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Clarice Lispector
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| Clarice Lispector (em ucraniano: Хая Пінкасiвна Ліспектор; romaniz.: Chaya Pinkhasivna Lispector)[1] | |
|---|---|
| Nome completo | Chaya Pinkhasivna Lispector |
| Pseudônimo(s) |
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| Outros nomes | Clarice Lispector (nome brasileiro) |
| Nascimento | |
| Morte | |
| Causa da morte | câncer de ovário |
| Residência |
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| Nacionalidade |
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| Etnia | judaica (asquenaz russa) |
| Cônjuge | Maury Gurgel Valente (c. 1943; div. 1959) |
| Filho(a)(s) | 2 |
| Educação |
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| Ocupação | |
| Prêmios |
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| Gênero literário | |
| Magnum opus | |
| Religião | judaísmo |
| Website | claricelispector |
| Assinatura | |
Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasivna Lispector (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 – Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977[2]), foi uma escritora e jornalista de origem ucraniana-judaica (asquenazita). Radicada no Brasil desde a primeira infância, naturalizou-se brasileira em 1943.[3] Autora de romances, contos e ensaios, é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX.[4][5] Sua obra está repleta de cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, reputando-se como uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano. Quanto às suas identidades nacional e regional, declarava-se brasileira e pernambucana.[6][7]
Nasceu na vila ucraniana de Chechelnyk, numa família judaica-ucraniana que perdeu suas rendas com a Guerra Civil Russa e se viu obrigada a emigrar em decorrência da perseguição a judeus, que, à época, resultou em diversos extermínios em massa. A futura escritora chegou ao Brasil, ainda pequena, em 1922, com seus pais e suas duas irmãs.[nota 1] Clarice dizia não ter nenhuma ligação com a Ucrânia — "Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo" — e que sua verdadeira pátria era o Brasil. Inicialmente, a família passou um breve período em Maceió, até se mudar para o Recife, onde Clarice cresceu e onde, aos oito anos, perdeu a mãe.[8][9][10] Aos quatorze anos de idade, transferiu-se com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, na Tijuca, na Rua Mariz e Barros, 241, local onde a família se estabilizou e onde o seu pai viria a falecer, em 1940.[11][12]
Estudou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, conhecida como Universidade do Brasil, apesar de, na época, ter demonstrado mais interesse pelo meio literário, no qual ingressou precocemente como tradutora, logo se consagrando como escritora, jornalista, filósofa, contista e ensaísta, tornando-se uma das figuras mais influentes da Literatura brasileira e do Modernismo, sendo considerada uma das principais influências da nova geração de escritores brasileiros. É incluída pela crítica especializada entre os principais autores brasileiros do século XX.
Suas principais obras marcam cada período de sua carreira. Perto do Coração Selvagem foi seu livro de estreia, publicado quando Clarice tinha 24 anos de idade; Laços de Família, A Paixão segundo G.H., A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida são seus últimos livros publicados. Morreu em 1977, um dia antes de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário. Deixou dois filhos e uma vasta obra literária composta de romances, novelas, contos, crônicas, literatura infantil e entrevistas.[13]
Juventude
Nascimento

Registrada como Chaya Pinkhasivna Lispector (em ucraniano: Хая Пінкасiвна Ліспектор; romaniz.: Chaya Pinkhasivna Lispector)[14] Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 na aldeia de Chechelnyk, região da Podólia, então parte da República Popular da Ucrânia e hoje parte da moderna Ucrânia. Filha dos judeus russos Pinkhas Lispector e Mania Lispector (nascida Krimgold), seu nascimento se deu em meio aos preparativos da família para a fuga do país, em razão do antissemitismo resultante da Guerra Civil Russa no século XX (1918–1920).[15] Pinkhas Lispector era um comerciante, filho do religioso Shmuel Lispector e da burguesa Heived.[16] Pinkhas e Mania se casaram no ano novo de 1889, por determinação dos pais.[17] Do casamento nasceriam três filhas: Leah, em 1911;[18] Tania, em 1915;[19] e Chaya (ou Haia), em 1920.[20]
A possibilidade de emigração foi inicialmente considerada por Mania Lispector e seus familiares, parte dos quais já havia deixado a região para trabalhar em organizações judaicas na América do Sul.[21] Pinkhas, no entanto, só concordou com a saída da família diante do agravamento dos pogroms no fim da década de 1910. Por volta de 1918, empobrecida, a família mudou-se para Haisyn, na Podólia (atual Oblast de Vinítsia), local que também foi palco de episódios violentos contra populações judaicas. Especulou-se que, durante um desses pogroms, por volta de 1919, Mania teria sido estuprada por um grupo de soldados, o que lhe teria transmitido sífilis. Não há, porém, confirmação dessa hipótese por parte de parentes ou amigos próximos da escritora.[nota 2][22][23][24] Sobre a condição de Mania, a biógrafa Nádia Batella Gotlib, ao organizar o livro póstumo de Elisa Lispector (ou como era conhecida na época, Leah), Retratos antigos (2012), registra que há indícios de que ela sofria de hemiplegia, isto é, paralisia parcial de um dos lados do corpo decorrente de traumas relacionados à violência de grupos armados atuantes na região durante os pogroms. Essa limitação teria se manifestado ainda na viagem para o exílio e se agravado progressivamente, levando-a, já em Recife, a depender permanentemente de uma cadeira de rodas. Elisa Lispector menciona também que a mãe apresentava tremores compatíveis com o mal de Parkinson.[25]
A proibição da emigração de judeus fez com que os Lispector buscassem meios ilegais em uma primeira tentativa falha, fazendo com que se mudassem para uma aldeia mais próxima das fronteiras, Chechelnyk. No inverno de 1921, eles conseguiram deixar a Ucrânia após alcançarem o rio Dniestre, pelo qual foram levados à cidade de Soroca, então pertencente à Romênia e hoje à República da Moldávia.[26] Lá viveram em um albergue e Mania foi internada em um hospital de caridade. Planejaram a fuga da Europa, com o intento de emigrar para o Brasil ou para os Estados Unidos, opção que acabou sendo inviável devido à aprovação do Emergency Quota Act, que dificultava a imigração de pessoas provenientes do Leste Europeu.
Em 27 de janeiro de 1922, o consulado russo em Bucareste, na Romênia, concedeu à família passaportes válidos para a emigrarem ao Brasil,[27] em uma viagem que passou por Budapeste, Praga, na República Checa, e Hamburgo, na Alemanha. Nesta última cidade, embarcaram no navio brasileiro Cuyabá, que os levou em condições precárias à Maceió, onde a irmã de Mania, Zicela, e seu marido, Joseph (ou José) Rabin os esperavam.[28][29] No Brasil, os nomes russos foram substituídos por nomes onomásticos da língua portuguesa, com exceção de Tania — Pinkhas passou a ser Pedro; Mania transformou-se em Marieta; Leah virou Elisa; Chaya virou Clarice.[30]
Infância

Em Maceió, Alagoas, a família continuou vivendo em condições precárias e enfrentou dificuldades econômicas e também por causa do choque cultural. Para sustentar a família, Pedro tornou-se um pequeno mascate, comprando roupas velhas e usadas em áreas carentes para revendê-las aos comerciantes da cidade,[31] e também dando algumas aulas particulares de língua hebraica para filhos de alguns vizinhos, além de vender cortes de linho. A situação melhorou somente quando Pedro, ao lado de José, passou a fabricar sabão, como fazia na Ucrânia.[32]
Em 1924, aos quatro anos de idade, Clarice ingressou no jardim de infância. Em 1925, após três anos morando em Maceió, mudou-se para Recife com sua mãe e irmãs pouco depois de seu pai, possivelmente em consequência dos conflitos familiares e do desejo de Pedro de melhorar as condições da família mudando-se para um centro econômico com uma população judaica mais expressiva, fixando-se no bairro Boa Vista.[carece de fontes] O pai trabalhava como mercador ambulante, vendendo roupas a prestação pelos bairros mais afastados da cidade.[33]
Em 1928, aos sete anos, aprendeu a ler e a escrever. Em 1930, pouco depois, escreveu, inspirada por uma peça que havia visto, sua primeira peça teatral, Pobre menina rica, com três atos, e cujas páginas foram perdidas.[34] Em 1931, enviou contos para a página infantil do Diário de Pernambuco, mas o jornal não publicou seus textos porque “os outros diziam assim: ‘Era uma vez, e isso e aquilo...’. E os meus eram sensações. ... Eram contos sem fadas, sem piratas. Então ninguém queria publicar”.[35][36]
Por volta dessa época, mudaram-se para a rua Imperatriz Tereza Cristina. Em 1930, na terceira série, Clarice ingressou no Colégio Hebreu-Iídiche-Brasileiro, onde aprendeu hebraico e iídiche. O estado de Marieta agravou-se e Clarice escreveu contos e peças para tentar diverti-la.[37]
Adolescência

Em 1932, aos doze anos, Clarice foi aprovada, ao lado da irmã Tania e da prima Bertha, no Ginásio Pernambucano.[38] Em 1933, decidiu tornar-se escritora quando “[tomou] posse da vontade de escrever ... [viu-se] de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse [ajudá-la]”.[39] Em sua última entrevista em vida, disse a respeito de sua formação literária: “Misturei tudo. Eu lia romance para mocinhas, livro cor-de-rosa, misturado com Dostoiévski. Eu escolhia os livros pelos títulos e não pelos autores. Misturei tudo. Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse, O Lobo da Estepe, e foi um choque. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora”.[34][40][41] A família mudou-se para uma casa própria na avenida Conde da Boa Vista.
Em 7 de janeiro de 1935, com 14 anos, viajando no navio inglês Highland Monarch, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde seu pai esperava dar prosseguimento aos avanços de seu negócio e conseguir bons maridos para suas filhas nos círculos judaicos cariocas.[42] Elisa, entretanto, ficou ainda alguns meses trabalhando em Recife, indo para o Rio de Janeiro um pouco mais tarde e prestando concurso para o Ministério do Trabalho. Apesar de ter conquistado as melhores notas, não haviam vagas; ela ingressou no cargo graças à amizade da família com o político Agamenon Magalhães, então ministro do Trabalho e anteriormente professor de Geografia de Clarice e Tania.[43] Em 1938, Tania também tornou-se funcionária pública.[44]
Educação
Direito

Em 1939, morando na rua Lúcio de Mendonça, no bairro do Maracanã, ela ingressou no curso superior na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que trabalhava como secretária em um escritório de advocacia e em um laboratório, além de já estar fazendo traduções de textos científicos para revistas. Em 1940, aos dezenove anos, seu interesse por direito havia diminuído ao passo que aumentara sua atenção à literatura, de modo em que publicou, em 25 de maio, seu primeiro conto conhecido, Triunfo, na revista Pan, no qual descreve os pensamentos de uma mulher abandonada por seu companheiro. A posição política da revista de apoio aos regimes ditatoriais, que era semelhante às de outras revistas desse período, todas censuradas, não foi levada em conta por Clarice ao publicar o conto.[45]
Insatisfeita com o trabalho de escritório, ela buscou entrar na área do jornalismo, apesar das dificuldades levantadas às mulheres. De acordo com o que diria anos mais tarde em uma entrevista, passou a andar pelas redações de revistas oferecendo seus contos, até que provavelmente um dia chegou à redação da revista Vamos Ler!, direcionada ao público masculino de classe alta. A imprensa na época era estritamente censurada pelo governo de Getúlio Vargas e estava sob o domínio do órgão recém-criado do Departamento de Imprensa e Propaganda, que permitia a circulação de determinados periódicos, como a Vamos Ler!, em cuja redação Clarice mostrou seus textos ao jornalista Raimundo Magalhães Júnior, secretário do ministro de Propaganda, Lourival Fontes.
Eu sou tímida e ousada ao mesmo tempo. Chegava lá nas revistas e dizia: “Eu tenho um conto, você não quer publicar?”. Aí me lembro que uma vez foi o Raymundo Magalhães Jr. que olhou, leu um pedaço, olhou para mim e disse: “Você copiou isto de quem?”. Eu disse: “De ninguém, é meu”. Ele disse: “Então vou publicar”.[34]
Jornalismo
O primeiro texto publicado na revista foi provavelmente Eu e Jimmy, em 10 de outubro de 1940, um conto com temática feminista centrado na relação amorosa entre um homem e uma mulher. Depois disso, de acordo com Tania, Clarice procurou contatar fontes para conseguir entrar definitivamente na imprensa.[45] Apesar das dificuldades para entrar na área, na qual, de acordo com Tania, “você não fazia nada se não tivesse relações”, Clarice buscou contato com fontes que “gostaram dela e a contratou” para trabalhar como tradutora na Agência Nacional, uma agência de notícias do governo. Como não havia vaga para tradutor, foi designada como editora e repórter, a única mulher ali que ocupava tal cargo.[44]
Na equipe da Agência Nacional, conheceu Lúcio Cardoso, um escritor e jornalista mineiro então com 26 anos, já respeitado no meio literário. Desenvolveu uma forte amizade por ele, que compartilhava dos mesmos gostos literários que ela, e chegou a desenvolver uma paixão não correspondida, pois Cardoso era homossexual.[46][47] A amizade com Cardoso e com o restante da equipe abriu-lhe novas possibilidades profissionais e literárias, que fizeram com que ela passasse então a escrever e publicar em abundância.
Em 19 de janeiro, publicou o artigo Onde se ensinará a ser feliz no periódico paulista Diário do Povo, sobre um evento presidido pela primeira-dama Darcy Vargas.[48] Em 9 de agosto, o conto Trecho, sobre a espera de uma mulher por seu companheiro em um bar no dia 30, sai pela Vamos Ler!; Cartas a Hermengardo, uma trilogia de textos destinados ao público jovem da classe alta, versando sobre uma mulher que aconselha um homem a ouvir seus instintos, sai no semanário Dom Casmurro.[49][50]
No mesmo ano também escreveu outros contos que seriam publicados somente na coletânea póstuma A Bela e a Fera (1979): em setembro, Gertrudes Pede um Conselho; em outubro, seu conto de juventude mais longo, Obsessão,[51] cujo protagonista, Daniel, reapareceria em seu segundo romance, O Lustre (1946), anos mais tarde. O personagem era baseado em Cardoso, um homem pelo qual a narradora apaixona-se e que a guia; e em dezembro, Mais Dois Bêbados.[49] Também dá partida a novos projetos na universidade, ainda objetivando o sistema penitenciário, através da colaboração com a revista universitária A Época, onde publicou os ensaios Observações sobre o Fundamento do Direito de Punir, em agosto, e Deve a Mulher Trabalhar?, em setembro.[49]
O primeiro ensaio chamou a atenção de estudiosos posteriores por dizer que “O homem é punido pelo seu crime porque o Estado é mais forte que ele, a Guerra ... não é punida porque se acima dum homem há os homens, acima dos homens nada mais há”, o que foi interpretado tanto como uma justificativa filosófica e maquiavélica para a ditadura e o nazismo, quanto como um eco de um ateísmo nascente de Clarice.[52] Depois desse afastamento, no entanto, passou a aproximar-se novamente da religião judaica através de leituras de Franz Kafka e de Baruch de Espinoza, também judeus.[53]
Carreira literária
Perto do Coração Selvagem

Por intermédio de Cardoso, passou a frequentar um grupo de amigos que se encontrava no bar Recreio, na Cinelândia, e era composto por literatos como Vinicius de Moraes, Cornélio Penna, Rachel de Queiroz e Otávio de Faria. Através da Agência Nacional também conheceu o poeta Augusto Frederico Schmidt, que foi entrevistado por ela a respeito de fibras industriais, mas que, frente à admiração que Clarice expressou por sua poesia, desenvolveram uma amizade que duraria pelo resto de sua vida.[54]
Os textos escritos para a Agência Nacional nessa época seguem a linha editorial feita para agradar a censura do regime de Vargas, resumindo-se a entrevistas com coronéis e generais estrangeiros de passagem pelo Brasil e de coberturas de inaugurações de locais ligados ao governo.[55][56]
Em fevereiro de 1942, transferiu-se para a redação do jornal A Noite, cuja redação era dividida com a Vamos Ler! e, assim como esta, era uma extensão do órgão governamental para o qual a Agência Nacional também trabalhava. Em 2 de março, ganhou seu primeiro registro profissional.[49]
Em março, começou a planejar seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, concluído em novembro e constituído basicamente de rascunhos e escritos separados, unidos em um livro por sugestão de Lúcio Cardoso, que também sugeriu um título, "Perto do Coração Selvagem", retirado de uma passagem do livro Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, cujas técnicas, para Cardoso, remetiam às de Clarice.[nota 3] O crítico Álvaro Lins classificou Perto do Coração Selvagem como "[o primeiro romance brasileiro] dentro do espírito e da técnica de Joyce e Virginia Woolf".[57] Em 1944, Perto do Coração Selvagem ganhou o Prêmio Graça Aranha de melhor romance do ano.[58]
O Lustre

Em novembro de 1944, O Lustre foi concluído em Nápoles, escrito de forma linear, ao contrário do anterior.[59][60]
Em 23 de novembro de 1945, Manuel Bandeira enviou uma carta pedindo o segundo romance e alguns poemas para publicação em antologia. Em resposta à leitura desses poemas, Bandeira enviou uma carta criticando fortemente a poesia de Clarice, o que fez com que ela queimasse todos os poemas que havia escrito. Mais tarde, Bandeira lamentaria ter feito aquele comentário, dizendo: “Você é poeta, Clarice querida. Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal as minhas palavras [...] Faça versos, Clarice, e se lembre de mim”.[61]

No início de 1946, O Lustre foi publicado.[62] Clarice foi enviada como correio diplomático do Ministério das Relações Exteriores ao Rio de Janeiro entre janeiro e março, em uma rápida visita, durante a qual conheceu novos amigos que marcariam sua vida. Entre outras pessoas, conheceu Bluma Chafir Wainer, esposa do jornalista Samuel Wainer, além de Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, com quem Clarice teria um romance após separar-se do marido.[47]
Vida pessoal
Família

Em 1941, Clarice já trocava cartas com Maury Gurgel Valente, seu colega na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil.[63] No ano seguinte, ele formalizou o pedido de namoro por meio de um bilhete.[64] Casaram-se em 23 de janeiro de 1943; na mesma semana, em 12 de janeiro, ela havia obtido a naturalização brasileira.[65] Após o matrimônio, Clarice passou a assinar "Clarice Gurgel Valente"[66] e, em julho de 1944, partiu para a Itália, onde o marido a esperava em seu primeiro posto diplomático, em Nápoles.[67] No fim do ano de 1946, frequentou o terapeuta Ulysses Girsoler. Ela e Maury passaram o réveillon na França, com o casal Wainer, a convite de Bluma.[68] Em 10 de agosto de 1948, nasceu o seu primeiro filho, Pedro Lispector Valente, em Berna, Suíça.[65] Em 10 de fevereiro de 1953, nasceu Paulo Gurgel Valente, o segundo filho de Clarice e Maury, em Washington, D.C., nos Estados Unidos.[69]
Quando criança, seu filho mais velho, Pedro, se destacava por sua facilidade de aprendizado e bom comportamento, porém, na adolescência, sua falta de atenção nos estudos e extrema ansiedade acompanhada de agitação consigo mesmo e com a família, o levou a ser diagnosticado com esquizofrenia. Clarice se sentia culpada, sem saber o porquê, pelo transtorno psiquiátrico do filho, e teve dificuldades para lidar com a situação, recorrendo a psicólogos, psiquiatras e internações, pois o menino era muito agressivo.[70]
Em 1959, Clarice separou-se do marido e retornou definitivamente ao Rio de Janeiro com os dois filhos, fixando residência no bairro do Leme.[71] A separação ocorreu em um contexto de incompatibilidade entre as viagens diplomáticas do marido e o desejo da escritora de estabelecer-se para cuidar da carreira literária e da saúde do seu filho Pedro.[72]
Últimos anos
Laços de família
No Brasil, Lispector enfrentou dificuldades financeiras e tentou encontrar uma editora para o romance que havia concluído em Washington, D.C. vários anos antes, bem como para seu livro de contos, Laços de família. A obra reunia os seis contos de Alguns contos e mais sete inéditos, alguns dos quais já haviam sido publicados na revista Senhor. Foi lançada em 1960. Fernando Sabino, amigo da autora, escreveu-lhe que o livro era "exato, sincero, indiscutível e até humildemente o melhor livro de contos já publicado no Brasil".[73] E Érico Veríssimo declarou: "Não escrevi sobre seu livro de contos por puro constrangimento de lhe dizer o que penso dele. Vamos lá: a mais importante coletânea de contos publicada neste país desde Machado de Assis".[74]
A Maçã no Escuro
A Maçã no Escuro, que Lispector começara em Torquay, foi concluído em 1956, mas repetidamente rejeitado por editoras, para desespero da autora. Seu romance mais longo e talvez o mais complexo, foi finalmente publicado em 1961 pela mesma editora que lançara Laços de família, a Livraria Francisco Alves, em São Paulo. Movido mais pelo diálogo interior do que pelo enredo, seu suposto tema é um homem chamado Martim, que acredita ter matado a esposa e foge fundo para o interior do Brasil, onde encontra trabalho como trabalhador rural. As verdadeiras preocupações desse romance altamente alegórico são a linguagem e a criação. Em 1962, a obra recebeu o Prêmio Carmen Dolores Barbosa de melhor romance do ano anterior. Por essa época, Clarice iniciou um relacionamento com o poeta Paulo Mendes Campos, um velho amigo. Mendes Campos era casado, e a relação não perdurou.[75]
A Paixão segundo G.H. e A Legião Estrangeira
Em 1964, Lispector publicou um de seus livros mais impactantes e famosos, A Paixão segundo G.H., que narra a história de uma mulher que, no quarto de empregada de sua confortável cobertura carioca, passa por uma experiência mística que a leva a comer parte de uma barata. No mesmo ano, publicou outro livro de contos e miscelâneas, A Legião Estrangeira.[carece de fontes]
O tradutor norte-americano Gregory Rabassa, que conheceu Lispector em meados da década de 1960, durante uma conferência sobre literatura brasileira no Texas, recordou ter ficado "estupefato ao conhecer aquela pessoa rara [Lispector] que se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf".[76]
Em 14 de setembro de 1966, Lispector sofreu um grave acidente em seu apartamento. Após tomar um comprimido para dormir, adormeceu na cama com um cigarro aceso. Ficou gravemente ferida, e sua mão direita quase teve de ser amputada.
O incêndio que sofri há algum tempo destruiu em parte minha mão direita. Minhas pernas ficaram marcadas para sempre. O que aconteceu foi muito triste, e prefiro não pensar nisso. Tudo o que posso dizer é que passei três dias no inferno, para onde — segundo dizem — vão as pessoas más depois da morte. Não me considero má, e vivi isso ainda em vida.[77]
No ano seguinte, Lispector publicou seu primeiro livro infantil, O Mistério do coelho pensante (1967), uma tradução de uma história que havia escrito em Washington, D.C, em inglês, para seu filho Paulo. Em agosto de 1967, começou a escrever uma coluna semanal ("crônica") para o Jornal do Brasil, um importante periódico carioca, o que ampliou consideravelmente sua fama para além dos círculos intelectuais e artísticos que há muito a admiravam. Esses textos foram posteriormente reunidos na obra póstuma A Descoberta do mundo (1984).
A Mulher que matou os peixes e Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
Em 1968, Lispector participou das manifestações políticas contra o endurecimento da ditadura militar brasileira e publicou dois livros: seu segundo trabalho infantil, A Mulher que Matou os Peixes, em que a narradora, Clarice, confessa ter esquecido de alimentar o peixe do filho, e Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
Seu primeiro romance desde A Paixão segundo G.H., Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres era uma história de amor entre uma professora primária, Lóri, e um professor de filosofia, Ulisses. O livro se baseou em seus escritos nas colunas de seu jornal, assim como de entrevistas que realizava para a sofisticada revista Manchete. A obra recebeu uma nova tradução em abril de 2021 pela New Directions. A Cleveland Review of Books o definiu como "um romance sobre a distância entre as pessoas, mas também sobre as distâncias entre o eu e o eu, entre o eu e 'o Deus'".[78]
Felicidade clandestina e Água Viva
Em 1971, Lispector publicou outro livro de contos, Felicidade Clandestina, vários dos quais remetiam a memórias de sua infância em Recife. Ela começou a trabalhar no livro que muitos considerariam sua obra-prima, Água Viva, embora tenha enfrentado dificuldades para concluí-lo. Olga Borelli, uma ex-freira que entrou em sua vida por essa época e se tornou sua fiel assistente e amiga, recordou:
Franco Júnior, Arnaldo. \"Clarice, segundo Olga Borelli\", ''Minas Gerais Suplemento Literário'', December 19, 1987, pp. 8-9.</ref>"}},"i":0}}]}' id="mwAwE"/>Ela estava insegura e pedia a opinião de algumas pessoas. Com outros livros, Clarice não demonstrava essa insegurança. Com Água viva, sim. Foi a única vez em que a vi hesitar antes de entregar um livro ao editor. Ela mesma dizia isso.[79]
Quando o livro saiu, em 1973, foi imediatamente aclamado como uma obra-prima. "Com esta ficção", escreveu um crítico, "Clarice Lispector desperta a literatura que ora se produz no Brasil de um letargo deprimente e degradante e a eleva a um nível de perenidade e perfeição universais".[80] O livro é um monólogo interior, com uma narradora em primeira pessoa sem nome que se dirige a um "você" também inominado, e já foi descrito como dotado de uma qualidade musical, com o retorno frequente de certas passagens.[81] Água viva foi traduzido pela primeira vez para o inglês em 1978 como The Stream of Life, com uma nova tradução de Stefan Tobler publicada em 2012.[81]
Onde estivestes de noite e A via crucis do corpo
Em 1974, Lispector publicou dois livros de contos: Onde estivestes de noite — que foca em parte na vida de mulheres idosas — e A via crucis do corpo. Embora seus livros anteriores muitas vezes tivessem levado anos para serem concluídos, este último foi escrito em apenas três dias, depois que seu editor, Álvaro Pacheco, a desafiou a escrever histórias sobre temas ligados ao sexo. Parte da razão pela qual ela escreveu tanto pode ter a ver com o fato de ter sido inesperadamente demitida do Jornal do Brasil no final de 1973, o que aumentou sua pressão financeira. Ela começou a pintar e intensificou sua atividade como tradutora, publicando traduções de Agatha Christie, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe.
Em 1975, foi convidada para o Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria em Bogotá, evento que atraiu ampla cobertura da imprensa e aumentou sua notoriedade. No congresso, seu conto "O Ovo e a Galinha", publicado originalmente em A Legião Estrangeira, foi lido em inglês.
Isa Cambará, \"Clarice Lispector--Não escrevo para agradar a ninguém,\" ''Folha de S.Paulo'', September 10, 1975.</ref>"}},"i":0}}]}' id="mwAyQ"/>"O Ovo e a Galinha" é misterioso e de fato tem um quê de ocultismo. É uma história difícil e profunda. Por isso acho que a plateia, tão diversa, teria ficado mais feliz se eu tivesse tirado um coelho da cartola. Ou entrado em transe. Veja bem, nunca fiz nada disso na vida. Minha inspiração não vem do sobrenatural, mas da elaboração inconsciente, que emerge à tona como uma espécie de revelação. Além disso, não escrevo para agradar a ninguém.[82]
Um sopro de vida: pulsações e A Hora da Estrela
Lispector trabalhou em Um sopro de vida: pulsações, que seria publicado postumamente em meados da década de 1970. A obra consiste em um diálogo entre um "Autor" e sua criação, uma personagem cujo nome foi emprestado de um conto de Onde Estivestes de Noite.
Em um ensaio de 2025 intitulado "Escribir para no morir", o escritor peruano Gunter Silva Passuni descreve o livro póstumo de Lispector, A Breath of Life, não como um romance convencional nem como um diário, mas como um texto montado a partir de fragmentos, no qual a escrita é encarada como uma forma de "continuar respirando" enquanto se enfrentava a morte. Ele observa que o livro é estruturado como um diálogo entre duas vozes — o Autor e Ângela Pralini — cujas trocas encenam uma tensão entre razão e intuição, controle reflexivo e entrega intuitiva, perguntando repetidamente quem fala quando se escreve e o que resta do eu no limite da vida. Silva caracteriza ainda a prosa como um "estado de consciência" anterior à linguagem, onde pensar e sentir já não se distinguem.[83]
O último romance de Lispector, A Hora da Estrela (1977), também foi escrito de forma fragmentária recompondo a história, com a ajuda de Olga Borelli, a partir de notas rabiscadas em pedaços soltos de papel.[84] A Hora da Estrela conta a história de Macabéa, uma das personagens icônicas da literatura brasileira — uma datilógrafa faminta e pobre, vinda de Alagoas, o estado onde a família de Lispector chegou pela primeira vez, e que se perde na metrópole do Rio de Janeiro. O nome de Macabéa remete aos Macabeus e constitui uma das pouquíssimas referências abertamente judaicas na obra de Lispector. Seu enfoque explícito na pobreza e na marginalidade brasileiras também era inédito.[carece de fontes]
Morte

Pouco tempo depois da publicação do romance A Hora da Estrela, Clarice foi hospitalizada e diagnosticada com um câncer de ovário inoperável por ter sido detectado tarde demais. A doença havia se espalhado por todo o seu organismo. Clarice faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu aniversário de 57 anos. Seu corpo foi sepultado no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, no dia 11 de dezembro. Até a manhã de seu falecimento, mesmo sob sedativos, Clarice ainda ditava frases para sua melhor amiga, Olga Borelli, que estava sempre ao lado da amiga em seus últimos anos.[85]
Obra
O crítico Alfredo Bosi apresenta três características do estilo narrativo de Clarice Lispector: o uso intensivo de metáfora incomuns, a entrega ao fluxo de consciência e a ruptura com o enredo factual.[57] Bosi afirma que, na gênese das histórias da autora, há uma exacerbação tal do momento interior que a própria subjetividade entra em crise, fazendo com que o espírito procure um novo equilíbrio, trazido pela "recuperação do objeto", "não mais [no nível psicológico], mas na esfera da sua própria e irredutível realidade." Para Bosi, "trata-se de um salto do psicológico para o metafísico".[57] Bosi vê também, na escrita da autora, exemplos de três crises literárias: a crise da personagem-ego ("cujas contradições já não se resolvem no casulo intimista, mas na procura consciente do supra-individual"); a crise da fala narrativa ("afetada agora por um estilo ensaístico, indagador") e a crise da velha fundação documental da prosa de romances.[86]
Influências e diálogos filosóficos
Na época do lançamento do segundo livro, mais de uma vez, negou conhecer Sartre quando, na verdade, o conhecia suficientemente até para poder se diferenciar dele, pelo menos desde o seu segundo livro, O Lustre, conforme ela mesma afirmou mais tarde: "Acontece que só vim a saber da existência de Sartre no meu segundo livro.".[87] A estudiosa Nádia Battella Gotlib observa que "uma das possíveis razões de o livro ter sido bem recebido na França pode ter sido mesmo a ideia de que teria tido ele influência do existencialismo".[88] Muitos dos trabalhos críticos sobre a obra da autora confirmam a relação dela com a filosofia existencialista de Sartre.[89]
Essa influência não se limita a O Lustre, a obra de Clarice, A Maçã no Escuro é também entendida como influenciada pelo pensamento filosófico de Sartre. Rodrigo Guimarães, por exemplo, compara A Maçã no Escuro ao romance A Náusea, de Sartre. Em sua análise, ele nota traços de esquizofrenia no personagem principal, Martim, por este apresentar um pensamento fragmentado e com ausência de elos.Segundo Guimarães, a consciência, tanto de Martim, quanto de Roquentin (protagonista do romance de Sartre), "opera por contiguidade, adesão, coexistência em relação aos circunstantes e não por identificação, à maneira psicanalítica".[90] No mais, muitos críticos literários discutiram a influência do existencialismo de Sartre e da discussão de papéis de gênero de Simone de Beauvoir nas narrativas de Clarice Lispector.[91][92]
Neste contexto, e feitas estas considerações pertinentes, é possível pensar uma influência da filosofia formulada por Sartre, Simone de Beauvoir e outros na obra de Clarice, embora fosse imprudente considerar a autora como adepta do existencialismo. A verdade é que a filosofia existencialista de Sartre marcou profundamente a geração de intelectuais contemporâneos de Clarice Lispector.[93][94][95][96]
Como tradutora

Sabe-se que Clarice Lispector dominava pelo menos sete idiomas: português, inglês, francês e espanhol, fluentemente; hebraico e iídiche, com alguma fluência; e alguma fluência em russo, vindo da infância. Como tradutora para o português, entretanto, utilizou somente o inglês, o francês e o espanhol.[nota 4]
Além de contos e artigos, ela traduziu ao todo 35 livros de diversos gêneros e escritores: 13 do inglês; 10 do francês; e 2 provavelmente do inglês ou do francês e talvez do espanhol ou do grego.[98] Junto de contos, foram mais de 40 traduções.[99]
Em 1941, antes de dar início à sua carreira literária, quando começou a trabalhar na revista Vamos Ler! como repórter, também contribuía com traduções, sendo a sua primeira o conto Le missionaire, de Claude Farrère.[99]

Em 1963, após um hiato de mais de vinte anos, voltou à ativa com a tradução do inglês do romance The winthrop Woman, de Anya Seton, pela editora Ypiranga.[100][99] Pelos próximos seis anos, lançou mais duas traduções do inglês pela Ypiranga, uma de Agatha Christie[101] e outra de Alistair MacLean.[99]
Publicou, em 1968, na Revista Jóia, a crônica Traduzir procurando não trair, em que comentou suas preocupações no processo de tradução para manter a fidelidade e outras reflexões sobre o ofício.[102][103]
Em 1969, publicou sua primeira e única tradução do espanhol, do conto Historia de los dos que soñaron, de Jorge Luis Borges, no Jornal do Brasil. Em 1973, sua primeira tradução do francês, Lumière allumées, de Bella Rosenfeld, pela editora Nova Fronteira.[99]
No restante de sua vida, publicou diversas traduções, tanto em periódicos quanto em editoras. A última tradução publicada em vida foi a do francês do romance Le bluff du futur, de Georges Elgozy, em 1976, pela editora Artenova.[104] Duas traduções, entretanto, ainda seriam publicadas postumamente, do francês: L’homme au magnétophone, de Jean-Jaques Abrahams, em 1978, pela Imago Editora;[105][99] e da tradução francesa Curtain, de Agatha Christie, em 1987, pela Editora Record.[106][101]
As editoras em que mais publicou foram a Artenova, em um total de 11, a Nova Fronteira, 6, e a Ypiranga, 4. Os anos mais prolíficos foram 1975, com 8, 1976, com 4, e 1974, com 4.[99]
Na sua última década de vida, em 1970, pouco depois de quando começou a escrever textos infantis, também fez três traduções adaptadas direcionadas para o público infantojuvenil,[107] todas pela editora Abril Cultural: publicada em 1973, do inglês, As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift;[108] The History of Tom Jones, a Foundling, de Henry Fielding;[109] e postumamente em 1980, do francês, L’Ïle Mystérieuse, de Júlio Verne.[110][99]
Em 1970, publicou uma tradução baseada em O talismã, de Walter Scott, pela Ediouro.[111] Também publicou contos reescritos a partir de traduções de Edgar Allan Poe em 1974 e 1975, que aparentemente foram escritos em um mesmo período e posteriormente reunidos em Histórias Extraordinárias de Allan Poe, pela Ediouro, de data não informada.[112][99]
Traduções no exterior

No total, a obra de Clarice Lispector recebeu mais de 200 traduções para mais de 10 idiomas, sendo mais de 179 traduções integrais de livros e 25 de contos publicados em periódicos. Seus livros mais traduzidos são principalmente romances: A Hora da Estrela, com 22 traduções; A Paixão segundo G. H., também com 22; Perto do Coração Selvagem, com 18; Laços de Família, com 16; e Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, com 15.[113]
Em 1954, seu primeiro livro a ser traduzido foi lançado na França: Perto do Coração Selvagem, em tradução de Denise-Teresa Moutonnier pela editora Plon.[114] A tradução desagradou Clarice, que enviou reclamações sobre erros ao editor, Pierre de Lescure, mas acabou por preferir fingir que a tradução nunca existiu. Em 1955, veio a primeira tradução para o espanhol: Água Viva, por Haydeé Yofre para a Sudamericana.[115] Em 1961, a primeira para o inglês: A Maçã no Escuro, por Gregory Rabassa para a editora da Universidade do Texas.[116]
Em 1963, teve sua primeira tradução para o alemão como a primeira de um de seus livros de contos: Laços de Família, por Marianne Eyre, Margareta Ahlberg e Arne Lundgren, para a Norstedts.[117] Em 1964, também para o alemão: A Maçã no Escuro, por Curt Meyer-Clason para a Classen.[118] Em 1966, duas de suas obras são traduzidas para o alemão: Onde Estivestes de Noite, por Sarita Brandt para a Suhrkamp Verlag;[119], e o conto A Imitação da Rosa por Curt Meyer-Clason para a Claassen.[120]
Em 1969, A Paixão segundo G. H., para o espanhol, por Juan García Gayo para a Monte Avila.[121] Em 1973, a primeira para o tcheco: Perto do Coração Selvagem, por Pavla Lidmilová para a Odeon;[122] e também o primeiro livro de contos traduzido para o espanhol, Laços de Família, por Haydeé Yofre Barroso para a Sudamericana.[123]
Em 1974, duas traduções para o espanhol: A Maçã no Escuro, por Juan García Gayo para a Sudamericana;[124] e o conto infantil O Mistério do Coelho Pensante, por Mario Trejo para a De La Flor.[124]

Em 1975, outras duas para o espanhol: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, por Juan García Gayo para a Sudamericana;[125] e A Via Crucis do Corpo, por Haydeé Yofre Barroso para a Santiago Rueda.[125]
Em 1977, ano de sua morte, tem três obras traduzidas: A Paixão Segundo G. H. para o inglês, por Jack H. Tomlins para a Alfred A. Knopf;[126] Perto do Coração Selvagem para espanhol, por Basilio Losada para a Alfaguara;[127] e o conto Uma Esperança, de Felicidade Clandestina, para o espanhol, sob o título de La araña, por Haydeé Yofre Barroso para a Corregidor.[128]
Depois de sua morte, sua obra popularizou-se cada vez mais. Das novas traduções destaca-se a série liderada por Benjamin Moser para a editora britânica Penguin Books na década de 2010,[129] que foi iniciada com a publicação da biografia Why This World, em 2011, e tinha como intuito traduções mais fiéis que as anteriores. O objetivo da série, de acordo com Moser, que convidou outros quatro tradutores para a tarefa, é disponibilizar ao público anglófono traduções mais fieis do que as anteriores, que teriam tentado corrigir certas características da escrita da autora.[130]
A série faz parte de uma outra maior dedicada à difusão da literatura latina e foi publicada em 2014, contando com quatro traduções: Perto do Coração Selvagem, pela tradutora australiana Alison Entrekin;[131] Água viva, pelo editor Stefan Tobler;[131] A Paixão segundo G. H., pela poeta e acadêmica Idra Novey;[131] Um Sopro de Vida, pelo professor universitário brasileiro Johnny Lorenz;[131] e A Hora da Estrela, por Moser.[131][130]
Encontra-se colaboração da sua autoria na revista luso-brasileira Atlântico.[132]
Lista de obras
Romances
|
Coletâneas de contos
|
| Título | Ano de publicação |
Coletânea |
|---|---|---|
| "O Triunfo" | 1940 | Primeiras Histórias |
| "Eu e Jimmy" | ||
| "Trecho" | 1941 | |
| "Cartas A Hermengardo" | ||
| "O Crime do Professor de Matemática" | 1946 | Alguns Contos |
| "O Jantar" | ||
| "Amor" | 1952 | |
| "Mistério em São Cristóvão" | ||
| "Uma Galinha" | ||
| "Começos de uma Fortuna" | ||
| "Feliz Aniversário" | 1959 | Laços de Família |
| "A Menor Mulher do Mundo" | ||
| "Devaneio e Embriaguez duma Rapariga" | 1960 | |
| "A Imitação da Rosa" | ||
| "Preciosidade" | ||
| "Os Laços de Família" | ||
| "O Búfalo" | ||
| "A Legião Estrangeira" | 1961 | A Legião Estrangeira |
| "Os Desastres de Sofia" | 1962 | |
| "A Quinta História" | ||
| "A Repartição dos Pães" | 1964 | |
| "A Mensagem" | ||
| "Macacos" | ||
| "O Ovo e a Galinha" | ||
| "Tentação" | ||
| "Viagem a Petrópolis" | ||
| "A Solução" | ||
| "Evolução de uma Miopia" | ||
| "Uma Amizade Sincera" | ||
| "Os Obedientes" | ||
| "Felicidade Clandestina" | 1971 | Felicidade Clandestina |
| "Restos do Carnaval" | ||
| "Come, Meu Filho" | ||
| "Perdoando Deus" | ||
| "Cem Anos de Perdão" | ||
| "Uma Esperança" | ||
| "A Criada" | ||
| "Menino a Bico de Pena" | ||
| "Uma História de Tanto Amor" | ||
| "As Águas do Mundo" | ||
| "Encarnação Involuntária" | ||
| "Duas Histórias a Meu Modo" | ||
| "O Primeiro Beijo" | ||
| "A Procura de uma Dignidade" | 1974 | Onde Estivestes de Noite |
| "A Partida do Trem" | ||
| "Seco Estudo de Cavalos" | ||
| "Onde Estivestes de Noite" | ||
| "O Relatório da Coisa" | ||
| "O Manifesto da Cidade" | ||
| "As Manigâncias de Dona Frozina" | ||
| "É para Lá que eu Vou" | ||
| "O Morto no Mar da Urca" | ||
| "Silêncio" | ||
| "Uma Tarde Plena" | ||
| "Tanta Mansidão" | ||
| "Tempestade de Almas" | ||
| "Vida ao Natural" | ||
| "Explicação" | 1974 | A Via Crucis do Corpo |
| "Miss Algrave" | ||
| "O Corpo" | ||
| "Via Crucis" | ||
| "O Homem que Apareceu" | ||
| "Ele Me Bebeu" | ||
| "Porenquanto" | ||
| "Dia Após Dia" | ||
| "Ruído de Passos" | ||
| "Antes da Ponte Rio-Niterói" | ||
| "Praça Mauá" | ||
| "A Língua do "P"" | ||
| "Melhor do que Arder" | ||
| "Mas Vai Chover" | ||
| "História Interrompida" (*) | 1979 | A Bela e a Fera |
| "Gertrudes Pede um Conselho" (*) | ||
| "Obsessão" (*) | ||
| "O Delírio" (*) | ||
| "A Fuga" (*) | ||
| "Mais Dois Bêbedos" (*) | ||
| "A Bela e a Fera ou a Ferida Grande Demais" | ||
| "Um Dia a Menos" | ||
| Legenda | ||
|
(.*) Contos escritos entre 1940 e 1941, mas publicados apenas póstumamente. | ||
Crônicas, artigos e entrevistas
|
Literatura infantil
Correspondências
|
Ver também
Notas e referências
Notas
- ↑ Clarice dizia ter chegado ao Brasil aos dois meses de idade, mas os documentos atestam que ela nasceu em 10 de dezembro de 1920, e os passaportes para o Brasil só foram concedidos em 27 de janeiro de 1922; portanto optou-se por manter a informação comprovável por mais de uma fonte.
- ↑ Fonte terciária citada por Claire Varin em entrevista a Benjamin Moser (Laval, Québec, 7 de janeiro de 2006). Outras fontes atribuem os problemas de saúde de Mania a eventos distintos. Não há depoimentos de filhos ou familiares que confirmem a ocorrência do estupro.
- ↑ A frase de Joyce que inspirou o título do romance de Clarice Lispector é: "Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida".
- ↑ Aprendeu português no Brasil; inglês, francês e espanhol na adolescência; hebraico e iídiche no Colégio Hebreu-Iídiche-Brasileiro, atual Colégio Israelita Moisés Chvarts,[97] do Recife. Alguns biógrafos afirmam que também aprendeu um pouco de russo através do contato com familiares.
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Bibliografia
Da autora
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- Lispector, Clarice (1963). Familjeband. Stockholm: Norstedts
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Traduções da autora
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- Elgozy, Georges (1976). O blefe do futuro. [S.l.]: Artenova
- Abrahams, Jean-Jaques (1978). O homem do gravador. [S.l.]: Nova Fronteira
- Christie, Agatha (1987). Cai o pano: o último caso de Poirot. [S.l.]: Record
- Swift, Jonathan (1973). Viagens de Gulliver. [S.l.]: Abril Cultural
- Fielding, Henry (1973). Tom Jones. [S.l.]: Abril Cultural
- Verne, Júlio (1980). A ilha misteriosa. [S.l.]: Abril Cultural
- Poe, Edgar Allan. Histórias Extraordinárias de Allan Poe. [S.l.]: Ediouro
- Scott, Walter (1970). O talismã. [S.l.]: Ediouro
Sobre a autora e sua obra
- Ferreira, Teresa Cristina Montero (1999). Eu sou uma pergunta: Uma biografia de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco
- Gilio, Maria Esther (1976). Tristes trópicos: Com Clarice Lispector en Rio. [S.l.]: Triunfo
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Ligações externas
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- «Biografia». www.releituras.com. Consultado em 27 de novembro de 2004. Arquivado do original em 10 de julho de 2017
- "Autores Judeus". Com prefácio de Moacyr Scliar.
- Arquivo pessoal da escritora, localizado na Fundação Casa de Rui Barbosa
- «JBlog Hoje na História: 9 de dezembro de 1977 – Morre Clarice Lispector. Chega A Hora da Estrela». www.jblog.com.br. Consultado em 9 de dezembro de 2010. Arquivado do original em 18 de dezembro de 2011
- «Conto: "Mineirinho"». www.ip.usp.br. Consultado em 29 de setembro de 2015. Arquivado do original em 18 de novembro de 2017. Por Clarice Lispector.
- «A arte de Clarice Lispector» (entrevista de Hélène Cixous a Betty Milan)
