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Cometa rasante
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Um cometa rasante (também chamado cometa rasante solar ou cometa solar) é um cometa que passa extremamente próximo ao Sol durante o periélio — às vezes a apenas alguns milhares de quilômetros da superfície solar. Embora cometas rasantes pequenos possam evaporar completamente durante tal aproximação, os maiores podem sobreviver a múltiplas passagens pelo periélio. Contudo, as intensas forças de maré e o calor extremo a que são submetidos frequentemente levam à sua fragmentação.[1]
Os cometas rasantes foram alguns dos primeiros cometas observados pela humanidade, justamente por poderem atingir brilho extraordinário. Alguns são considerados grandes cometas. A proximidade extrema ao Sol não apenas aumenta a reflexão da luz solar pelo núcleo, mas também vaporiza grandes quantidades de gás, que refletem ainda mais luz — podendo torná-los visíveis a olho nu à luz do dia.[1] Como grupo, os cometas rasantes representam quase um terço de todos os cometas conhecidos: em outubro de 2017, havia 1.495 cometas catalogados com periélio dentro de ~12 raios solares (~0,055 UA).[2]
Definição e física
Brilho e composição
A passagem extremamente próxima ao Sol provoca um aumento dramático no brilho do cometa por dois mecanismos combinados: a maior proximidade eleva a reflexão direta da luz solar pelo núcleo, enquanto a intensa vaporização de gelo e compostos voláteis libera enormes quantidades de gás e poeira que formam a coma e a cauda, refletindo ainda mais luz.[1]
Estudos coronagráficos revelaram que cometas rasantes tendem a atingir o pico de brilho a distâncias de aproximadamente 12,3 ou 11,2 raios solares do Sol. Acredita-se que essa variação reflita diferenças na composição mineralógica da poeira: o pico a 12,3 raios solares corresponderia à sublimação de olivina amorfa, enquanto o pico a 11,2 raios solares resultaria da sublimação de olivina cristalina. Um terceiro pico menor, observado a cerca de 7 raios solares, pode ser atribuído à sublimação de piroxênio.[3]
O primeiro espectro de um cometa próximo ao Sol foi obtido por Finlay e Elkin em 1882, durante a passagem do Grande Cometa de 1882 (C/1882 R1). A análise posterior confirmou linhas espectrais de ferro (Fe) e níquel (Ni).[1] O Cometa Ikeya-Seki (C/1965 S1) permitiu medições ainda mais detalhadas, revelando emissões de potássio (K), cálcio (Ca), Ca⁺, crômio (Cr), cobalto (Co), manganês (Mn), níquel (Ni), cobre (Cu) e vanádio (V).[1]
Sobrevivência e fragmentação
A sobrevivência de um cometa rasante ao periélio depende principalmente do tamanho de seu núcleo. Estudos indicam que núcleos com raio superior a 2–3 km têm boa probabilidade de sobreviver à passagem, emergindo com raio final de aproximadamente 1 km. Núcleos menores tendem a evaporar completamente ou se fragmentar de forma irreversível.[1]
As forças de maré exercidas pelo Sol durante a passagem pelo periélio são capazes de separar fragmentos do núcleo principal. Observações do satélite SMM em 1987 e 1988 revelaram pela primeira vez a existência de pares de cometas rasantes que surgiam com diferença de horas a duas semanas entre si — resultado da separação de um mesmo corpo progenitor a dezenas de UA do Sol, com velocidades de separação de apenas alguns metros por segundo, compatíveis com a velocidade de rotação dos núcleos.[4]
As caudas de cometas rasantes que sobrevivem ao periélio — como o C/2011 W3 (Lovejoy) em 2011 — fornecem aos astrônomos informações valiosas sobre a estrutura da coroa solar, em particular sua estrutura magnética detalhada, ao interagirem visivelmente com o plasma coronal.[1]
História
Séculos XVII–XIX
Um dos primeiros cometas a ter sua órbita calculada foi o cometa rasante de 1680, hoje designado C/1680 V1, observado por Isaac Newton, que publicou os resultados orbitais em 1687. Em 1699, Jacques Cassini propôs que cometas poderiam ter períodos orbitais curtos e que C/1680 V1 seria o mesmo objeto observado por Tycho Brahe em 1577. Em 1705, Edmond Halley refutou essa hipótese ao demonstrar que a diferença entre as distâncias do periélio dos dois cometas era grande demais para se tratar do mesmo objeto — marcando, contudo, a primeira vez que se cogitou uma relação entre grandes cometas.[1]
Os grandes avanços na compreensão dos cometas rasantes ocorreram no século XIX com os grandes cometas de 1843, C/1880 C1 e 1882. O astrônomo americano Daniel Kirkwood observou que C/1880 C1 e C/1843 D1 tinham aparências muito semelhantes entre si e ao Grande Cometa de 1106, propondo em 1880 que seriam fragmentos separados de um mesmo objeto progenitor.[5] Kirkwood também levantou a hipótese de que o corpo progenitor poderia ser o cometa observado por Aristóteles e Éforo em 371 a.C., com base no relato de Éforo sobre a fragmentação do cometa após o periélio.[1]
Quando o Grande Cometa de 1882 (C/1882 R1) surgiu apenas dois anos após C/1880 C1, ficou claro que esses cometas brilhantes não eram retornos do mesmo objeto. Após o periélio, C/1882 R1 também se fragmentou em vários pedaços visíveis, reforçando a teoria de Kirkwood. O astrônomo alemão Heinrich Carl Friedrich Kreutz formalizou o grupo em estudos publicados no final do século XIX, determinando que todos os cometas rasantes com características orbitais semelhantes pertenciam a um mesmo grupo — posteriormente denominado grupo de Kreutz.[6]
Até a década de 1880, acreditava-se que todos os cometas brilhantes próximos ao Sol eram retornos de um único cometa rasante. Foi Heinrich Kreutz e Daniel Kirkwood quem estabeleceu que, em vez disso, cada aparição era um cometa diferente, todos pertencentes a um grupo originado de fragmentações sucessivas.[5]
Século XX: espectroscopia e coronagrafos
O primeiro cometa rasante observado no século XX surgiu em 1945. Entre 1960 e 1970, cinco cometas rasantes foram detectados: C/1961 O1, C/1962 C1 (Seki-Lines), C/1963 R1 (Pereyra), C/1965 S1 (Ikeya-Seki) e C/1970 K1. O Cometa Ikeya-Seki, com magnitude visual de aproximadamente −10, foi o mais brilhante do grupo e permitiu medições espectroscópicas detalhadas — o primeiro cometa desde o Grande Cometa de 1882 a exibir linhas de emissão de ferro.[1] Brian Marsden utilizou as observações do Ikeya-Seki para dividir os cometas Kreutz em dois subgrupos em 1967: um com C/1106 C1 como corpo progenitor e outro com dinâmica semelhante mas sem progenitor confirmado.[6]
Em 1979, o satélite norte-americano P78-1 (Solwind) detectou o primeiro cometa rasante por coronagrafia: C/1979 Q1 (Solwind), observado em 30 e 31 de agosto de 1979. Essa observação inaugurou uma nova era na detecção de cometas rasantes, até então visíveis apenas a olho nu.[1]
Era SOHO (1995–presente)
O lançamento do satélite solar SOHO em 1995 revolucionou o estudo dos cometas rasantes. O coronagrafo LASCO a bordo do SOHO permitiu detectar cometas muito menores e mais fracos do que qualquer instrumento anterior. A grande maioria dos cometas rasantes observados pelo SOHO não sobreviveu ao periélio: a maior parte simplesmente evaporou, enquanto alguns podem ter colidido com o Sol.[7]
Uma exceção notável foi o C/2011 W3 (Lovejoy), que sobreviveu à passagem pelo periélio em dezembro de 2011 a apenas ~140.000 km da fotosfera solar, tornando-se o primeiro cometa Kreutz em décadas a sobreviver ao periélio e sendo amplamente fotografado tanto do espaço quanto da Terra.
Cerca de 83% dos cometas rasantes observados pelo SOHO pertencem ao grupo de Kreutz. Os 17% restantes incluem cometas esporádicos e membros de três outros grupos identificados: Marsden, Kracht e Meyer.[1]
Grupos de cometas rasantes
Grupo Kreutz
O grupo de Kreutz é o maior e mais famoso conjunto de cometas rasantes, com mais de 1.200 membros identificados pelo SOHO. Todos os membros compartilham elementos orbitais semelhantes — alta inclinação, periélio muito próximo ao Sol e órbita retrógrada — sugerindo uma origem comum em um único corpo progenitor que se fragmentou em passagens anteriores pelo periélio. Entre os membros mais brilhantes estão os grandes cometas de 1843 e 1882, o Cometa Ikeya-Seki (1965) e o C/2011 W3 (Lovejoy) (2011), cada um deles brevemente visível à luz do dia próximo ao Sol.[6][8]
Grupo Marsden
O grupo Marsden é composto por cometas de período curto (aproximadamente 5 anos) descobertos principalmente pelo SOHO. Seus membros apresentam elementos orbitais relacionados ao cometa 96P/Machholz e foram associados a correntes de meteoros, incluindo as Ariétidas diurnas e as Delta Aquáridas.[9]
Grupo Kracht
O grupo Kracht, descoberto por Rainer Kracht, também apresenta período orbital curto (~5 anos) e está igualmente associado ao 96P/Machholz e às mesmas correntes de meteoros do grupo Marsden, sugerindo uma origem comum.[9] Os membros do grupo Kracht são tipicamente pequenos e fracos, raramente sobrevivendo ao periélio.
Grupo Meyer
O grupo Meyer é composto por cometas tipicamente pequenos, fracos e sem cauda visível. Ao contrário dos grupos Marsden e Kracht, os membros do Meyer podem ter órbitas de período intermediário ou longo. Sua relação dinâmica com outros grupos ou com um progenitor comum não está ainda completamente estabelecida.[1]
Cometas esporádicos
Alguns cometas rasantes notáveis não pertencem a nenhum dos grupos formais. O Grande Cometa de 1680 (C/1680 V1), por exemplo, foi um cometa rasante utilizado por Isaac Newton para verificar as equações de Kepler sobre o movimento orbital, mas não compartilha elementos orbitais com os grupos conhecidos. O cometa C/2012 S1 (ISON), que se desintegrou pouco antes do periélio em 2013, apresentava elementos orbitais semelhantes ao Grande Cometa de 1680, sendo possivelmente um segundo membro desse grupo informal.[1]
Importância científica
Os cometas rasantes oferecem duas contribuições científicas principais. Primeiro, ao passar tão próximos ao Sol, são submetidos a condições extremas que expõem a composição interna do núcleo — camadas que de outra forma permaneceriam inacessíveis. A análise espectroscópica de sua desgaseificação revela a composição química primordial dos planetesimais do Sistema Solar primitivo.[1]
Segundo, as caudas dos cometas rasantes que sobrevivem ao periélio interagem com o plasma da coroa solar, funcionando como sondas naturais da estrutura magnética coronal. O comportamento da cauda do Lovejoy em 2011, por exemplo, revelou detalhes da estrutura magnética da baixa coroa solar que seriam difíceis de obter por outros meios.[1]
Estudos indicam ainda que cometas de alta inclinação orbital com periélio inferior a ~2 UA podem, ao longo de muitas órbitas, ter sua distância perielial reduzida progressivamente por perturbações gravitacionais cumulativas até se tornarem cometas rasantes. O Cometa Hale-Bopp, por exemplo, tem aproximadamente 15% de probabilidade de eventualmente se tornar um cometa rasante.[10]
Ver também
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Marsden, Brian G. (2005). «Sungrazing Comets». Annual Review of Astronomy and Astrophysics. 43 (1): 75–102. Bibcode:2005ARA&A..43...75M. doi:10.1146/annurev.astro.43.072103.150554
- ↑ «JPL Small-Body Database Search Engine». Jet Propulsion Laboratory. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Kimura, H. (2002). «Dust Grains in the Comae and Tails of Sungrazing Comets: Modeling of Their Mineralogical and Morphological Properties». Icarus. 159 (2): 529–541. Bibcode:2002Icar..159..529K. doi:10.1006/icar.2002.6940
- ↑ Sekanina, Zdeněk (2000). «Secondary Fragmentation of the Solar and Heliospheric Observatory Sungrazing Comets at Very Large Heliocentric Distance». The Astrophysical Journal. 542 (2): L147–L150. Bibcode:2000ApJ...542L.147S. doi:10.1086/312943
- 1 2 Kirkwood, Daniel (1880). «On the great southern comet of 1880». The Observatory. 3: 590–592. Bibcode:1880Obs.....3..590K
- 1 2 3 Marsden, B. G. (1967). «The Sungrazing Comet Group». The Astronomical Journal. 72. 1170 páginas. Bibcode:1967AJ.....72.1170M. doi:10.1086/110396
- ↑ Sekanina, Zdeněk; Chodas, Paul W. (2007). «Fragmentation Hierarchy of Bright Sungrazing Comets and the Birth and Orbital Evolution of the Kreutz System. II. The Case for Cascading Fragmentation». The Astrophysical Journal. 663 (1): 657–676. Bibcode:2007ApJ...663..657S. doi:10.1086/517490
- ↑ Marsden, B. G. (1989). «The Sungrazing Comet Group II». The Astronomical Journal. 98. 2306 páginas. Bibcode:1989AJ.....98.2306M. doi:10.1086/115301
- 1 2 Ohtsuka, K.; Nakano, S.; Yoshikawa, M. (2003). «On the Association among Periodic Comet 96P/Machholz, Arietids, the Marsden Comet Group, and the Kracht Comet Group». Publications of the Astronomical Society of Japan. 55: 321–324. Bibcode:2003PASJ...55..321O. doi:10.1093/pasj/55.1.321
- ↑ Bailey, M. E.; Emelyanenko, V. V.; Hahn, G.; Harris, N. W. (1996). «Orbital evolution of Comet 1995 O1 Hale-Bopp». Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. 281 (3): 916–924. Bibcode:1996MNRAS.281..916B. doi:10.1093/mnras/281.3.916
Ligações externas
- «JPL Small-Body Database – Cometas rasantes» (em inglês)
- «Sungrazer comets – European Space Agency» (em inglês)
