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O Cortesão
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O Cortesão | |
|---|---|
| Autor | Baldassare Castiglione |
| Idioma | italiano |
| Tema | etiqueta |
| Data de publicação | 1528 |
O Cortesão ou O Livro do Cortesão (em italiano, Il libro del cortegiano) é uma obra escrita por Baldassare Castiglione (1478-1529) e impressa pela primeira vez em abril de 1528 pela oficina de Andrea Torresani, em Veneza. O livro é um tratado de civilidade, comportamento e ética cortesã, dedicado a Dom Miguel da Silva, Bispo de Viseu, e organizado em forma de diálogos.
Estrutura e conteúdo
O manuscrito da obra foi enviado em abril de 1527 de Valladolid para ser impresso na oficina veneziana de Andrea Torresani, então dirigida pelo seu filho Gian Francesco, herdeiros do destacado impressor Aldo Manuzio, cuja marca comercial ainda aparece no frontispício e cujos princípios gráficos ainda prevalecem na composição visual e tipográfica. A impressão foi terminada em abril de 1528 depois de uma extensa revisão e correção do texto. Castiglione acompanhou de perto todo o processo de impressão, dando instruções precisas sobre materiais, cores e pormenores. O livro deveria ter sido dedicado ao seu amigo Alfonso Ariosto, e a dedicação final a Dom Miguel da Silva, Bispo de Viseu, parece ter sido feita de última hora e por razão pouco clara.[1]
No prólogo, o autor explica que a obra foi composta por incentivo de Ariosto, que lhe pedira que escrevesse sobre "a forma de cortesania mais conveniente ao fidalgo que vive numa corte de príncipes, de tal maneira que possa e saiba servi-los em tudo o que seja razoável, conquistando as graças deles e os elogios dos outros; em suma, como deve ser aquele que mereça ser chamado de perfeito cortesão, para que nada lhe falte".[2]
Sua filosofia foi inspirada principalmente na convenção letrada de escritos políticos do humanismo renascentista, incluindo autores como Aristóteles, Platão, Cícero e Marsilio Ficino. Sob o argumento de relatar fielmente os acontecimentos passados em quatro noites, de 3 a 7 de março de 1506, no palácio do Duque de Urbino, Guidobaldo I de Montefeltro (1472-1508), a quem Castiglione prestava serviços como militar, diplomata e letrado, a sequência dialógica da obra está disposta em quatro partes (quatro livros), sendo cada uma delas correspondente a uma noite. O jogo escolhido pelo grupo – fortemente homogêneo (gentis-homens e damas) – consiste em uma questão central: "formar com palavras um perfeito cortesão" (Livro 1). A corte, enquanto espaço físico e social,[3] funciona como uma espécie de espelho desse projeto de perfeição, que prevê uma formação universal e totalizante, "adquirida por meio de experiências variadas que vão do campo de guerra ao especulativo, passando pelo treino das técnicas do verso, da música e da pintura".[4] O livro discorre sobre vários aspectos do cortesão, incluindo a aparência física, a vestimenta, a conversação, a movimentação do corpo, a diversão, a prática amorosa, as formas de se relacionar com os príncipes e autoridades e com seus próprios pares, e os meios de educar-se e aperfeiçoar-se nas múltiplas virtudes e habilidades exigidas.[5]

Defende um modelo de vida calcado na moderação, no decoro, na simplicidade, na modéstia, nas boas maneiras, e no conhecimento dos próprios limites, do lugar de cada um na hierarquia estabelecida e do comportamento adequado a cada situação, buscando a harmonia social, mas também se posicionava contra as posturas excessivamente afetadas, alegando que a pessoa deveria mostrar o que de fato é.[6][7] A expressão da sua natureza, contudo, deveria ser feita com graça e de acordo com as convenções socialmente aceitas. Para aqueles que não haviam sido contemplados com a graça natural, deveriam buscar bons professores e aplicar-se em sua prática até que se tornasse uma segunda natureza, e sua expressão deveria ser de tal modo espontânea que não fosse percebido nenhum esforço na arte da representação, o que Castiglione chamava de sprezzatura. Por mais culto e refinado que fosse, jamais faria alarde de sua erudição e qualidade. Assim, defendendo a moderação, a autodisciplina, a harmonia, o apreço pela tradição cultural, e tendo como noções básicas a ordem, a medida e a proporção, Castiglione embutia em sua escrita os principais valores e princípios do classicismo renascentista.[5]
Ele reconhecia a virtual inexistência do "cortesão perfeito", mas recomendava uma busca incessante pelo aperfeiçoamento individual em direção ao modelo ideal que propunha. Alertava contra o saudosismo distorcido daqueles que em sua velhice alegavam que as cortes do passado foram melhores e mais dignas do que as do seu presente, reconhecia que o mundo real sempre foi impregnado de corrupção, violência e outros problemas, e estava ciente das dificuldades encontradas pelos cortesãos nos ambientes palacianos, onde as intrigas nos bastidores e a luta pelo poder eram permanentes. Entendia que para um cortesão amante da paz era essencial estar atento às flutuações de humores e interesses dos príncipes, mas também dos outros cortesãos. Aceitava, por isso, o que chamava de "dissimulação honesta", quando se encontra uma situação adversa que é impossível de evitar.[6][7] Na interpretação de Edmir Míssio,
- "A dissimulação honesta é recurso previsto para variadas situações, remetendo, no entanto, geralmente, a uma mesma condição: a de enfrentamento de uma dificuldade por meio do ardil, seja por recuo, desvio, silêncio, ocultação, ou ainda pela imaginação. Recorre-se à dissimulação honesta por benevolência, respeito, medo, vantagem e/ou beleza. […] E se a dissimulação, de modo geral, serve tanto para o ataque quanto para a defesa, quando honesta não prevê a ofensa, o dano, é voltada antes à adaptação ao mundo mas, como se viu, pode prover mudanças. O contexto da autodefesa em presença do poder de um soberano é apenas um dos casos de uso do recurso. O seu uso também ocorre entre os pares por meio das boas maneiras".[6]
Para Valéria Paiva, no contexto do século XVI "a dissimulação relaciona-se a um estilo, isto é, a uma forma ao mesmo tempo estética e moral através da qual os saberes e as virtudes eram atualizados em comportamentos socialmente valorizados", operando um entrelaçamento sutil e precário entre ser e parecer, que propunha um modelo de sociabilidade marcado pela busca do que é conveniente e pela necessidade de adaptação diante de circunstâncias que poderiam romper a harmonia social desejada, uma adaptação entendida pela aristocracia cortesã renascentista como uma norma social válida.[2] A própria estrutura da obra, em forma de diálogos entre participantes que têm diferentes ideias sobre o que constitui o "cortesão perfeito", reflete sua concepção da sociabilidade como fruto de uma negociação e consenso entre diferentes atores, e não de uma imposição por uma única autoridade.[2][5]
Castiglione não considerava imprescindível um nascimento nobre para o bom cortesão, pois acreditava que sendo o homem um filho de Deus, dotado de engenho, graça e razão, podia elevar-se por seus próprios meios.[7] Para ele o "cortesão perfeito" deveria ser semelhante a um educador, que ensina através do exemplo pessoal e não apenas da retórica, e por isso enfatizava a importância de um preparo esmerado tanto nas artes da espada como nas do intelecto, como a filosofia, a política, a literatura, as artes visuais e a música. Tendo essa formação e levando uma vida exemplar, poderia almejar ser um conselheiro de príncipes e colaborar na transformação da sociedade para melhor.[6][7] Neste ponto distingue o cortesão do adulador, aquele que busca apenas sua promoção pessoal sem considerar se o príncipe toma um bom ou mau caminho em suas decisões.[7] O trato com o príncipe era aspecto extremamente delicado e potencialmente perigoso, considerando que os governantes não estavam habituados a ser contrariados e tinham demasiada confiança em sua própria opinião, e por isso o cortesão deveria primeiro conquistar sua benevolência e confiança, o que o capacitaria para falar-lhes com franqueza, e só depois disso passaria à tentativa de influenciá-los. Ao fazer-lhes ver o que é a virtude, a generosidade e a magnanimidade, estaria contribuindo para que os cidadãos fossem bem governados.[5]
Fortuna crítica
Castiglione não parece ter concebido a obra especificamente como um manual didático, haja vista a variedade de opiniões que apresenta, eximindo-se da responsabilidade de prescrever normas rígidas para o cortesão perfeito, e o público a que se destinava originalmente, a própria aristocracia, já estava habituado às convenções da vida cortesã,[8] e neste sentido, O Cortesão pode ser entendido como uma especulação teórica e uma proposta de integração e harmonização da diversidade, mas diferentes públicos o tomaram como um guia normativo. Essa interpretação, assim como seu caráter inovador, não tendo precedentes em seu gênero, foram fatores centrais para assegurar-lhe um extraordinário sucesso editorial.[5]
O livro teve uma recepção extremamente favorável. Somente no século XVI teve sessenta reimpressões em italiano e foi traduzido para várias outras línguas,[2] circulando amplamente e tornando-se, conforme Rita Marnoto, "o vade mecum de cortesãos, damas de palácio ou aspirantes a cortesãos de toda a Europa", além de inspirar uma série de obras similares,[5] mas a partir do século XVII o interesse por ele declinou, em parte pela ascensão do absolutismo, em cujo contexto seus conselhos passaram a ser vistos como francos demais diante do poder absoluto dos príncipes, e em parte pela crítica à dissimulação em função de objeções morais e religiosas, chegando a ser incluído no Index de livros proibidos pela Inquisição. Por outro lado, no fim do século XVII ele passou a receber atenção de um outro público, a burguesia rica que desejava emular a cultura aristocrática.[2] É ainda hoje um dos textos renascentistas mais conhecidos, tendo gerado considerável bibliografia crítica.[9]
A leitura da obra vem sendo revista desde os importantes estudos de Norbert Elias sobre o processo civilizador e os tratados de corte, geralmente encarados como manuais frívolos de etiqueta ou, no melhor dos cenários, como uma formulação idealista ou utópica, com finalidades compensatórias. Segundo Alcir Pécora, é o mais importante dos tratados que se multiplicaram em diversas línguas com o objetivo de instituir um novo código da razão, sendo um projeto de formação de uma nova civilidade no pensamento político moderno, em que a razão se concilia com a elegância.[10]
Ver também
Referências
- ↑ Marnoto, Rita. Cortegiano e cortesão. Baldassarre Castiglione e D. Miguel da Silva. Genebra: Centre International d'Études Portugaises, 2017, pp. 193-214
- 1 2 3 4 5 Paiva, Valéria. "A identidade como obra coletiva em O Cortesão, de Baldassare Castiglione". In: Tempo Social, 2009; 21 (1)
- ↑ Elias, Norbert. O Processo Civilizador. Jorge Zahar, 1994, pp. 75-76
- ↑ Pécora, Alcir. Máquina de Gêneros Edusp e Editora Unicamp, 2018, p. 73
- 1 2 3 4 5 6 Marnoto, Rita. "Il libro del cortegiano e a forma de cortesania". In: Castiglione, Baldassarre. O Livro do Cortesão. Fundação Calouste Gulbenkian, 2020, pp. 10-27
- 1 2 3 4 Míssio, Edmir. "O cortesão moral de Baldassare Castiglione e o ordinário de Eustache du Refuge". In: Memorandum, 2008; (14):25-36
- 1 2 3 4 5 Lucas, Charlles da Fonseca. "O Cortesão, conforme Baldassare Castiglione". In: Revista EDUC — Faculdade de Duque de Caxias, 2015; 1 (3)
- ↑ Moraes, William Zeytounlian de. "Anotações para uma história dos comportamentos silenciosos na modernidade: Castiglione e Della Casa". In: Revista 7 Mares, 2012; 1 (1)
- ↑ "The Fortunes of the Courtier: The European Reception of Castiglione's Cortegiano. Peter Burke". Pennsylvania State University
- ↑ Pécora, Alcir. "Apresentação". In: Castiglione, Baldassare. O Cortesão. Martins Fontes, 1997, p. VII

