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Humanismo cívico
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O Humanismo Cívico é um conceito criado pelo historiador Hans Baron de modo a explicar uma nova vertente do humanismoem que seus seguidores se engajavam mais politicamente, ou seja, teriam ganhado uma "consciência nova e mais intensa". Visando, por assim dizer, uma mudança do estilo de vida da contemplação para uma vida ativa, que fazia com que as pessoas se tornassem cidadãos ativos e engajados nas questões da cidade. Maquiavel era visto como parte desses humanistas, o que influenciou fortemente os seus pensamentos e os livros que ele escreveu.[1]
Os humanistas cívicos se concentram na Florença, na Itália, a qual foi o berço desse pensamento que emergiu após guerras travadas contra o Ducado de Milão.[2] A participação política e cultural, portanto, é o ponto chave para os principais pensadores dessa corrente.
A formação do conceito por Hans Baron surge após o estudo sobre Cícero, que foi cônsul da Roma Antiga e também escritor, que era admirado em grande parte pelos humanistas cívicos, pois era capaz de mediar suas obrigações como cidadão e líder de uma nação com suas obrigações intelectuais com a leitura e a escrita. Portanto, o ato de ser um cidadão não poderia impedir o crescimento intelectual de um humanista cívico e nem o oposto poderia acontecer, mas incentivá-lo e estimulá-lo.[2]
Críticas ao conceito e debate atual
A discussão em relação ao Renascimento como período ainda acalorada, existe uma grande questão entre os historiadores em relação à ruptura total com a Idade Média ou a continuidade do período medieval com um resgate aos clássicos. O conceito criado por Hans Baron se apoia completamente na ruptura entre estes dois períodos, o que incitou diversas críticas ao humanismo cívico.[3]
Sua tese foi criticada por muitos historiadores[4], dentre eles Paul Oskar Kristeller. Para ele não havia uma ruptura entre a Idade Moderna e a Idade Média, se apoiando principalmente na continuidade da valorização da Ars Dictaminis e Ars Arengandie. Para ele a oposição da escolástica e do humanismo era um exagero. Com esta tese dando abertura para interpretações de que os humanistas não haviam articulado o pensamento político-filosófico[5].
Outro de seus críticos foi o historiador Quentin Skinner, que inicialmente concorda com a tese de Baron quanto às mudanças ocorridas no pensamento humanista configurando um tipo de ruptura, porém acrescenta que havia influências medievais no pensamento do humanista cívico, havendo continuidades entre o humanismo cívico e o humanismo petrarquiano (se opondo a ideia de uma ruptura total entre Idade Média e Idade Moderna). Skinner apresenta os teóricos não como cidadãos imbuídos de sentimento cívico, mas sim que aplicavam a retórica em sua vida política.[6]
O debate ainda produz muitos trabalhos de análise histórica e historiográfica de alta qualidade, com nomes como Mikael Hörnqvist[7] e John Najemy debatendo o conceito de Baron e sua historiografia nos últimos 20 anos.
Humanismo-Cívico Florentino
O historiador da Escola de Cambridge John G. A. Pocock é um dos responsáveis pelo desenvolvimento do conceito do Humanismo-Cívico Florentino[8], derivado do conceito de Humanismo Cívico de Baron. Pocock defende que "os críticos de Baron podem estar corretos"[9], mas que isso não significa que não existiu algo como o conceito de Humanismo Cívico de Baron, já que a retórica dos humanistas era tanto ativa quanto passiva, sendo possível ao humanista elaborar uma linguagem que exprimisse uma consciência cívica (partilhada ou não com seus pares, é possível ver no conceito de Humanismo Cívico uma forma para expressar essa visão de vida.[9] Pocock, assim, defende a existência de um Humanismo Cívico Florentino, que seria um movimento ocorrido especificamente em Florença entre o século XV e início do XVI, cujas ideias teriam circulado para outros espaços físicos e temporais.
Os adeptos de sua tese, e da tese de Baron sobre o Humanismo Cívico elencam algumas características deste movimento. Dentre elas:
- Crítica aos exércitos de mercenários[10]. Aqueles que anteriormente constituíam a maior parte das frentes armadas europeias passam a ser vistos como ameaça às Repúblicas nascentes devido a sua não lealdade à um Estado.
- Defesa das milícias. No lugar dos exércitos mercenários, defendia-se o armamento dos cidadãos para a defesa.[11][12]
- Mudanças na concepção de Liberdade. Autores como Skinner e Pocock entram em conflito de teses quanto a posição de determinados humanistas, mas suas teses seguem o conceito de que havia uma percepção de Liberdade Ativa (e positiva) e Liberdade Passiva (Negativa) como proposto por Isaiah Berlin. A liberdade Ativa viria de uma concepção de autoafirmação e estaria relacionada ao autogoverno ou constituição livre, e a liberdade negativa vinda de uma concepção de ausência de interferência estaria relacionada ao processo de Independência.
- Ataque à monarquia e preferencia pela forma de governo republicana. Dentre os argumentos para tal defesa estava a corrupção moral das cortes e dos príncipes[13]
- Centralidade da ideia de virtude (virtú). A educação filosófica, letrada e política passa a ser concebida como algo essencial para a construção da virtude, unindo as visões de virtude aristotélicas com as visões cristãs. Este conceito tem diversas definições e é influenciado por uma ampla gama de filósofos como Aristóteles e Cícero.
Referências
- ↑ Leite da Silva, Neves dos Reis, Wilma, Nilo (2021). «HUMANISMO CÍVICO: UM ESTUDO SOBRE O REPUBLICANISMO DE MAQUIAVEL». UEFS. Periódicos UEFS. Consultado em 7 de julho de 2025
- 1 2 Ambrosio, Renato (27 de março de 2014). «Política e retórica no Humanismo Florentino entre os séculos XIV e XV: em torno do Humanismo Cívico». São Paulo. doi:10.11606/t.8.2014.tde-12062015-114738. Consultado em 3 de junho de 2025
- ↑ BARON, Hans (1966). Crisis of the Early Italian Renaissance: Revised Edition. [S.l.]: Princeton University Press
- ↑ Ver: SEIGEL, Jerrold E. ‘Civic humanism’ or Ciceronian rhetoric? The culture of Petrarch and Bruni. Past & Present, v. 34. n. 1, p. 3-48, 1966.; HANKINS, James. The ‘Baron Thesis’ after Forty Years and Some Recent Studies of Leonardo Bruni. Journal of the History of Ideas, v. 56, n. 2, p. 309-338, 1995.; HANKINS, James (org.). Renaissance Civic Humanism: reappraisals and reflections. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.
- ↑ Pinto, Fabrina Magalhães; Moretti, Matheus Teixeira (25 de janeiro de 2021). «A historiografia do Humanismo cívico e o pensamento político de Leonardo Bruni». Revista Cantareira (34). ISSN 1677-7794
- ↑ Pinto, Fabrina Magalhães; Moretti, Matheus Teixeira (25 de janeiro de 2021). «A historiografia do Humanismo cívico e o pensamento político de Leonardo Bruni». Revista Cantareira (34). ISSN 1677-7794
- ↑ Hörnqvist, Mikael (22 de junho de 2000). «The two myths of civic humanism». Cambridge University Press: 105–142. ISBN 978-0-521-78090-2
- ↑ POCOCK, J. A. G. O Momento Maquaveliano. Eduff, 2022.
- 1 2 POCOCK, J. G. A. The Maquiavelian Moment:florentine Political Thought and the Atlantic Republican Tradition. Princeton. New Jersey: Princeton University Press, 1975. P. 60
- ↑ Maquiavel, Nicolau (30 de outubro de 2014). «Capítulo XII DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO AS MILÍCIAS, E DOS SOLDADOS MERCENÁRIOS». O príncipe. [S.l.]: Edipro. ISBN 978-85-7283-904-4
- ↑ BRUNI, Leonardo (1404?) Laudatio florentinae urbis
- ↑ ADVERSE, Helton. A matriz italiana. In: BIGNOTTO, Newton (Org.). Matrizes do Republicanismo Moderno. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. pp. 51-125.
- ↑ Alberti, Leon Battista (1971). The Albertis of Florence: Leon Battista Alberti's Della famiglia. Internet Archive. [S.l.]: Lewisburg, Bucknell University Press. ISBN 978-0-8387-7736-7. Consultado em 13 de julho de 2026
