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Carlos Zéfiro
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| Carlos Zéfiro | |
|---|---|
| Nascimento | Alcides Aguiar Caminha 26 de setembro de 1921 Rio de Janeiro |
| Morte | 5 de julho de 1992 (70 anos) Rio de Janeiro |
| Cidadania | Brasil |
| Ocupação | desenhista de banda desenhada, compositor, servidor público, cartunista, cancionista |
| Distinções | |
Carlos Zéfiro é o pseudônimo do funcionário público brasileiro Alcides Aguiar Caminha (Rio de Janeiro, 26 de setembro de 1921 – Rio de Janeiro, 5 de julho de 1992), com o qual ilustrou e publicou, durante as décadas de 1950 a 1970, histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por "catecismos".[1]
Alcides Aguiar Caminha, carioca boêmio, ilustrou e vendeu cerca de 500 trabalhos desenhados em preto e branco com tamanho de 1/4 de folha ofício (chegou a publicar num outro formato, 14 x 21 cm), um quadro por página[2] contendo de 24 a 32 páginas[3] que eram vendidos dissimuladamente em bancas de jornais,[3] devido ao seu conteúdo pornô-erótico, ficando conhecidos como "catecismos" e chegaram a tiragens de 30 000 exemplares.
Biografia
Casado desde os 25 anos com Dona Serat Caminha, teve 5 filhos e sempre escondeu de toda a família sua atividade paralela de desenhista, e aposentou-se como funcionário público do setor de Imigração do Ministério do Trabalho.
Sua identidade somente se tornou pública em uma reportagem de Juca Kfouri para a Revista Playboy (onde era editor na época) que foi publicada em 1991, um ano antes de sua morte.[1]
Autodidata no desenho e tendo concluído o ensino médio apenas aos 58 anos de idade, manteve sua verdadeira identidade em sigilo por temer se envolver em escândalos que poderiam trazer sérias consequências. Funcionário público, estava sujeito à Lei nº 1.711, de 1952, que previa punições severas, como a demissão, para condutas consideradas inapropriadas, incluindo "incontinência pública e escandalosa".
Assim, o anonimato não era apenas uma escolha estética, mas uma necessidade. Caminha temia ser demitido, pois a legislação da época não tolerava comportamentos tidos como imorais. O Estatuto dos Funcionários Públicos Civis da União (Lei nº 1.711/1952) também previa sanções para casos de "vício de jogos proibidos" e "embriaguez habitual".[4] Além disso, a Lei nº 2.083, de 1953, proibia explicitamente a impressão, venda ou importação de publicações consideradas obscenas, cabendo ao Juiz de Menores, ou na ausência deste, a qualquer magistrado, definir o que era obsceno.[5]
Carreira
Os "catecismos" eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito,[6] e impresso em diferentes gráficas em diferentes estados da Federação, gerando, inclusive, diversos imitadores. Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas. Chegou-se a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas a investigação terminou inconclusa.[3]
Sem formação em desenho, seus quadrinhos eram naif[7] e inspirados em quadrinhos românticos mexicanos[2] publicados pela editora Editormex (cujas histórias possuíam apenas dois quadros por página)[8] e em fotonovelas pornográficas de origem sueca.[2]
O nome Carlos Zéfiro foi tirado de um autor mexicano de fotonovelas.[1]
Para o jornalista Gonçalo Junior, os catecismos de Zéfiro não possuem nenhuma relação com os tijuana bibles, quadrinhos eróticos publicados nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950, que usava como protagonistas personagens de desenhos animados, quadrinhos[9] e até celebridades.[8]
Além de seus trabalhos como ilustrador, Alcides Caminha foi compositor, inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil e parceiro de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, com quem compôs quatro sambas para a Mangueira, entre eles os sucessos: Notícia, gravado por Roberto Silva na década de 1950,[1] e A Flor e o Espinho.[10]
Caminha revelou sua identidade nas páginas da revista Playboy em 1991, após saber que o quadrinista baiano Eduardo Barbosa havia declarado ser o verdadeiro Carlos Zéfiro; Barbosa chegou a desenhar alguns "catecismos",[3] entretanto Caminha foi identificado por Hélio Brandão.[2] Em novembro do mesmo ano participou da I Bienal Internacional de Quadrinhos.[3]
Em 1992 recebeu o Troféu HQ Mix, pela importância de sua obra.[3]
Impacto na cultura popular
Na década de 1980, o quadrinista Sebastião Seabra adotou o pseudônimo Sebastião Zéfiro para não comprometer o trabalho que possuía como ilustrador de livros didáticos.[2] Seabra conseguiu junto a Editora Maciota que fosse publicado o trabalho de Zéfiro (na época ainda no anonimato), chegou a se especular que os artistas fossem parentes.[2]
O jornalista Geraldo Galvão Ferraz foi um dos primeiros a escrever um artigo sobre Carlos Zéfiro, o cartunista e jornalista Ota publicou um livro sobre o quadrinista,[2] Joaquim Marinho também escreveu um livro sobre Zéfiro.[9]
Após sua morte teve um trabalho publicado como homenagem póstuma em 1997 na capa e no encarte do cd Barulhinho Bom - Uma Viagem Musical da cantora Marisa Monte.[3] Em 1998, as vinhetas de abertura e intervalos do Video Music Brasil 1998, da MTV Brasil foram claramente inspiradas nos folhetins de sua obra.
Em agosto de 1999, em Anchieta, bairro em que morava, foi inaugurada a Lona Cultural Carlos Zéfiro, com show da Velha Guarda da Portela e Marisa Monte. A cantora e o jornalista Juca Kfouri, que revelou a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro nas páginas da Playboy, são os padrinhos da Lona Cultural, fundada e dirigida por um grupo de artistas locais, que tinha à frente Adailton Medeiros.
Em 2005, a arquiteta Christianne Gomes defendeu como projeto final de graduação de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal Fluminense, o projeto Centro Erótico Carlos Zéfiro, que visava a criação de um espaço na zona portuária do Rio de Janeiro onde as mais diferentes formas de sexo poderiam ser discutidas e/ ou experimentadas. O projeto previa a criação de um museu erótico, vilas de prostituição, motel, cafés, cinemas, salas de exposições, um centro de tratamento de DST, um posto da delegacia de crimes sexuais e clínicas de psicologia avançada e foi recebido em 2006 pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Em 2009, ao fazer uma crítica a corrupção do Senado Federal, o Jornal Extra do Rio de Janeiro publicou quadrinhos por João Arruda (roteiro) e Ary Moraes (desenhos) inspiradas nos catecismo de Zéfiro.[11]
Em janeiro de 2011, os trabalhos de Zéfiro foram expostos ao lado de outros quadrinhos eróticos do resto mundo no Museu do Sexo, em Nova York.[12]
Em março de 2011, Zéfiro foi tema da peça de teatro "Os catecismos segundo Carlos Zéfiro" escrito e dirigido por Paulo Biscaia Filho.[13]
Em outubro de 2018, o jornalista Gonçalo Junior publicou o livro Deus da Sacanagem – A vida e o tempo de Carlos Zéfiro (Editora Noir).[14]
Obras
Inicialmente publicado de forma independente (e sendo constantemente pirateado),[3] a partir da década de 1980, os quadrinhos de Zéfiro passaram a ter reimpressões pelas editoras Maciota, Record (revistas editadas por Ota),[2] Marco Zero,[3] Nos anos 2000, A editora Cena Muda publicou o primeiro quadrinho erótico de Zéfiro, Sara, criado em 1949 no formato 16 x 23 cm, segundo a editora Adda Di Guimarães, a revista é maior que os catecismo, já que a versão original foi publicada em formatinho.[15]
Títulos de histórias em quadrinhos
- Acerto | Alba | Alice | Aline | Amigos | Amor | Amor a Três | Andréa | Ângela, a Professora | Anjo Mau | Asa Sul | Assaltante, O | Atleta
- Bacana | Bailarina | Benta | Biruta | Boas Entradas | Bom Começo
- Carlos e Leda | Carnaval | Carnaval 1 | Carnaval 2 | Carona 1 | Carona 2 | Castigo, O | Célia | Celita | Cientista, O | Cínia | Clara 1 | Condessa, A | Conselheiro, O | Conselhos Quadrados | Copacabana 1967 | Criada, A | Cura, A
- Decisão | Degraus da Vida | Desastre 1, O | Desastre 2, O | Desforra, A | Despedida | Destino 1 | Destino 2 | Desvario | Diana, a Sacerdotisa | Difícil, A | Dilza | Divórcio 1 | Divórcio 2 | Domada pelo Sexo 1 | Domada pelo Sexo 2
- Edy | Encontro, O | Entrevistador, O | Escolhida, A | Estupro | Eu e Leda 1 | Eu e Leda 2 | Eu e o Coroa | Eu Fui Hipie 1 | Eu Fui Hipie 2 | Eu Fui Hipie 3 | Eu Fui Hipie 4
- Família | Farsa | Faxina | Férias de Amor 1 | Férias de Amor 2 | Filho do Diabo, O | Fim de Trauma | Flora | Formatura | Frutos Proibidos | Fugitivo, O
- Garçonete | Gata | Gilka | Golpe do Baú 1 | Golpe do Baú 2 | Golpe do Baú 3
- Helen | Hélia | Hotel dos Prazeres
- Índia, A | Irene | Íris | Irmã da Índia, A | Ivete
- Janaina | João Cavalo (este foi seu maior sucesso) | João Cavalo na Fazenda | Júlia | Julinha
- Kátia
- Lagarto, O | Laura | Lealdade | Leda | Lia | Lili | Lua de Mel 1 | Lua de Mel 2
- Mara e o Pintor | Margô | Maria, a Proibida | Maria Lúcia, a Capixaba | Marina | Mauro 1 | Mauro 2 | Medo | Mestra, A | Meu Primo 1 | Meu Primo 2 | Minha Vida no Convento | Modelo
- Nayá | Néa, a Aeromoça | Negra | Negrinha, A | Nélia | Nilda | Nilza | Nora | No Reiro | Noviço, O
- Odaléa
- Parafuso e a Mulher Biônica | Parceira | Passeio | Pato, O | Pecadora | Pensão | Pinicada, A | Pinta, A | Prefeita | Promoção | Proteção | Pudor | Pupila 1, A | Pupila 2, A | Putas Também Gozam, As
- Quem é o Pai?
- Resgate, O | Reveillon | Robinson Crusoé Século XX | Robinson Moderno
- Safari | Seca | Semi-Virgem | Senhoria | Sítio, O | Strip-Tease | Suzete
- Tânia | Tarada | Tarzan | Tentação | Titia | Titio | Trem de Luxo 1 | Trem de Luxo 2 | Troco, O | Tuca
- Último Estalo, O
- Vedete | Vera | Viagem | Vida Amorosa de Dorian Gray | Vida, Paixão e Morte de um Sofá | Vingança, A | Viúva 1 | Viúva 2 | Viúvo Alegre | Vizinha, A
- Xexéu
- Zelma 1 | Zelma 2
Ver também
Referências
- 1 2 3 4 Gonçalo Júnior. Editora Companhia das Letras, ed. A Guerra dos Gibis - a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-1964. 2004. [S.l.: s.n.] pp. 319, 320, 323. ISBN 9788535905823
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Marcelo Naranjo, sobre o press release (18 de julho de 2003). «Conheça mais detalhes sobre o álbum Na Trilha do Prazer». Universo HQ. Cópia arquivada em 12 de agosto de 2025
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ota. «Carlos Zéfiro». Site oficial do Ota. Cópia arquivada em 4 de julho de 2025
- ↑ Redação (7 de julho de 2017). «Como Carlos Zéfiro e seus 'catecismos' driblaram a repressão sexual». Jornal GGN. Consultado em 18 de abril de 2025. Cópia arquivada em 12 de dezembro de 2025
- ↑ «L2083». www.planalto.gov.br. Consultado em 18 de abril de 2025. Cópia arquivada em 17 de abril de 2026
- ↑ «Carlos Zéfiro». Itaú Cultural
- ↑ «Quem foi o quadrinista que ensinou nossos avós a trepar». www.vice.com. Consultado em 1 de julho de 2021
- 1 2 Tom Leão (8 de novembro de 2010). «Raros quadrinhos eróticos americanos dos anos 1930 a 50 ganham caixa de luxo em português». Extra
- 1 2 Nobu Chinen. «Let's talk about sex». Universo HQ. Cópia arquivada em 11 de agosto de 2025
- ↑ Telio Navega (19 de abril de 2007). «A primeira vez de Carlos Zéfiro». O Globo. Cópia arquivada em 14 de julho de 2009
- ↑ «Jornal se inspira em Zéfiro para explicar os problemas do Senado». Universo HQ. 3 de julho de 2009
- ↑ Marcus Ramone (17 de janeiro de 2011). «Quadrinhos eróticos do Brasil no Museu do Sexo, em Nova York». Universo HQ. Cópia arquivada em 10 de agosto de 2025
- ↑ Lívia Breves. «Os catecismos segundo Carlos Zéfiro». O Globo. Cópia arquivada em 14 de março de 2011
- ↑ Noir lança biografia de Carlos Zéfiro, escrita por Gonçalo Junior
- ↑ Telio Navega (19 de abril de 2007). «A primeira vez de Carlos Zéfiro». O Globo. Arquivado do original em 14 de julho de 2009
