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Hinos homéricos
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Os Hinos homéricos (Ὁμηρικοὶ Ὕμνοι), de autoria anônima – que celebram várias divindades da mitologia grega – são uma coleção de 33 hinos em língua grega, atribuídos a Homero, e de estrutura hexâmetra.[1]
Pela heterogeneidade, contudo, os estudiosos admitem que os poemas foram escritos por diversos autores antigos de diferentes épocas e, mais amplamente, de regiões distintas entre si.[1]
Os antigos rapsodos, que declamavam versos que não eram de sua própria autoria em festas e concursos, recitavam frequentemente os hinos homéricos – e também outras epopéias de Homero, que constituíam seu repertório principal – em ocasiões religiosas como meio de invocar deuses e celebrá-los, em desempenhos que lembravam atores, às vezes, com o uso de instrumentos como o bastão.[2]
Conteúdo e performance
A Atena
Começo por cantar Palas Atena, guardiã da cidade, deusa terrível, que com Ares se ocupa dos trabalhos da guerra, do saque de cidades e do grito de guerra e da refrega, e protege a hoste[a] enquanto ela parte e regressa.
Eu saúdo-te, deusa, concede-nos boa fortuna e felicidade!
— Hinos Homéricos, Tatiana Faia et al. (trad.), Lisboa, Imprensa da Universidade de Lisboa, 2018, p. 75.[3]
Os hinos variam consideravelmente em tamanho, entre 3 e 580 versos remanescentes.[4] Geralmente considera-se que funcionavam originalmente como prelúdios (prooimia) para recitações de obras mais longas, tais como poemas épicos.[5] Muitos dos hinos terminam com um verso indicando que outra canção se seguirá, às vezes especificamente uma obra de épica heroica.[4] Com o tempo, no entanto, pelo menos alguns podem ter-se alongado e sido recitados independentemente de outras obras.[6] Os hinos que atualmente sobrevivem como obras mais curtas podem, de igual modo, ser resumos de obras mais longas, retendo a introdução e a conclusão de um poema cuja narrativa central se perdeu.[7]
As primeiras fontes conhecidas que se referem aos poemas como "hinos" (hymnoi) datam do primeiro século a.C.[8] Em conceito, um hino antigo era uma invocação de uma divindade, frequentemente conectada com um culto específico ou santuário associado a essa divindade.[6] Os hinos frequentemente cobrem o nascimento da divindade, a sua chegada ao Olimpo e as suas relações com os seres humanos. Vários discutem as origens do culto do deus ou a fundação de um grande santuário dedicado a eles.[9] Alguns são relatos etiológicos de cultos religiosos, rituais específicos, aspetos da iconografia e responsabilidades de uma divindade, ou de aspetos da tecnologia e cultura humanas.[10] Os hinos têm sido considerados como agalmata, ou presentes oferecidos às divindades em nome de uma comunidade ou grupo social.[11] Nesta capacidade, Claude Calame referiu-se a eles como "contratos", pelos quais o louvor da divindade no hino convida à reciprocidade por parte dessa divindade na forma de favor ou proteção para o cantor ou para a sua comunidade.[12]
Pouco se sabe sobre os arranjos musicais dos Hinos Homéricos.[13] As composições musicais gregas antigas mais antigas que sobreviveram datam do final do século V a.C., após a composição de quase todos os hinos.[14] Originalmente, os hinos parecem ter sido executados por cantores acompanhando-se a si mesmos num instrumento de cordas, como uma lira; mais tarde, podem ter sido recitados, em vez de cantados, por um orador segurando um bastão.[15] O Hino a Apolo faz referência a um coro de donzelas na ilha de Delos, as Delíades, que cantavam hinos a Apolo, Leto e Ártemis.[16] Referências a instrumentos da família da lira (conhecidos alternadamente como phorminx) ocorrem ao longo dos Hinos Homéricos e de outros textos arcaicos, como a Ilíada e a Odisseia.[17] Estas liras geralmente tinham quatro cordas no período inicial da composição dos hinos, embora versões de sete cordas se tenham tornado mais comuns durante o século VII a.C.[18] Um peã, provavelmente escrito em 138 a.C., menciona o acompanhamento do canto hímnico com uma cítara (um instrumento de sete cordas da família da lira), e contrasta este estilo de música com o do aulos, um instrumento de sopro de palheta.[19] É improvável que a música grega primitiva tenha sido escrita; em vez disso, as composições eram transmitidas oralmente e passadas através da tradição.[20] Até ao século IV a.C., poucas composições parecem ter sido destinadas à repetição de performances ou à transmissão a longo prazo.[21]
Os Hinos Homéricos podem ter sido compostos para serem recitados em festivais religiosos, talvez em concursos de canto: vários pedem direta ou indiretamente o apoio do deus na competição.[22] Alguns aludem ao culto da divindade num lugar específico e podem ter sido compostos para performance dentro desse culto, embora este último não decorresse necessariamente do primeiro.[23] Parece provável que tenham sido executados frequentemente em vários contextos ao longo da antiguidade, tais como em banquetes ou simpósios.[24] Foi sugerido que o quinto hino, a Afrodite, poderia ter sido composto para performance numa corte real ou aristocrática,[25] talvez de uma família na Tróade que reivindicava descendência de Afrodite através do seu filho Eneias.[26] A voz narrativa dos hinos foi descrita por Marco Fantuzzi e Richard Hunter como "comunal", geralmente fazendo apenas referências generalizadas ao seu local de composição ou à identidade do orador. Isto tornava os hinos adequados para recitação por diferentes oradores e para diferentes públicos.[27] Jenny Strauss Clay sugeriu que os Hinos Homéricos desempenharam um papel no estabelecimento de uma conceção pan-helénica do panteão olímpico, com Zeus como o seu chefe, e, portanto, na promoção da unidade cultural dos gregos de diferentes politias.[28]
Hinos
A relação de hinos abaixo encontra-se em ordem alfabética de acordo com a divindade homenageada. O número romano em parênteses indica a posição do hino em questão nos manuscritos:
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Estrutura
Na edição de 1936 de Humbert, existem 33 hinos, de extensão e qualidade desiguais, e que ocupam 190 páginas. Os hinos mais extensos são os de homenagem a Deméter (II), Apolo (III), Hermes (IV) e Afrodite (V). Os hinos a Deméter, Apolo e Afrodite datam do fim do século VII, enquanto que o Hino a Hermes é do início do século VI, sendo os primeiros, portanto, os mais antigos.[1] Quanto aos hinos curtos, existem diversos, entre eles o Hino a Dionísio, a Ares, e o Hino a Pã.
Manuscritos, edições e traduções
Os hinos homéricos chegam até a modernidade em diversos manuscritos, sendo que nenhum deles contém os hinos completos e os documentos se encontram em más condições.[1]
As mais antigas edições são a do estudioso ateniense Demétrio Calcondilas de1488, e a da Aldina, de 1504.[1] As principais edições modernas são as de Baumeister (de 1860), Gemoll (de 1886) e Allen & Sikes (de 1904), e a mais recente é a de Humbert (o.c.).[1]
A língua portuguesa conta com traduções de Malhadas, para o Hino a Deméter (1970), a de Malhadas e Moura Neves para o Hino a Apolo Délio (de 1976), e a de Machado Cabral para o Hino a Apolo Pítio (1998), e também a de Marquetti, para os Hinos a Afrodite (2001).[1] A Universidade Estadual Paulista possui um projeto de tradução em desenvolvimento de todos os hinos, através do seu Departamento de Lingüística.[1]
Importância
Em geral, os hinos homéricos auxiliam os estudiosos modernos na compreensão da mitologia grega e suas criaturas, bem como possuem valores acerca do ser humano, de seu contato com a terra (Hino a Gaia), e com outros sentimentos (Hino a demais deuses), e também de suas relações com a arte (Hino a Hermes, Hino a Apolo) e com outras áreas da vida.
Notas
- ↑ Hoste − grupo de soldados armados, milícia ou exército
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Ribeiro Jr, Wilson A. "Hinos Homéricos Arquivado em 11 de maio de 2008, no Wayback Machine.". greciaantiga.org. Acesso: 6 de setembro, 2008.
- ↑ Ribeiro Jr, Wilson A. "O Íon de Platão". greciaantiga.org. Acesso: 6 de setembro, 2008.
- ↑ Evelyn-White 1914, p. 437.
- 1 2 Richardson 2003, p. viii.
- ↑ Bing 2009, p. 34. For a contrary view, see Mathiesen 1999, p. 34.
- 1 2 Pearcy 1989, p. iv.
- ↑ Parker 1991, p. 1.
- ↑ Richardson 2010, p. 3.
- ↑ Richardson 2003, pp. xiv–xvii.
- ↑ Richardson 2003, p. xviii.
- ↑ Depew 2009, p. 60; Bungard 2011, p. 162.
- ↑ Calame 2011, pp. 354–356.
- ↑ West 1981, pp. 123, 129.
- ↑ West 1992, p. 129.
- ↑ Richardson 2003, p. xii.
- ↑ Mathiesen 1999, p. 83.
- ↑ Mathiesen 1999, p. 253.
- ↑ West 1981, p. 116.
- ↑ Mathiesen 1999, pp. 39–43.
- ↑ Henderson 1969, pp. 336–338; Mathiesen 1999, p. 32.
- ↑ Henderson 1969, p. 338.
- ↑ Richardson 2003, pp. x–xii.
- ↑ Faulkner 2013, pp. 173–174.
- ↑ Strauss Clay 2006, p. 7; Richardson 2010, p. 3.
- ↑ Richardson 2010, p. 3; Faulkner 2013, p. 174.
- ↑ Faulkner 2013, pp. 174–175.
- ↑ Fantuzzi & Hunter 2009, p. 363.
- ↑ Johnston 2002, p. 110, citing the original 1989 publication of Strauss Clay 2006, passim.
Leitura adicional
- Hinos Homéricos: tradução, notas e estudo / Edvanda Bonavina da Rosa... [et al.]; edição e organização Wilson Alves Ribeiro Jr. São Paulo: Editora UNESP, 2010, 576p.
- MALHADAS, D. & CARVALHO, S.M.S. O Hino homérico a Demeter e os mistérios eleusinos. Cadernos de Ensaio e Literatura, São Paulo, n. 10, p. 66-99, 1970.
- J. Humbert, Homère / Hymnes. Paris: Les Belles Lettres, 1936.
- L.A. Machado Cabral, O Hino Homérico a Apolo. Cotia e Campinas: Ateliê e Ed. UNICAMP, 2004.
- F.R. Marquetti, Da sedução e outros perigos: o mito da deusa mãe. Araraquara: tese de Doutoramento, FCLAr-UNESP, 2001.
Ver também
Ligações externas
- «Perseus Digital Library: Homeric Hymns» (em inglês)
