras futuras ilustres: os candidatos a presidente Eduardo Gomes e Juarez Távora, os interventores federais Augusto Maynard Gomes e Roberto Carneiro de Mendonça e o ministro da Guerra Odílio Denys.[20] Os presos viveram em barracas de lona, entreteram-se com a leitura e os jogos como o pingue-pongue e voleibol e batizaram as localidades da ilha com homenagens à revolução tenentista: o planalto General Isidoro, túnel Tenente Jansen, enseada Viúva Gomes, areal Costa Leite e praia Edith. Médicos, cartas e livros chegavam de navio, juntamente com o revezamento dos guardas.[21]
As provisões só incluíram carne na penúltima viagem. A caça de cabritos, porcos e patos não teve muito sucesso, e a pesca nas ondas violentas era perigosa. Uma tartaruga de uma centena de quilos serviu de alimento por alguns dias. Nessas condições, vários presos padeceram de avitaminose, beriberi e polineurite, havendo inclusive casos fatais. Em 21 de junho de 1926 a estação radiotelegráfica da Ilha das Cobras recebeu um apelo de habeas corpus dos desterrados de Trindade, protestando da "mal disfarçada eliminação dos adversários, contra expressa posição constitucional".[22] Mas os prisioneiros só foram liberados ao início de 1927, quando terminou o estado de sítio.[20]
Avistamento de OVNI em 1958

Em 16 de janeiro de 1958, o fotógrafo baiano, radicado em Niterói, Almiro Baraúna, então com 42 anos de idade, convidado pela Marinha do Brasil para participar de pesquisas oceanográficas na Ilha da Trindade, no litoral capixaba, realizando fotografias submarinas, haveria captado, a bordo do navio-escola Almirante Saldanha, quatro imagens de uma nave discoide sobrevoando a ilha. O filme foi revelado na enfermaria do navio, improvisada como laboratório, mas devido às dimensões reduzidas dos negativos, a suposta nave não pôde ser visualizada por nenhum dos presentes, apenas um ponto foi percebido.[23]
Proposta de base militar

O almirante Maximiano da Fonseca, ministro da Marinha de 1979 a 1984, trouxe a Trindade o ministro da Aeronáutica e técnicos em construção de aeroportos. Eles produziram um estudo preliminar em que se afirmava a viabilidade de uma pista de pouso de mais de dois mil metros e um atracadouro para navios com até dez metros de calado, para transformar a ilha numa base militar. O orçamento teria sido estimado, à época, em cerca de 200 milhões de dólares, o que nunca foi obtido. Um dos contra-argumentos considerados era que, uma vez que a base militar estivesse disponível, ela poderia ser apossada por um inimigo e usada contra o Brasil.[24] A teórica geopolítica Therezinha de Castro traçou em Trindade um dos vértices de um triângulo arquipelágico com Fernando de Noronha e as Ilhas Malvinas; este triângulo poderia ser usado para defender o litoral da América do Sul ou atacá-lo.[25]
Geografia


As ilhas Trindade e Martim Vaz estão localizadas a 1 200 km da costa de Vitória, no centro do Atlântico Sul. O arquipélago é formado por duas ilhas principais — Trindade (9,2 km²), ao sul, e Martim Vaz (0,3 km²), ao norte —, por duas ilhotas íngremes e inacessíveis (a ilha do Norte e a ilha do Sul) e por vários rochedos menores, como o Rochedo Agulha, situados a 48 km a leste de Trindade, perfazendo uma área total de 10,4 km².
Geologia
A ilha da Trindade tem numerosos centros vulcânicos. A atividade vulcânica mais recente aconteceu há aproximadamente 50 000 anos no Vulcão Paredão no ponto mais ao sudeste da ilha. Essa atividade consistiu em fluxo piroclástico que acumulou um cone de cinzas. Em Trindade ocorreram cinco vulcões acima do nível do mar. O vulcão denominado Complexo de Trindade é o mais antigo dos cinco e caracteriza-se por possuir rochas intrusivas e piroclásticas. Na Enseada da Cachoeira, podem-se reconhecer as rochas mais antigas da ilha. Há também a formação Morro Vermelho, que resultou de uma erupção explosiva com derrames de lava denominada ankaratrica.[26]
Outras formações que se destacam são a Formação Valado, onde ocorre rochas piroclásticas; o Morro do Paredão, que representa as ruínas de um vulcão. O Morro do Paredão corre o risco de desaparecer devido à ação erosiva das águas oceânicas. É o único resto reconhecível de um vulcão no Brasil.[26] Trindade possui uma série vulcânica que se caracteriza por ser altamente subsaturada em sílica. Juntamente com a série vulcânica de Fernando de Noronha, é a série vulcânica oceânica mais subsaturadas em sílica do Atlântico.[26]
Flora e fauna

A pesquisa ambiental acerca do ecossistema da ilha encontra-se a cargo da equipe de pesquisas do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 1916. De acordo com estudos da instituição, existem 124 espécies botânicas vasculares na ilha, catorze das quais endêmicas. A principal espécie vegetal é a samambaia gigante.[27]
A principal espécie animal terrestre na ilha é o caranguejo-amarelo (Gecarcinus lagostoma),[28] que ocorre até mesmo nos picos mais altos. No passado, foram deixados para trás cabras, porcos e outros animais domesticados. Como eles perturbavam o ambiente natural, a Marinha, com base em relatórios do Museu Nacional, erradicou as espécies exóticas.[29]
Clima
A ilha da Trindade possui um clima que varia entre o tropical semiúmido e o semiárido. Apresenta baixa pluviosidade média anual e duas estações bem definidas, sendo a seca entre janeiro e março. O mês mais quente é março e julho é o mais frio.[30]
Ver também
Referências
- ↑ «PROGRAMA DE PESQUISAS CIENTÍFICAS NA ILHA DA TRINDADE». CIRM. 30 de junho de 2017. Consultado em 29 de dezembro de 2021
- ↑ «Trindade volcano»
- ↑ «Islands off the coast of eastern Brazil - Ecoregions - WWF». World Wildlife Fund. Consultado em 29 de dezembro de 2021
- ↑ Lucas Cembranelli. «Ilha da Trindade - História». Folha Online. Folha de S.Paulo
- ↑ Dias, Carlos Malheiros (1923). História da Colonização Portuguesa do Brasil. Volume II - "A epopéia dos litorais". Porto (Portugal): Litografia Nacional. p. 252-253; 249; 425
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- ↑ National Geographic Magazine annotated map of Atlantic Ocean, dated July 1939
- 1 2 Ashelford, Jane (2008). In the English Service: The Life of Philippe D'Auvergne. [S.l.]: Jersey Heritage Trust. ISBN 978-0955250880
- ↑ M'Cormick, Robert; Franklin, John (1884). Voyages of discovery in the Arctic and Antarctic seas and round the world [microform] : being personal narratives of attempts to reach the North and South Poles, and of an open-boat expedition up the Wellington Channel in search of Sir John Franklin and Her Majesty's ships "Erebus" and "Terror", in Her Majesty's boat "Forlorn Hope", under the command of the author to which are added an autobiography, appendix, portraits, maps and numerous illustrations. [S.l.]: London : S. Low, Marston, Searle, and Rivington. ISBN 978-0-665-09223-7
- ↑ Bryk, William, "News & Columns", New York Press, v 15 no 50 (December 10, 2002) Arquivado em abril 30, 2006, no Wayback Machine
- 1 2 3 Bryk (2002) Arquivado em 2006-04-30 no Wayback Machine
- ↑ "Trinidad's Prince Awake: An Appeal to Washington Against Brazil and Great Britain", New York Times, August 1, 1895, p 1
- ↑ "Grand Chancellor of Trinidad: Significant Phases in the Ascent of Male Comte de la Boissiere to His Elevated Diplomatic Post", New York Times, August 2, 1895, p 9
- ↑ "Trinidad's Case in Washington: Courteously, the Chancellor Would Permit Britain's Cable Station and Use It, but There Is Graver Trouble", New York Times, August 7, 1895, p 1
- ↑ "Trinidad's Diplomat in Action: M. de la Boissiere Asks that His Sovereign's Land Be Recognized as a Neutral Principality", New York Times, August 9, 1895, p 5
- ↑ "Trinidad's Prince at Work: Grand Chancellor de la Boissiere Tells How the War Between Great Britain and Brazil Will Be Averted", New York Times, Jan 24, 1896, p 9
- ↑ Flags of the World - Trindade and Martins Vaz Islands (Brazil) (sic)
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- ↑ Chiozzo, Vitor Deccache (2019). A importância geoestratégica de utilização militar das ilhas oceânicas brasileiras (PDF) (Dissertação). Escola de Guerra Naval. p. 85-86.
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