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Camilo Torres
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| Camilo Torres | |
|---|---|
| Nascimento | 3 de fevereiro de 1929 Bogotá |
| Morte | 15 de fevereiro de 1966 (37 anos) San Vicente de Chucurí |
| Cidadania | Colômbia |
| Progenitores |
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| Alma mater |
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| Ocupação | professor universitário, padre, sociólogo, partisan, revolucionário, político, escritor, sacerdote, popular educator, pesquisador |
| Empregador(a) | Universidade Nacional da Colômbia, High School of Public Administration of Colombia. (ESAP), Instituto Colombiano de la Reforma Agraria |
| Religião | catolicismo, teologia da libertação, Igreja Católica |
Camilo Torres Restrepo (Bogotá, 3 de fevereiro de 1929 — San Vicente de Chucurí, Santander, 15 de fevereiro de 1966) foi um padre católico, sociólogo e guerrilheiro colombiano.
Foi cofundador da Faculdade de Sociologia da América Latina e um dos precursores da Teologia da Libertação.[1][2][3][4][5]
Ele foi ordenado sacerdote por volta de 1954, após estudar ciências eclesiásticas na Arquidiocese de Bogotá. Formou-se em sociologia pela Universidade Católica de Lovaina em 1958. Em 1959, foi nomeado capelão da Universidade Nacional da Colômbia. Participou da criação dos Conselhos de Ação Comunitária, trabalhou no Instituto Colombiano de Reforma Agrária (INCORA) e atuou como decano da Escola Superior de Administração Pública (ESAP).[6]
Em 1964, fundou a Frente Unida do Povo, que procurava organizar as forças políticas opositoras à Frente Nacional.[7][8] Ao longo da sua vida, promoveu o diálogo entre o marxismo e o cristianismo e apoiou a luta armada revolucionária.[9] Foi membro do grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional (ELN) a partir de 1965, adotando o pseudônimo "Argemiro" e ficando conhecido como "o padre guerrilheiro". [10][11]
Ele morreu em combate durante a Batalha de Patio Cemento em El Carmen de Chucurí (Santander) com a Quinta Brigada do Exército Nacional Colombiano, quando um grupo de guerrilheiros do ELN tentou um ataque surpresa a uma coluna de soldados para tomar suas armas, mas foi derrotado pela resposta militar.[12] Seus restos mortais permaneceram desaparecidos por 60 anos, até 23 de janeiro de 2026, quando o ELN anunciou sua descoberta. Os restos mortais foram verificados e entregues pela Unidade de Busca de Pessoas Desaparecidas (UBPD) e pelo Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, para serem colocados em um ossuário construído na Universidade Nacional.[13][14]
Biografia
Jorge Camilo Torres Restrepo nasceu em 3 de fevereiro de 1929, em Bogotá, em uma família da aristocracia liberal de Bogotá, Filho do médico Calixto Torres Umanã[15] e de Isabel Restrepo Gaviria. Seus pais o levaram para a Europa quando ele tinha apenas dois anos de idade. Ele retornou ao país em 1934.[16] Três anos depois, em 1937, o casal se separou e Camilo e seu irmão Fernando ficaram com a mãe.[17]
Expulso do tradicional Colégio Mayor de Nuestra Señora del Rosario por suas críticas aos professores, concluiu o ensino médio no Liceu de Cervantes em 1946, onde conheceu e fez amizade com Luis Villar Borda e Ricardo Samper.[18]
Ele se matriculou na Faculdade de Direito da Universidade Nacional da Colômbia, onde reencontraria Villar Borda, e estudou lá apenas durante o primeiro semestre. Nesse breve período, Camilo e Luis editaram a página universitária do jornal La Razón, de Bogotá, e ocasionalmente escreviam críticas a algumas revistas universitárias que consideravam radicais.[18]

Influenciado pelas ideias sociais de dois padres dominicanos franceses, Nielly e Blanchet, que conheceu através do pai de sua namorada Teresa Montalvo, filha de uma família prestigiosa de Bogotá, a ideia de se tornar padre começou a germinar em Camilo, e para tomar essa decisão, ele se retirou para os Planaltos Orientais para meditar sobre o assunto. Após terminar o namoro e apesar da relutância dos pais, Camilo ingressou no Seminário Conciliar de Bogotá da Arquidiocese de Bogotá (com a concordância dos pais para evitar entrar no seminário dominicano de Chiquinquirá, que estava em más condições), onde permaneceu por sete anos, período durante o qual começou a se interessar por questões como a pobreza e a injustiça social.[19]
Ele foi ordenado sacerdote por volta de 1954, após estudar ciências eclesiásticas na Arquidiocese de Bogotá.[17] A pobreza e a injustiça social chamaram sua atenção e, junto com seu colega Gustavo Pérez, ele criou um círculo de estudos sociais que continuou a funcionar mesmo depois da ordenação de Torres em 1954, sob a direção de Jonatan Gómez. Camilo começou o trabalho social nos bairros ao redor do Seminário Conciliar, que eram habitados por famílias deslocadas do campo.[17][19]
Camilo foi ordenado sacerdote em 1954. No ano seguinte, viajou a Bélgica para estudar sociologia na Universidade de Lovaina. Durante sua estadia na Europa, travou contato com a Democracia Cristã, com o movimento sindical cristão e com grupos de resistência argelina em Paris, fatores que o levaram a se aproximar da causa dos oprimidos. Na França, teve contato com o padre Abbé Pierre.[18]
Fundou, com um grupo de estudantes colombianos da universidade, o ECISE (Equipe Colombiana de Investigação Socioeconômica) e o Movimento Universitário de Promoção Comunal (MUNIPROC), onde desenvolveu trabalhos de investigação e de ação social em bairros populares.
Ele fundou as seções de Bogotá, Paris e Londres da ECISE. Em 1957, conheceu Marguerite-Marie 'Guitemie' Olivieri, uma francesa de origem corsa e filha burguesa de um médico como Torres. Ela se tornaria sua amiga mais próxima e secretária, e naquela época morava em um bairro pobre de Paris, acompanhando os pieds-noirs em atos de sabotagem contra o regime francês que estava sendo imposto à força na Argélia.[20] Por sua vez, Torres encontrou-se com Villar Borda em Berlim, e eles passaram férias em Belgrado e Praga, onde ele tentou, sem sucesso, exercer o sacerdócio.
Em 1958, a universidade belga concedeu-lhe o título de sociólogo. Sua tese de doutorado, Uma Abordagem Estatística da Realidade Socioeconômica de Bogotá, que foi uma obra pioneira na sociologia urbana da América Latina, foi publicada em 1987 sob o título A Proletarização de Bogotá. Outro aspecto do pensamento de Camilo era procurar vincular a doutrina social da igreja com a busca de um 'amor eficaz'.[19][5]

Retorno à Universidade Nacional e atividades acadêmicas
Em 1959, ao retornar à Colômbia, sentiu-se compelido a apoiar ativamente a causa dos pobres e da classe trabalhadora. Naquele ano, foi nomeado capelão assistente da Universidade Nacional da Colômbia, em Bogotá.
Criação dos Conselhos de Ação Comunitária
Ele foi membro fundador e presidente do Movimento Universitário para o Desenvolvimento Comunitário (MUNIPROC). Com a criação dos Conselhos de Ação Comunitária (CACs), promovidos pelo governo de Alberto Lleras Camargo (1958-1962), Torres reconheceu neles a possibilidade de descentralizar o poder político e empoderar as comunidades de base. Juntamente com professores e alunos, realizou programas de ação comunitária em bairros operários de Bogotá. Torres também foi organizador, em 1964, do VII Congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia, onde apresentou o estudo “A Assimilação da Família Rural à Cidade: Um Estudo de Caso”.[19][21]
O trabalho da MUNIPROC[22] permite a fundação do primeiro Conselho de Ação Comunitária (CAC) em Tunjuelito (Bogotá), na época um enclave operário ao sul de Bogotá, onde teve um trabalho contínuo de vários anos.
Fundação da Faculdade de Sociologia e Primeiro Congresso Nacional de Sociologia
Desde 1960 na Universidade Nacional, junto com Orlando Fals Borda, Darío Botero e outras personalidades, fundou a Faculdade de Sociologia, na qual ocupou a cátedra acadêmica como professor, sendo próximo e popular entre os estudantes.
Em 1963, presidiu ao primeiro Congresso Nacional de Sociologia da Colômbia, também realizado em Tunjuelito, e apresentou o estudo "Violência e mudanças socioculturais nas áreas rurais colombianas".[23]
Membro do Comitê Técnico para a Reforma Agrária
Torres também foi membro do comitê técnico para a reforma agrária fundado pelo Instituto Colombiano de Reforma Agrária (INCORA), onde representou a posição mais reformista no Conselho Diretor, que era dividido entre os partidos Conservador e Liberal, típico da Frente Nacional. Torres considerava o INCORA uma entidade ineficiente para atender às necessidades da Colômbia rural. Sua passagem pelo Conselho foi marcada pelo episódio referente à proposta de criação de uma Escola Agrícola em Yopal (Casanare) e pelas dificuldades enfrentadas pelo então diretor do INCORA, Enrique Peñalosa Camargo e por Álvaro Gómez Hurtado.

Em 1962, ano em que o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, Torres estava entre os primeiros padres a celebrar a missa de frente para a congregação e em espanhol, enquanto que, naquela época, a missa era tipicamente celebrada de costas para a congregação e em latim. Entre 8 e 9 de junho daquele ano, sob pressão do Cardeal Luis Concha Córdoba, depois que ele e outros professores entraram em conflito com o reitor ao homenagearem os estudantes mortos em uma missa após uma manifestação reprimida pela Polícia Nacional da Colômbia e ao se oporem à expulsão de outros estudantes, ele foi forçado a renunciar a todas as suas funções na Universidade Nacional da Colômbia. Ele foi transferido para a Igreja de Veracruz em Bogotá como coadjutor.[23][24] Pouco antes, a Juventude Comunista Colombiana (JUCO) havia proposto Torres como reitor da Universidade, integrando uma possível lista de candidatos, mas Torres recusou a oferta por receio de manchar sua reputação.
Em 1964, Luis Concha Córdoba substituiria Torres como coadjutor, reconhecendo-o principalmente como sociólogo, permitindo-lhe atuar como professor associado da Faculdade de Sociologia. Por sua vez, foi nomeado decano do Instituto de Administração Social da Escola Superior de Administração Pública (ESAP) e promovido a membro da Junta Diretiva do INCORA.
A Unidade de Ação Rural de Yopal (UARY) foi inaugurada em 1º de março de 1964, após superar obstáculos burocráticos do Ministério da Agricultura, o que lhe permitiu trabalhar na base com os camponeses da capital de Casanare. Isso foi combinado com lutas dentro do conselho local, especialmente com o político conservador ferrenho que defendia os interesses dos latifundiários. Ele foi convidado ao Peru, onde ministrou cursos e palestras sobre reforma agrária e mudança social.[23]
Ele considerou inicialmente a criação de um grupo guerrilheiro com Álvaro Marroquín, um estudante da Universidade Nacional e membro da JUCO. Torres, por sua vez, considerou a INCORA uma entidade inadequada para atender às necessidades do campesinato colombiano, especialmente no que diz respeito à educação informal para sua organização na busca de uma reforma agrária diferente da proposta pela INCORA.
Inicio da jornada na política
Veja também: Comunismo Cristão
A Revolução Cubana, que impactou todos os países das Américas, chamou a atenção de Torres ao retornar da Europa para a Colômbia. Em 1965, o Movimento Liberal Revolucionário (MRL) entrou em um período de declínio após sua cisão depois das eleições presidenciais de 1962 na Colômbia. As eleições legislativas de 1964 foram marcadas por uma abstenção maciça, levando Torres a concluir que os partidos Liberal e Conservador tradicionais haviam sido abandonados pela opinião pública. Ele, portanto, considerou a criação de um novo instrumento para unir os politicamente "não alinhados" — sindicatos, corporações de ofício, associações, estudantes e trabalhadores — para confrontar os partidos tradicionais em declínio, embora, por ora, defendesse a abstenção.
Torres também tentou, sem sucesso, atuar como mediador entre os camponeses e o Exército Nacional para impedir um ataque à chamada República Independente da Marquetália, marcando assim seu primeiro contato com o Partido Comunista Colombiano.[23][25][17]
Frente Popular Unida
O regime da Frente Nacional levou Camilo Torres a fundar a Frente Popular Unida em janeiro de 1964, um movimento de oposição à coligação de partidos tradicionais. Torres foi à casa de Álvaro Marroquín e sua companheira, María Arango, para buscar contatos com o Partido Comunista. Uma reunião foi organizada para criar uma plataforma política, envolvendo o Movimento Operário, Estudantil e Camponês (MOEC), a Juventude do Movimento Liberal Revolucionário (MRL), a Juventude Comunista da Colômbia (JUCO) e alguns técnicos da Universidade dos Andes. No entanto, a hierarquia da Igreja colombiana tentou convencê-lo a viajar para Leuven, e a Escola Superior de Administração Pública (ESAP) ofereceu-se para pagar sua passagem aérea. Uma homenagem a Torres, organizada por estudantes da Universidade Nacional, o dissuadiu de viajar. Embora Torres ainda não fosse politicamente ativo, era bastante popular, mas carecia de um discurso político claro.
Torres procurou unir todos os grupos de oposição da época, como a Aliança Popular Nacional (ANAPO), o MRL, o Partido Comunista Colombiano, etc., e declarou-se não marxista devido ao ateísmo da ideologia, mas relacionou vários pontos ao cristianismo. Em junho de 1965, Torres foi laicizado por seu superior eclesiástico, o Cardeal Concha, dadas as suas práticas e ensinamentos que desconsideravam o que a Igreja Católica já havia estabelecido em sua condenação ao comunismo ateu, emitida pelo Papa Pio XI em sua encíclica "Divini Redemptoris" em 1937, e confirmada pelo Papa João Paulo II em dois documentos publicados pela Congregação para a Doutrina da Fé durante seu pontificado em 1984 e 1986, que estabeleceram os erros promulgados pela chamada "teologia da libertação".[26]

Ao mesmo tempo, foi afastado do cargo na ESAP e, mais uma vez, entrou em conflito com o Cardeal Concha, que lhe ofereceu, juntamente com o bispo coadjutor Rubén Isaza, o cargo de diretor de um departamento de sociologia na Arquidiocese de Bogotá, com a mediação do então padre Ernesto Umaña de Brigard. Torres, porém, rejeitou a oferta ao perceber que o cargo visava impedi-lo de intervir na política, na qual já havia se envolvido, além de apresentar a plataforma sociopolítica em Medellín, motivo pelo qual fora afastado da ESAP anteriormente.
O Cardeal Concha reagiu com discordância, argumentando que a plataforma ia contra os ideais católicos e que os padres deveriam ser apolíticos, a fim de se distanciarem da relação ambígua e tradicional entre o catolicismo e o Partido Conservador. Torres se encontrou com Concha, que se opôs veementemente à entrada de Torres na política. Umaña se encontrou com Torres e lhe ofereceu um cargo eclesiástico, mas Torres propôs solicitar uma dispensa para que pudesse se dedicar à política e evitar problemas com as autoridades eclesiásticas. Concha concedeu a dispensa, mas ofereceu a Torres o cargo sob a condição de que ele retornasse ao sacerdócio. Torres celebrou sua última missa em 27 de junho de 1965, na Igreja de San Diego, em Bogotá.[27] Torres então viajou para Lima e retornou a Bogotá em 3 de julho, onde foi recebido por sua mãe e uma grande multidão, em sua maioria jovens.
A plataforma do movimento buscava atender às necessidades das áreas rurais e urbanas, eliminar a todo custo a democracia restrita da Frente Nacional e o envolvimento da Igreja na Teologia da Libertação. No entanto, a Frente Unida carecia de uma plataforma política clara, apesar de seus laços estreitos e simpatias com a esquerda revolucionária. Possuíam também seu próprio jornal, dirigido por Pedro Acosta, com o mesmo nome, que era distribuído apenas três vezes por semana a partir de 26 de agosto de 1965. Era impresso na editora Antares, de propriedade de seu amigo Gonzalo Canal Ramírez. Apesar da crescente popularidade da Frente Unida, Torres começou a contatar Fabio Vásquez Castaño por meio do líder estudantil Jaime Arenas em 6 de julho de 1965. Arenas havia liderado a greve na Universidade Industrial de Santander em 1965.
A Frente Unida durou de agosto a setembro de 1965 (um mês), após romper com os Democratas Cristãos por imporem uma abordagem militarista. A decisão de Torres de abraçar a luta armada foi inspirada pelo assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, e ele expressou isso a Gloria Gaitán, filha do líder assassinado, que lhe ofereceu asilo. Torres gradualmente entrou na clandestinidade. Apesar disso, Torres liderou uma marcha pacífica com seus estudantes em Medellín e foi preso junto com seus manifestantes, todos estudantes universitários, e detido na Associação Sindical de Antioquia. Mais tarde, foi interceptado em Ventaquemada enquanto viajava para Tunja e, em Bogotá, também foi detido após a repressão policial a uma manifestação da Frente Unida. Em 7 de janeiro de 1966, Torres anunciou sua entrada no ELN (Exército de Libertação Nacional).
Pelo que em 1965 abandonou o sacerdócio e dedicou-se completamente à atividade política revolucionária. Nessa época Camilo ajudou a fundar as "Juntas de Ação Comunitária", que hoje são um movimento efetivo da organização e administração cidadãs em bairros populares em toda a Colômbia.[19]
A vida na guerrilha

No grupo guerrilheiro ao qual pertenceu durante os últimos quatro meses de sua vida,[28] Torres teve Jaime Arenas, escolhido por Fabio Vásquez, como seu mentor e conselheiro. Pouco antes de ingressar no ELN, o General Gustavo Rojas Pinilla, líder da ANAPO, aconselhou Torres a não se juntar a nenhum grupo guerrilheiro, já que, como padre, ele não tinha experiência no manuseio de armas para enfrentar o Exército Nacional. Ele sugeriu que Torres continuasse na vida política, admirando seu trabalho com os pobres, conselho que Torres ignorou, considerando-o uma ameaça. Ao entrar no ELN, sob o pseudônimo de Argemiro, a identidade de Torres era inicialmente desconhecida dentro do grupo guerrilheiro, e ele foi confundido com um estrangeiro. No entanto, sua identidade foi posteriormente revelada aos guerrilheiros.[29]

Ao perceber, como explicou em sua "Mensagem aos Cristãos" publicada na primeira edição da Frente Unida, que "meios eficazes para o bem-estar das maiorias [...] não serão buscados pelas minorias privilegiadas que detêm o poder, porque geralmente esses meios eficazes forçam as minorias a sacrificar seus privilégios".
Torres concluiu que “é, portanto, necessário tirar o poder das minorias privilegiadas e entregá-lo às maiorias pobres” e que “a Revolução não é apenas permitida, mas obrigatória para os cristãos que veem nela o único caminho eficaz e abrangente para realizar o amor por todos”.[30] Desta forma, Camilo Torres justificou a sua decisão, em 1965, de se demitir do seu emprego como professor e padre e juntar-se ao movimento guerrilheiro, mais precisamente ao Exército de Libertação Nacional (ELN), embora anteriormente tivesse interesse em ingressar nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) devido à sua origem camponesa.[31]
Renunciei aos privilégios e deveres do clero, mas não deixei de ser sacerdote. Creio que me dediquei à Revolução por amor ao próximo. Deixei de celebrar a Missa para colocar esse amor ao próximo em prática nas esferas temporal, econômica e social. Quando o meu próximo não tiver nada contra mim, quando eu tiver cumprido a Revolução, voltarei a celebrar a Missa, se Deus permitir. Creio que, desta forma, estou seguindo o mandamento de Cristo: “Se estiveres apresentando a tua oferta no altar e ali te lembrares de que teu irmão ou irmã te tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com ele; depois volta e apresenta a tua oferta” (Mateus 5:23-24). – Camilo Torres, «Mensagem aos Cristãos», Frente Unida, no. 1, 26/08/1965, Bogotá.[30]
No ELN, Torres participou como membro de baixa patente, oferecendo apoio espiritual e ideológico a partir de uma perspectiva marxista-cristã. Contudo, seu desempenho como guerrilheiro foi fraco, pois não estava acostumado ao treinamento rigoroso e ao porte de fuzil. Recebeu apenas uma pistola, e seu papel como apoiador espiritual e ideológico, além de ter sido um bom cozinheiro.
Morte
Em 15 de fevereiro de 1966, Camilo Torres morreu em seu primeiro combate com a força pública, em Patio Cemento, Santander (Colômbia), após lutar com tropas da Quinta Brigada de Bucaramanga, quando guerrilheiros tentaram um ataque surpresa contra os soldados para tomar suas armas e eliminá-los. A Brigada era comandada pelo Coronel Álvaro Valencia Tovar, que, ironicamente, anos antes havia sido seu amigo de infância.[32][33] O seu corpo foi enterrado em um lugar secreto pelas autoridades militares, a fim de não dar um lugar de culta a figura do padre guerrilheiro.[14][34] Um funeral simbólico foi realizado na Igreja de San Diego, seguido de um sepultamento simbólico. Uma missa também foi celebrada no campus da Universidade Nacional.
Anos mais tarde, Valencia Tovar, já aposentado como general, escreveu o livro O Fim de Camilo, no qual esclareceu detalhes da morte de Camilo Torres. Segundo Valencia Tovar, Torres foi enterrado em um local específico e foram tomadas providências para entregar os restos mortais à família. Seu irmão mais velho, o médico Fernando Torres Restrepo, que morava nos Estados Unidos, foi informado sobre o destino do corpo.[34]
Segundo o próprio General Álvaro Valencia Tovar em entrevista à revista Semana,[35] o corpo de Camilo Torres fora exumado três anos após o seu enterro, com os seus restos mortais colocados numa urna e transportados para Bucaramanga onde foi criado o Panteão Militar da Quinta Brigada do Exército Nacional. Mesmo assim, Valencia Tovar não revelou a sua localização exata, gerando dúvidas sobre sua alegação.
Para Camilo, o cristianismo bem entendido supunha a criação de uma sociedade justa e igualitária. Isto o traduz como a obrigação de fazer uma profunda revolução, que despojaria do poder aos ricos e donos (a oligarquia), para dar-lhe passo a uma sociedade socialista.
Busca pelo corpo do Sacerdote
Em janeiro de 2016, o então presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, um parente distante dele, instruiu o Exército Nacional Colombiano a iniciar o processo de busca e exumação de seus restos mortais, em um gesto para acelerar o início das negociações de paz com o grupo guerrilheiro ELN.[11]
No início de 2016, o ELN, através da sua conta no Twitter, pediu ao governo a entrega dos restos mortais de Camilo, como um "gesto" para o início dos diálogos de paz, e à Igreja Católica que restituísse simbolicamente seu estado sacerdotal.[36]
Apenas 17 dias depois do pedido, foi revelado o lugar onde Camilo fora enterrado. Dario de Jesús Monsalve, Arcebispo de Cali, que faz parte de uma comissão eclesiástica autorizada a mediar com o ELN, declarou que a recuperação dos restos mortais de Camilo Torres seria um sinal de reconciliação.[19]
O bispo Luís Augusto Castro, presidente da Conferência Episcopal Colombiana, disse que iria estudar a questão da restituição do status sacerdotal.[37][38]
No dia 23 de janeiro de 2026, um comunicado do Exército de Libertação Nacional divulgava a informação de que o corpo do padre Camilo Torres Restrepo fora localizado após quase 60 anos.[1][14]
O Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, disse que o corpo do sacerdorte será respeitado e depositado com honras em um mausoléu construído em sua memória na Universidade Nacional da Colômbia.[1][14]

Família
Camilo Torres era filho do médico e educador Calixto Torres Umaña[15] (considerado o pai da pediatria na Colômbia) e de sua esposa Isabel Restrepo Gaviria, sendo seu único irmão Fernando Torres Restrepo.[16]
Entre seus parentes mais proeminentes destacam-se seu tataravô José Félix de Restrepo, pioneiro da Abolição da Escravatura na Colômbia, e entre seus descendentes, o ex-presidente Juan Manuel Santos[39] e o ex-vice-presidente Francisco Santos Calderón.
Homenagens e legado
Músicas
Em 1967, o cantor e compositor uruguaio Daniel Viglietti escreveu "Cruz de Luz", uma canção sobre Camilo Torres, que foi popularizada pelo cantor e compositor chileno Víctor Jara e pela costa-riquenha que fez carreira no México, Chavela Vargas. O cantor e compositor cubano Carlos Puebla também escreveu uma canção sobre Camilo intitulada "Camilo Torres". Há também a canção "A Camilo Torres", do grupo de música popular uruguaia Los Olimareños.[40]
Além disso, a canção "Cura y Guerrillero", do cantor e compositor mexicano José de Molina, é dedicada a Camilo Torres e a outros padres que continuam lutando pelos mesmos ideais.
De forma semelhante, o cantor e compositor venezuelano Alí Primera compôs as canções "Dispersos" e "Dios se lo cobra", que fazem referência a Camilo Torres.
"O Papa veio à Colômbia
o primeiro a beijar-lhe a mão
foi um senhor oligárquico
e Camilo, o sacerdote
aquele que não enganava a Deus
em um bolso da batina
um livro de Santo Tomás de Aquino
e no outro, no da esquerda
um livro de Karl Marx
buscava a semelhança
para oferecê-la a Deus"
– Trecho de Dios se lo cobra, de Alí Primera.
Edson Velandia compôs "Camilo de Chucurí" para contar a história de Camilo Torres e sua morte. Ele narra a história da música em um show em Sibaté (Cundinamarca).[41]
Movimentos
Na Colômbia, algum tempo depois de sua morte, foi fundado o Movimento Golconda, seguindo o exemplo de Camilo Torres.
Em 1970, na República Dominicana, foi fundado o Comitê Revolucionário Camilo Torres (Corecato), um grupo revolucionário composto por padres católicos e estudantes universitários que buscava confrontar a repressão do governo de Joaquín Balaguer. Entre seus membros estavam Carlos "Carlítico" Sánchez, que morreu pela causa marxista no Peru, e Amaury Germán Aristy, que enfrentou a polícia e o exército dominicanos por mais de dez horas antes de ser morto.

Em 1974, foi produzido um documentário colombiano dirigido por Francisco Norden, intitulado Camilo, o Padre Guerrilheiro, no qual sua vida é narrada por seus colaboradores mais próximos.
Homenagens nas universidades
- O teatro principal da Universidade de Antioquia recebeu o nome de Teatro Popular "Comandante Camilo Torres Restrepo".
- Um dos principais edifícios da Universidade Industrial de Santander chama-se "Edifício Camilo Torres"; numa das suas paredes exteriores, pode-se ver um grande mural com o seu rosto acompanhado de uma frase da sua autoria.
- Na Universidade do Valle, no campus de Cali, existe um busto comemorativo.
- A praça principal da Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia, localizada em Tunja, recebeu o nome de "Camilo Torres Restrepo".
- A praça principal da Universidade Pedagógica Nacional da Colômbia, em Bogotá, leva o seu nome e há uma placa com o seu nome em frente à biblioteca.

Monumento no Canto Latino, Barranquilla. - Na Praça Che, no campus da Universidade Nacional da Colômbia, em Bogotá, há um mural em homenagem a Camilo Torres Restrepo.
- Na sede da Escola Superior de Administração Pública (ESAP), em Bogotá, onde foi decano do Instituto de Administração Social, atual Faculdade de Administração Pública, o auditório principal leva o nome de "Camilo Torres Restrepo".
- Em Leuven, na Bélgica, onde Torres estudou sociologia por alguns anos, existe uma residência estudantil da Universidade Católica de Leuven que leva seu nome e onde vivem mais de 400 estudantes.
- A biblioteca da Faculdade de Ciências e Educação da Universidade Distrital Francisco José de Caldas chama-se "Biblioteca Comandante Camilo Torres Restrepo".
- Na Faculdade de Tecnologia da Universidade Distrital Francisco José de Caldas, existe uma praça com o seu nome, acompanhada de um mural em sua homenagem.
Homenagens na América Latina
A democracia sempre sobrevive na verdade, contada na história dos homens honrados que nos precederam. Meus pais me deram o nome em homenagem ao padre colombiano Camilo Torres Restrepo, que, por toda a vida, lutou por justiça social. Após quase 60 anos de seu desaparecimento e ocultamento do paradeiro, os restos mortais foram finalmente encontrados na Colômbia. Me emociona saber que, enfim, sua trajetória será honrada no mausoléu construído em sua memória na Universidade Nacional da Colômbia, que teve a primeira Faculdade de Sociologia da América Latina, fundada com apoio do padre Camilo.
2026-01-27[42]
- O Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, disse que o corpo do sacerdorte será respeitado e depositado com honras em um mausoléu construído em sua memória na Universidade Nacional da Colômbia.[43][44]
- As Unidades de Muralistas Camilo Torres, afiliadas ao partido Esquerda Cristã do Chile, trabalharam durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, criando murais de oposição ao regime, distinguidos por seus desenhos alegres, menos abstratos do que os usados pela Brigada Ramona Parra do Partido Comunista do Chile.
- De forma semelhante, no estado de Michoacán, no México, jovens fundaram na década de 1980 uma residência estudantil (que ainda existe) chamada "Casa del Estudiante Camilo Torres".
- O ministro da Educação do Brasil, Camilo Santana, publicou uma homenagem na rede social X, comentando a relação do padre com a origem do seu nome.[14]
Referências
- 1 2 3 Redação (27 de janeiro de 2026). «Corpo de Camilo Torres, liderança histórica do ELN, é encontrado na Colômbia após 60 anos desaparecido». Opera Mundi. Consultado em 3 de fevereiro de 2026
- ↑ “Camilo Torres foi a figura paralela a Che Guevara”. Entrevista com Enrique Dussel, acesso em 23 de fevereiro de 2016.
- ↑ Arcebispo de Cali pede uma homenagem à memória do padre Camilo Torres, acesso em 26 de fevereiro de 2016.
- ↑ , acesso em 26 de fevereiro de 2016.
- 1 2 Camilo Torres Restrepo e o Processo de Paz na Colômbia. Artigo de François Houtart, acesso em 26 de fevereiro de 2016.
- ↑ Tonny. «15 de fevereiro de 1966». www.ihu.unisinos.br. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- ↑ «¿Quién es Camilo Torres y cuánto tiempo estuvo en el Eln?». www.radionacional.co. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- ↑ «Camilo Torres el periodista : Escritura y comunicación en el Frente Unido del Pueblo (1965)». repository.javeriana.edu.co. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- ↑ «Wayback Machine» (PDF). www.ucentral.edu.co. Consultado em 24 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 4 de março de 2016
- ↑ «Camilo Torres, primer sacerdote guerrillero». www.banrepcultural.org. 21 de julho de 2017. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 «¿Dónde está el cuerpo de Camilo Torres, el cura guerrillero colombiano al que comparan con el Che Guevara?». BBC News Mundo (em espanhol). 15 de fevereiro de 2016. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- ↑ Orillas, Las Dos (14 de fevereiro de 2016). «El combate en el que cayó Camilo Torres hace 50 años» (em espanhol). Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- ↑ «Tras 60 años, identifican restos del 'cura guerrillero' Camilo Torres, símbolo de la izquierda colombiana». France 24. 17 de fevereiro de 2026. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 5 Bloc, Marcelo; marcelo-bloc (28 de janeiro de 2026). «Achados restos mortais de padre que inspirou nome de Camilo». O POVO. Consultado em 3 de fevereiro de 2026
- 1 2 O "descanso" de Camilo Torres, o padre guerrilheiro, acesso em 26 de fevereiro de 2016.
- 1 2 «[MIA] "BIOGRAFÍA POLÍTICA DE CAMILO TORRES RESTREPO" por Edgar Camilo Rueda Navarro.». www.marxists.org. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 Semana (11 de dezembro de 1980). «El cura guerrillero». Semana.com - Últimas Noticias de Colombia y el Mundo (em espanhol). Consultado em 24 de fevereiro de 2026
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- ↑ Camilo Santana [@CamiloSantanaCE] (27 de janeiro de 2026). «A democracia sempre sobrevive na verdade, contada na história dos homens honrados que nos precederam. Meus pais me deram o nome em homenagem ao padre colombiano Camilo Torres Restrepo, que, por toda a vida, lutou por justiça social. Após quase 60 anos de seu desaparecimento e ocultamento do paradeiro, os restos mortais foram finalmente encontrados na Colômbia. Me emociona saber que, enfim, sua trajetória será honrada no mausoléu construído em sua memória na Universidade Nacional da Colômbia, que teve a primeira Faculdade de Sociologia da América Latina, fundada com apoio do padre Camilo.» (Tweet) – via Twitter
- ↑ Redação (27 de janeiro de 2026). «Corpo de Camilo Torres, liderança histórica do ELN, é encontrado na Colômbia após 60 anos desaparecido». Opera Mundi. Consultado em 3 de fevereiro de 2026
- ↑ Bloc, Marcelo; marcelo-bloc (28 de janeiro de 2026). «Achados restos mortais de padre que inspirou nome de Camilo». O POVO. Consultado em 3 de fevereiro de 2026


