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Guerras do Nano
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As Guerras do Nano foram uma sére de conflitos que envolveram Portugal e os reinos Ovimbundos da região ocidental do Planalto Central de Angola, de 1836 até à década de 1870.[1] Elas giraram sobretudo em torno do comércio caravaneiro.[2]
História
Visão geral
No séc. XIX, o interior de Moçâmedes atraiu as atenções das autoridades portuguesas devido ao seu comércio de marfim, cera e gado, entre outros artigos.[1] A fundação da cidade de Moçâmedes visou a extensão do controlo alfandegário português para sul de Benguela e a intensificação do comércio legal e eventual colonização do planalto de Huíla.[1] Em resposta às incursões inglesas a sul, os portugueses penetraram até ao Humbe, subjugando os povos nhaneca.[1] Porém as tentativas de ocupar militarmente os reinos da região dos Gambos e taxar as suas populações enfrentaram a resistência de alguns régulos africanos, como o soba Binga, que combateu a presença portuguesa no sul de Angola durante mais de duas décadas, escapando sempre à captura.[1]
As Guerras do Nano constituíram uma ameaça constante à segurança dos estabelecimentos portugueses fundados ao longo da costa de Benguela e Moçâmedes.[1] As razões que motivavam a deslocação de grandes números de guerreiros das terras altas até às costas durante a estação seca sejam hoje ainda pouco conhecidas mas teriam certamente sido provocadas pelos efeitos de crises demográficas e ecológicas, para além de eventuais disputas e rivalidades entre reinos africanos.[1] A capacidade dos reinos ambundos de mobilizar grandes números de guerreiros foi aproveitada por régulos aliados, bem como pelas autoridades portuguesas para proteger os seus povoados.[1]
Sucessão dos acontecimentos
O soba do Huambo devastou a região de Quilengues em 1836 e 1844.[1] A rivalidade entre os portugueses de Benguela e os de Moçâmedes parece ter despoletado conflitos envolvendo os reinos africanos do Nano.[1] A fundação de Moçâmedes desviou para esta cidade o comércio que antes subiam por Quilengues e Dombe Grande para Benguela, levando logo a conflitos entre os moradores portugueses destas regiões e o primeiro governador de Moçâmedes, João Francisco Garcia Moreira.[1] Desta forma, em 1848 uma hoste do Huambo dirigida contra o régulo de Huíla teria sido desviada pelos residentes de Quilengues e Dombe Grande para Moçâmedes, onde os portugueses detinham a fortaleza de São Fernando do Namibe desde 1840, saqueando as plantações agrícolas.[1]

Esta situação de instabilidade levou os reinos de Huíla e Humpata a assinarem com o governador de Moçâmedes tratados de vassalagem a Portugal, para assegurar o livre trânsito caravaneiro e a fixação pacífica nas suas terras de comerciantes portugueses.[1] Através de alianças com os sobas mais poderosos, alguns dos quais se declaravam vassalos da Coroa Portuguesa em troca de presentes e títulos, as autoridades portuguesas mobilizavam contra reinos hostis ou rebeldes as hostes de guerreiros africanos, denominadas guerras pretas.[1] Os governadores de Benguela mobilizaram estas hostes em seu proveito pelo menos uma vez por década entre 1840 e 1860, para punir os povos dos sertões de Seles e Hanha que se revoltavam ou atacavam as caravanas e as feitorias de Benguela-a-Velha, Novo Redondo, Quicombo e Egito.[1] Muitas vezes os aprisionamentos feitos pelos comerciantes destas feitorias a pretexto de dívida, roubos e outros crimes contribuíam para o deflagrar de conflito na região.[1] Se as "guerras do Nano" por um lado interrompiam a ligação com o interior, por outro dispersavam os salteadores e alimentavam o tráfico de escravos.[1] Em Novembro 1850, o soba Caxituca dos Gambos assinou um tratado com Portugal, passando a ser um reino vassalo e albergar um residente português.[3] Caxituca, porém, faleceu em Agosto de 1851 e foi sucedido pelo irmão, Muene-Guerengue, mas este pouco tempo se manteve no trono, pois foi rapidamente assassinado enquanto dormia por um irmão mais novo que lhe usurpou o trono, Binga.[3] O soba Binga também assassinou um sobrinho obrigando-o a beber uma bebida envenenada.[3] Em Abril de 1853, uma "guerra do Nano" assolou os Gambos e obrigou os portugueses ali residentes a retirarem-se para Bumbo, na estrada que ligava a Moçâmedes.[4]

Os planaltos de Humpata e Huíla foram particularmente flagelados pelas periódicas invasões partidas do sertão de Benguela.[1] As guerras do Nano perturbavam as populações africanas de Huíla, Bumbo, Jau e Gambos e em Janeiro de 1857 uma hoste do Nano atacou uma fazenda em Bumbo, que foi defendida pelo seu proprietário, José Leite de Vasconcelos juntamente com o seu pessoal, entre libertos e escravos, salvando-se o engenho mas não evitando que ficasse destruída parte da cultura da cana sacarina.[5] Em Novembro daquele ano foi atacada a feitoria de Huíla, dando-se o destroço da hoste africana pelas forças comandadas pelo capitão Francisco Godinhe de Cabral e Melo.[5]
Em 1858, uma grande hoste de guerreiros do Huambo, contabilizada em 12,000 huambos e 12,000 aliados comandados pelo soba de Galangue devastou os concelhos a sul de Benguela, assaltando as caravanas comerciais que para lá se dirigiam.[1]
Este estado de instabilidade levou o governo a não só organizar uma companhia de 1ª linha nos Gambos, que passaram à categoria de presídio, como a pensar na colonização militar da região.[5]
A 12 de Julho de 1858 deu-se um ataque à "Cacimba" perto de Moçâmedes, tendo o negociante Manuel de Almeida Soares fugido da área com mais 3 europeus e 60 carregadores, alguns dos quais foram mortos e outros fugido mas perdendo grande quantidade de fazendas.[5] Em Agosto, o governo decidiu ocupar militarmente os Gambos e evacuar de lá os europeus mas só em Março de 1859 é que o major Francisco Godinho Cabral e Melo consegue pacificar a região.[5]
Uma das piores destas invasões ocorreu em Março de 1860 quando cerca de 20,000 guerreiros comandados pelo soba de Huambo avançaram através da Huíla, Jau e Humpata, matando o capitão português da fortaleza de Huíla. A 3 de Março às 4 da tarde o major Rocha atacou com 50 soldados, alguns moradores e 100 africanos um dos acampamentos de guerra do soba de Huambo onde estavam cerca de 5000 guerreiros, morrendo o major Rocha e 7 soldados.[6] Os guerreiros desceram depois a Serra de Chela até aos arredores de Moçâmedes.[1] As plantações e as quintas dos pequenos agricultores ali radicados foram então destruídos.[1]
Cinco anos mais tarde, uma "guerra preta" ameaçou de novo Njau e passou depois para as regiões de Gambos e Corunjamba.[1] Neste ano, o morador negro José Manuel Ribeiro, de alcunha o Caluama, convocara uma "poderosa hoste gentílica" composta por uma coligação de diferentes grupos do planalto, liderada pelo soba de Quiaca.[1]
Mais a norte, o sertão de Seles foi devastado por uma hoste de guerreiros ainda na década de 1870, obrigando o exército a destacar para a região militares de Luanda, para proteger as povoações de Novo Redondo e Quicombo.[1]
Ver também
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 Joel Serrão, A. H. de Oliveira Marques: Nova História da Expansão Portuguesa (Volume X) O Império Africano (1825-1890), Editorial Estampa, 1998, pp. 421-426
- ↑ Maria do Rosário Martins, Fernando Florêncio: O Povo Ovimbundu. Angola. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2025, pp. 12-13.
- 1 2 3 Revista portugueza, colonial e maritima. Lisboa: [s.n.] 1898. p. 448. Consultado em 28 de fevereiro de 2026
- ↑ Revista portugueza, colonial e maritima. Lisboa: [s.n.] 1898. p. 449. Consultado em 28 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 5 Alfredo de Albuquerque Felner, Gastão Sousa Dias (1940). Angola. Apontamentos sôbre a Colonização dos Planaltos e Litoral do Sul de Angola, volume 1, Agência Geral das Colónias, 1940, pp. 39-40.
- ↑ Revista portugueza, colonial e maritima. Lisboa: [s.n.] 1898. 453 páginas. Consultado em 27 de fevereiro de 2026
