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Bukelismo
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Bukelismo | |
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| Líder | Nayib Bukele |
| Fundação | 25 de outubro de 2017 |
| Ideologia | |
| País | El Salvador |
| Afiliação nacional | Nuevas Ideas |
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Cargos políticos
Eleições
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O termo bukelismo é utilizado informalmente para descrever a orientação e as políticas públicas implementadas pelo governo de Nayib Bukele na república de El Salvador. Diversos veículos de comunicação, analistas e atores políticos empregam esse termo para se referir a um modelo que combina autoritarismo,[8] uma postura heterodoxa em relação à política econômica[9] e uma rejeição acentuada à divisão tradicional entre capitalismo e socialismo em favor do personalismo eleitoral.[1]
Definição e origens
O termo bukelismo começou a surgir na cobertura midiática de El Salvador algum tempo após a apresentação do Plan Control Territorial (PCT ou "Plano de Controle Territorial") — uma das estratégias iniciais de segurança da gestão Bukele —, que visava reduzir os altos índices de criminalidade que assolavam o país no início de seu mandato.[10][11]
À medida que outras ações foram implementadas – tais como a introdução do bitcoin como um ativo estatal e a imposição de um estado de exceção em nome da segurança pública – observadores externos e internos começaram a descrever estas iniciativas como uma doutrina política em formação.[12] Na atualidade, embora hoje esteja ideologicamente alinhado às pautas da extrema-direita,[13] o bukelismo já foi comparado ao peronismo, corrente política argentina capaz de abrigar em seus quadros desde neoliberais até esquerdistas.[14]
O bukelismo também se utiliza de quatro estratégias do autoritarismo clássico,[15] descritas por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, para a tomada e consolidação do poder numa democracia:[16]
- rejeição, por palavras ou ações, das regras do jogo democrático;[16]
- negação da legitimidade de opositores políticos;[16]
- tolerância e/ou encorajamento da violência; e[16]
- predisposição para cercear liberdades civis de opositores, incluindo da imprensa.[16]
Deve-se ressaltar que, numa sondagem pós-reeleição de Bukele em 2024, 42% dos salvadorenhos entrevistados afirmaram "não saber o que é a democracia", e apenas 9,6% a definiram como "poder eleger governantes".[9]
Aspectos do bukelismo

Dentre as características apontadas no bukelismo, analistas e pesquisadores ressaltam as seguintes:
Autoritarismo
Muito mais do que uma defesa do "estado forte" ou dos "interesses nacionais", como alegam seus apoiadores, o bukelismo seria principalmente a manifestação da vontade do governante e a criação de uma estratégia de comunicação voltada para a sua autopromoção.[1] O próprio Bukele conduziu uma alteração na Constituição de El Salvador, aprovada por juízes do Tribunal Superior Eleitoral salvadorenho, leais a ele, o que lhe permitiu se candidatar à reeleição, algo vetado no país desde o fim da ditadura militar.[17] Às críticas de que isso seria "inconstitucional e autoritário", Bukele respondeu com ironia, afirmando ser o "ditador mais legal do mundo"[9] e que não lhe importava ser chamado de ditador se isso evitasse que matassem "salvadorenhos nas ruas".[18]
O bukelismo faz uso intensivo de redes sociais e estratégias de marketing digital para direcionar a opinião pública a seu favor e das políticas que deseja implementar.[1][19] No caso específico de Nayib Bukele, muito auxiliou na definição da sua estratégia política o fato de ter começado a trabalhar aos 18 anos na Obermet, agência de publicidade de seu pai, o empresário Bukele Kattán, e onde começou a dirigir campanhas publicitárias eleitorais em 2004. Curiosamente, a agência produziu durante muitos anos a propaganda política da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), histórico partido da esquerda salvadorenha. E foi justamente pela FMLN que Nayib Bukele conquistou seu primeiro cargo público, elegendo-se prefeito de Nuevo Cuscatlán (2012-2015), e posteriormente, de San Salvador (2015-2018).[8]
Ao ser reeleito em 2024, Bukele afirmou que não pretendia concorrer a um terceiro mandato, por ter feito "um acordo" com a esposa.[20] Todavia, em 12 de julho de 2026, o partido Nuevas Ideas anunciou que o presidente iria sim, se candidatar ao cargo em fevereiro de 2027, após ser confirmado como pré-candidato "em eleições internas nas quais ele concorreu sozinho".[21] Com a destituição de juízes da Suprema Corte[22] e emendas constitucionais aprovadas em julho de 2025, ficou extinto o segundo turno das eleições, e um terceiro mandato ou mesmo a reeleição indefinida passaram a ser permitidos,[23] o que ressalta o controle de Bukele sobre o legislativo e a "maioria das instituições do país":[21] reeleito com 82,66% dos votos em 2024 (embora a abstenção tenha sido de 47,4% do eleitorado),[17] aliados de Bukele conquistaram 57 cadeiras das 60 do parlamento salvadorenho, transformando a oposição ao seu governo em mera peça decorativa.[23]
Ademais, opositores do regime tem sido perseguidos e presos, como no caso de Ruth López, advogada de uma ONG que "investigava supostos casos de corrupção estatal" e que atuava na defesa de venezuelanos deportados pelo governo Trump para El Salvador. Bukele ironizou as críticas recebidas, dizendo que "qualquer opositor corrupto levado para a prisão é um perseguido político. Trabalhar em uma ONG agora é sinônimo de impunidade". Outro opositor, Fidel Zavala, líder da Unidade de Defesa dos Direitos Humanos e Comunitários (UNIDEHC), foi preso em fevereiro de 2025 sob a acusação de ter vínculos com gangues.[18] Um ex-assessor de Bukele, Alejandro Muyshondt, preso em agosto de 2023 sob acusações de espionagem depois de acusar publicamente membros do governo salvadorenho de corrupção e ligações com o narcotráfico, morreu na prisão em 7 de fevereiro de 2024.[24] Segundo a advogada da família de Muyshondt, o corpo apresentava "diversas contusões", e que isso seria "evidência de que ele foi torturado de alguma forma".[17]
Antipolítica
O bukelismo se vende como "antissistema" e fora (ou acima) do debate ideológico ("não acredito em ideologias", diz o próprio Bukele).[8] Todavia, políticos que se identificam com o bukelismo e suas práticas, estão majoritariamente à direita (ou extrema-direita) do espectro político, como Javier Milei, Donald Trump, Jair Bolsonaro[25] e seus filhos, Flávio e Eduardo,[26] além de apoiadores, como Nikolas Ferreira.[27][28]
Ainda nesse âmbito, o discurso bukelista também incorporou outro tema caro à direita "antipolítica", o "combate à corrupção".[29] Após "vencer a guerra" contra as maras (gangues),[18] seu próximo passo agora seria atacar a corrupção em El Salvador. Como afirmou num discurso em maio de 2026, "há roubos, contrabando, sonegação fiscal, corrupção. Há fraudes, poluição ambiental, por parte de pessoas e por parte de empresas, e isso nós não erradicamos. Esse será o próximo passo".[30] E, da mesma forma que em casos de políticos que se utilizam da retórica anticorrupção, o bukelismo tem sido acusado de envolvimento em escândalos de corrupção em El Salvador, os quais incluiriam familiares do presidente e o próprio Nayib Bukele.[9][28]
O bukelismo também nega legitimidade a interlocutores da sociedade civil, cujo reconhecimento tácito faz parte do jogo democrático. Tentativas de diálogo sobre segurança pública efetuadas tanto pela Anistia Internacional quanto pela Human Rights Watch, foram respondidas por Bukele com "agressões e ataques nas redes sociais" ou com insultos feitos por funcionários do seu governo. Críticas feitas por organizações de direitos humanos e pela imprensa em relação às suas políticas de enfrentamento à violência (decretação de estado de emergência e de prisões sem mandado, por exemplo), foram classificadas pelo presidente como tentativas de "proteger o crime organizado".[31]
Economia

Diferentemente da redução da criminalidade com a adoção de medidas autoritárias, as medidas econômicas promovidas por Bukele fracassaram, e portanto não costumam ser lembradas pelos apoiadores externos do bukelismo. El Salvador já havia dolarizado a sua economia em 2001, quando substituiu a moeda nacional, o colón, pelo dólar estadunidense. Bukele foi além, e em 2021 adotou o bitcoin como moeda legal;[32] a medida, contudo, não trouxe um retorno econômico significativo e acabou sendo abandonada em 2025, no contexto de uma negociação com o FMI em troca de um empréstimo de US$ 1,4 bilhão.[33] Segundo Alejandro Álvarez, diretor do departamento de Economia da Universidade Centro-Americana, a pobreza aumentou de 18% para 24% entre 2022 e 2023 (com 52% da população, 3,3 milhões de pessoas, em situação de estresse alimentar[33]), e a dívida externa atingiu US$ 30 bilhões de dólares, além dos juros.[9]
Mesmo com a redução dramática da criminalidade, o investimento externo continua a ser um dos mais baixos da região, inferior mesmo em comparação com a Nicarágua;[9] em 2023, o investimento estrangeiro direto (IED) foi de 1,66% do PIB, valor muito abaixo dos 7,56% em 2017 (antes da eleição de Bukele) e dos 17,96% investidos em 2007.[34] Além disso, estrangeiros continuam precisando contratar segurança privada, e a dolarização da economia encarece o investimento em El Salvador,[9] tornando-o mais caro do que na Guatemala ou em Honduras.[34]
Outro fator negativo apontado por economistas como Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central de Reserva (BCR, o Banco Central salvadorenho), é a ausência de uma política estatal que atraia "investimentos sérios". Outra economista salvadorenha, Tatiana Marroquín, assinala que "a queda na criminalidade não implica em um aumento no investimento. Os homicídios diminuíram, mas o investimento estrangeiro não aumentou e, na verdade, diminuiu em relação aos dados históricos". Além disso, Marroquín pondera que nem todo investimento estrangeiro é desejável, não sendo interessante promover "um tipo de turismo que desloca populações e não gera crescimento ou desenvolvimento".[34]
O acordo firmado com o FMI em 2024 implicou na adoção de medidas de austeridade, que até meados de 2026 haviam provocado a demissão de cerca de 15 mil funcionários públicos (as demissões no funcionalismo são calculadas em 47.000 desde 2019, quando Bukele venceu sua primeira eleição presidencial).[35] Em junho de 2026, a inflação em doze meses era de 2,76% e a cesta básica custava US$ 260,00,[35] para um salário mínimo que, para os empregados da indústria, comércio e serviços estava fixado em US$ 408,80.[36] Em 2025, El Salvador foi uma das economias que menos cresceram na América Central (3,9%), com a expectativa de crescer ainda menos (2,9%) em 2026. O impacto no custo de vida só não foi maior porque o governo criou uma rede de mercados agrícolas que vendem produtos a preços subsidiados; este cenário adverso, onde apenas a construção civil e o turismo continuam a apresentar números positivos (24% e 10%, respectivamente) pode levar Bukele a fazer um "ajuste fiscal poderoso" para reduzir o déficit público caso seja reeleito em fevereiro de 2027.[35]
Modernização
Outro aspecto propalado pelo bukelismo e seus apoiadores é o da "modernização institucional", que nada mais seria, segundo estudiosos, do que o "novíssimo laboratório" do neoliberalismo na América Latina. Neste "novo" neoliberalismo, o Estado deixa de ser mínimo e passa a ser "um dispositivo organizacional onde o mercado aparelha o Estado para impor sua lógica também na cidadania" (como na Argentina de Milei[37]), resultando em "variados níveis de insegurança social", "fragmentação do trabalho", "políticas de austeridade" e até mesmo em "questões etnonacionais" (o caso do etnocacerismo do Peru, por exemplo). Conforme Wacquant (2012),[38] essa "reengenharia" do Estado articularia quatro lógicas institucionais:[39]
- "desregulamentação econômica (rerregulamentação do mercado e das atividades humanas)";[39]
- "delegação, retração e recomposição do estado de bem-estar (beneficiários tratados não como cidadãos, mas como clientes ou súditos)";[39]
- "alegoria cultural da responsabilidade individual";[39] e
- "aparato penal em expansão, invasivo e proativo".[39]
Este "estado-centauro" (libertador em cima, para os grupos dominantes, e penalizador embaixo, para os subalternos) tende para a direita e para o autoritarismo, porque precisa reprimir movimentos sociais contrários às suas políticas de desregulamentação, redução de políticas sociais e precarização do trabalho. Por conta disso, também precisa aumentar o orçamento para as forças de segurança pública, encarregadas da repressão, bem como expandir e agilizar as possibilidades de encarceramento.[39]
No caso de El Salvador, o fortalecimento das forças de segurança se deu através do "Plano de Controle Territorial" (PCT), cuja manutenção em 2020 levou Bukele a invadir o congresso, acompanhado de soldados e policiais, para pressionar pela aprovação de um empréstimo de US$ 109 milhões.[40] A continuidade do PCT e a conquista da maioria legislativa em 2021, pareceu assegurar o controle da criminalidade no país; isto, contudo, acabou em março de 2022, quando as gangues se rebelaram por descumprimento de acordos firmados com a polícia, e mataram 87 pessoas em três dias. Em resposta, Bukele implementou um regime de exceção, ainda vigente, com "suspensão de garantias constitucionais, detenções sem ordem judicial", julgamentos coletivos, suspensão do direito de defesa, da inviolabilidade de correspondência, da liberdade de associação e circulação, interferência nas telecomunicações sem ordem judicial, e sigilo sobre prisões e locais de detenção.[39]
Como estas medidas trouxeram uma expressiva redução dos índices de homicídio, El Salvador tornou-se uma referência entre políticos de direita e extrema-direita da América Latina, e ao menos inicialmente, teve grande apoio dos salvadorenhos. Todavia, também ficou claro que a suposta modernização promovida no Estado, era apenas uma forma de calar opositores e concentrar poder nas mãos do homem-forte do regime e seu grupo político: a espionagem digital foi legalizada (com o uso da ferramenta israelense Pegasus por policiais), as informações estatais do Instituto de Acesso à Informação Pública foram classificadas como "reservadas", e a adoção em 2021 da criptomoeda Bitcoin como moeda legal, foi posteriormente apontada como um risco para a transformação do país em paraíso fiscal e de lavagem de dinheiro.[39]
A suposta modernização também atingiu a revitalização do Centro Histórico de San Salvador (controlado por uma agência ligada ao poder executivo), onde a polícia persegue vendedores ambulantes. País com uma das maiores taxas de trabalho informal da América Latina e do Caribe (em torno de 70%,[41] embora no discurso oficialista ressalte-se que a população empregada seja de cerca de 97%[42]), a iniciativa desalojou milhares de vendedores informais para que a área fosse "modernizada" para receber turistas.[39]

A priorização da segurança pública e da defesa também impactou negativamente a educação pública salvadorenha: em 2022, o presidente prometeu reformar cinco mil escolas dentro do programa Mi Nueva Escuela; contudo, até 2024 apenas 8% do previsto havia sido cumprido, e houve um corte de US$ 30 milhões no orçamento da educação. Além disso, não havia informações oficiais sobre os valores investidos nas reformas, justificativas por atrasos no cronograma ou pela não execução dos recursos empenhados. A única universidade pública do país, a Universidade de El Salvador (UES), denunciou os cortes recebidos, que prejudicaram o pagamento de fornecedores e das bolsas de estudo de cerca de 1.200 estudantes vulneráveis economicamente.[39]
A propalada modernização também atingiu o abastecimento de água no país, em favor dos interesses de mineradoras. Em 2017, a Assembleia Legislativa de El Salvador aprovou lei proibindo todos os tipos de mineração no país, para proteger os cursos d'água nacionais, 83% dos quais ainda em 2023 estavam em condições precárias. Todavia, em 2023, o bukelismo iniciou uma ofensiva contra o ativismo anti-mineração, cujos líderes foram presos e processados "por uma equipe especializada em crimes de guerra criada por Bukele".[43] O orçamento do Ministério do Meio Ambiente e da Autoridade Hídrica de El Salvador também foi reduzido, com a justificativa de que a "mineração sustentável" iria financiar a preservação do meio ambiente no país. Finalmente, em 2025, nova lei aprovou o reinício das atividades de mineração em El Salvador.[39]
Narrativa

O bukelismo, como outros regimes personalistas, também procura ressignificar partes da história que considera inconvenientes. Em 16 de dezembro de 2021, Bukele caracterizou como "farsa" os Acordos de Paz assinados em 1992 entre o governo de El Salvador e os guerrilheiros da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), com intermediação da ONU. O presidente declarou no Twitter que a data não marcaria o fim de 12 anos de guerra civil, mas sim um "acordo entre atores corruptos", e que deveria ser lembrada apenas pelos mortos e desaparecidos durante os conflitos.[44] Como os Acordos de Paz não só viabilizaram uma sociedade salvadorenha muito mais democrática, com separação de poderes, oposição política e mecanismos de controle institucional,[45] o que permitiu em última análise que uma figura como Bukele ascendesse ao poder, mas que também restringiram a atuação das forças armadas à defesa nacional, os ataques lançados pelo presidente e sua base política denotavam seu desapreço pelos avanços institucionais dos últimos trinta anos, por pequenos que fossem.[44] Uma evidência clara dessa guinada autoritária ocorreu na invasão do Congresso por Bukele, acompanhado de soldados armados, e também no apoio dado aos militares, que se recusaram a cumprir uma ordem judicial obrigando-os a abrir seus arquivos numa investigação pelo massacre de El Mozote,[46] quando tropas do exército salvadorenho mataram cerca de 1.000 pessoas no povoado homônimo, numa ação contra a guerrilha.[45]
Em 2022, quando se completaram 30 anos do evento, o congresso controlado pelos bukelistas anulou qualquer possibilidade de comemoração do mesmo, substituindo-o por um "Dia Nacional das Vítimas do Conflito Armado". Analistas apontam que esta atitude poderia representar "um plano elaborado para sepultar o que resta dos partidos Aliança Republicana Nacionalista e FMLN", herdeiros diretos da redemocratização, numa tentativa de "reescrever a história recente de El Salvador com a ascensão de Bukele à presidência como o ano zero". Outra consequência dos Acordos de Paz seria a criação de uma "consciência cidadã", que se constituiria numa possibilidade da sociedade salvadorenha de fazer frente aos impulsos autoritários de Bukele.[45] As tentativas de reescrever o passado por parte do bukelismo não se limitariam aos Acordos de Paz: massacres em que o exército esteve envolvido, como El Mozote, em 1981, ou o da UCA (Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas), em 1989, fizeram com que Bukele anunciasse a reabertura das investigações, sem que nada de concreto tenha sido feito desde então. Afinal, as forças armadas são o principal braço de sustentação do governo de Bukele, e para que não houvessem dúvidas, o ministro da defesa René Merino Monroy, um fiel aliado do presidente, não hesitou em condecorar e chamar de herói Juan Orlando Zepeda, um dos militares de patente mais alta quando ocorreu o massacre da UCA.[45]
Da mesma forma que os governos militares dos anos 1960-1980, o bukelismo ressuscitou o conceito do "inimigo interno", que pode ser utilizado contra qualquer um que se arvore em oposição política. Uma das vítimas habituais dessa estratégia tem sido a imprensa independente salvadorenha, simbolizada pelo periódico online El Faro. Em 2022, pouco depois da celeuma levantada pelos Acordos de Paz, revelou-se que 22 jornalistas do ciberjornal haviam sido espionados através do spyware Pegasus, instalado em seus celulares. O governo de Bukele negou que houvesse adquirido o software israelense, mas coincidentemente o uso mais intensivo da ferramenta de espionagem ocorreu quando El Faro investigava o presidente e seus correligionários mais próximos sobre temas sensíveis, como o suposto pacto de governabilidade que mantém com as gangues MS13 e Barrio 18.[45]
Ao declarar que não acreditava em ideologias[8] e trabalhar pelo apagamento dos Acordos de Paz, Bukele parece também querer esconder uma parte essencial do próprio passado: José Luis Merino,[47] ex-comandante da esquerdista FMLN e que depois se tornou um dos operadores financeiros do chavismo, "foi um dos principais padrinhos políticos e financeiros do presidente". E Herbert Saca,[48] "operador da direitista ARENA, foi quem, com dinheiro público, criou o partido político que levou Bukele a presidência". Conforme dito pelo jornalista do Infobae, Héctor Silva Ávalos:[45]
| “ | Nessa nova versão da história que Bukele e seus seguidores querem reescrever, há muito silêncio conveniente, uso autoritário do Estado, perseguição de inimigos e memória seletiva. Exatamente como antes da assinatura dos Acordos de Paz.[45] | ” |
Punitivismo

O encarceramento em massa é um dos carros-chefe do discurso bukelista e da sua política de segurança pública. Além da repressão às gangues, a construção de enormes prisões como o "Cecot", Centro de Confinamento do Terrorismo, o maior das Américas e projetado para acomodar 40 mil detentos em condições descritas como "deploráveis", seria a resposta mais rápida para reduzir os altos índices de violência de El Salvador. Segundo Bukele, aquele que era o "país mais perigoso do mundo, tornou-se o mais seguro da América Latina". Para isso, encarcerou um em cada 57 salvadorenhos, o maior índice de detenção do mundo, em julgamentos céleres muitas vezes envolvendo centenas de acusados e com penas chegando a centenas de anos de reclusão.[20]
ONGs de El Salvador denunciam também grande número de desaparecidos, torturas, abusos sexuais[49] e mortes sob custódia do estado (265, entre 2022 e 2024) e prisão de suspeitos (1.500) que não integrariam as maras, como se fizessem parte das mesmas. Importante ressaltar que para obter a propalada pacificação no país, o governo teria feito acordos secretos com as lideranças das gangues; a quebra de um desses acordos teria levado a um endurecimento do regime e ao estabelecimento do estado de emergência em 2022.[20]
Além disso, sob o bukelismo, El Salvador tornou-se destino para prisioneiros acusados de terrorismo pelo governo Trump, mesmo quando sua deportação foi expressamente proibida pela justiça dos Estados Unidos (o caso de Kilmar Abrego Garcia, por exemplo).[50] Conforme ressalta uma reportagem do G1, "sob o governo Trump, que terceiriza os imigrantes deportados, o autoritário Bukele também escapa livremente do escrutínio de suas políticas internas".[13] Em relação a imigrantes salvadorenhos indocumentados nos EUA, o número de deportados saltou de 2.547 em 2025 para 5.033 apenas nos três primeiros meses de 2026, um incremento de 98%.[51]
Críticas
Embora amplos setores da sociedade salvadorenha apoiem o conjunto de políticas que tem sido chamado de bukelismo, elas também recebem críticas de organizações internacionais de direitos humanos, analistas políticos, setores acadêmicos locais e oponentes políticos. As principais críticas incluem:[11]
- Concentração de poder: observadores apontam para um enfraquecimento da democracia por conta do autoritarismo personificado no presidente; embora a ascensão de Bukele à presidência de El Salvador e sua reeleição tenham ocorrido por meio de eleições consideradas livres e democráticas pela comunidade internacional, o mesmo tem se valido de diversos expedientes para ampliar o seu poder e se perpetuar no cargo;[11][52][53][54]
- Riscos para os direitos humanos: a Anistia Internacional e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos manifestaram preocupação com a utilização de estados de emergência para combater o crime organizado.[11][55][56]
Por outro lado, os defensores do bukelismo sustentam que os desafios do país — particularmente as altas taxas de criminalidade e os serviços públicos inadequados — justificam a adoção de soluções rápidas e decisivas. Eles também argumentam que a aprovação pública reflete a legitimidade de sua abordagem em áreas como segurança, turismo e transformação digital.[57]
Recepção e projeção internacionais
A comunidade internacional, particularmente populistas de direita, tem demonstrado interesse em certos resultados das políticas de segurança associadas ao bukelismo, particularmente a queda nas taxas de homicídio. Vários políticos e chefes de Estado levantaram a possibilidade de adotar estratégias de "mão de ferro" contra o crime.[58][59][60] Da mesma forma, Bukele tem utilizado uma retórica de não interferência, defesa da soberania estatal e a rejeição do que denomina neocolonialismo, quando confrontado com o cumprimento de compromissos internacionais de direitos humanos.[61]
No Brasil, adeptos do populismo penal, como Renan Santos,[62] Tarcísio de Freitas e Eduardo Bolsonaro, citaram publicamente as iniciativas de Bukele contra a criminalidade como um exemplo a ser seguido no país.[63][64] Todavia, especialistas em segurança pública advertem para o fato de que a estratégia adotada num país de 6 milhões de habitantes governado por um autocrata personalista dificilmente poderia ser empregada em outras realidades sem o uso de medidas políticas que poderiam se revelar inviáveis. A pesquisadora Sonja Wolf da Universidade Pan-Americana da Cidade do México, autora de Mano Dura, onde analisa a política de controle das gangues de El Salvador, ressalta que o "modelo Bukele" não é um modelo, mas uma "autocracia eleitoral", um "regime de exceção onde, para se manter no poder, é preciso demonstrar que ele conta com o apoio do 'povo'".[65]

Daniel Noboa, presidente do Equador, tentou adaptar a fórmula em 2023, logo após tomar posse. Após declarar um "conflito armado interno", militarizou a segurança pública, liberou as detenções em massa e anunciou a construção de novas prisões de segurança máxima. Os resultados, contudo, foram decepcionantes: o índice de homicídios passou de 8 por 100 mil habitantes em 2020, para 45 em 2023. Em 2025, aumentou para 51 por 100 mil, o ano mais violento da história recente do país.[65] Em Honduras da então presidente Xiomara Castro, os resultados foram ainda mais decepcionantes: 23 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2025, o que o torna num dos países mais violentos da América Central.[65] Ambos os insucessos foram explicados pela diretora para as Américas da Human Rights Watch, Juanita Goebertus:
| “ | O chamado 'modelo Bukele' não se baseia apenas nas prisões em massa. Ele também traz concentração de poder, debilitação da supervisão judicial, dezenas de milhares de pessoas detidas sem processo devido e até acordos secretos com gangues. (...) Esta não é uma estratégia sustentável de segurança pública. Os homicídios diminuíram em El Salvador, mas às custas da debilitação das instituições necessárias para garantir a segurança duradoura.[65] | ” |
A mais recente adepta do "modelo Bukele" é Keiko Fujimori, eleita presidente do Peru. Ao assumir o cargo, em 28 de julho de 2026, a filha do ditador Alberto Fujimori deixou claro em seu discurso de posse que seguirá uma política de "linha dura", para "conter a alta taxa de criminalidade e o crime organizado que assolam o país". Entre as medidas anunciadas, estão a construção de unidades prisionais inspiradas no CECOT salvadorenho e tribunais com juízes mascarados, para julgar "casos de alto risco sem o risco de represálias contra os magistrados".[66]
Ver também
Nota
- Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em castelhano cujo título é «Bukelismo», especificamente desta versão.
Referências
- 1 2 3 4 Luján, Diego; Puig Lombardi, Gonzalo (2024). «El encanto del personalismo: explicando el ascenso de Nayib Bukele en El Salvador». América Latina Hoy (em espanhol). 94. doi:10.14201/alh.31891. Consultado em 9 de julho de 2026. Cópia arquivada em 14 de julho de 2026
- ↑
- Pereira, Anthony W. (2 de junho de 2023). Right-Wing Populism in Latin America and Beyond (em inglês). [S.l.]: Taylor & Francis. ISBN 978-1-000-89029-7. Consultado em 21 de agosto de 2026
- «El populismo de Nayib Bukele». JSTOR (em inglês). Consultado em 21 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 30 de dezembro de 2025
- ↑ Fraga, Cesar Augusto de Lara (28 de maio de 2026). «Exploração do medo, populismo penal e democracia em disputa». Extra Classe. Consultado em 21 de agosto de 2026
- ↑ «Entenda a política 'tolerância zero' que Bukele adotou para o combate ao crime em El Salvador». gauchazh.clicrbs.com.br. Consultado em 21 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 13 de junho de 2024
- ↑
- Vida, Melissa (4 de junho de 2019). «Amongst Salvadorans in the US, Opinion Is Split on Conservative New President Nayib Bukele». Remezcla (em inglês). Consultado em 21 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 12 de junho de 2026
- Ioanes, Ellen (24 de fevereiro de 2024). «How US conservatives fell for two of Latin America's most controversial leaders». Vox (em inglês). Consultado em 21 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 15 de julho de 2026
- ↑ «Latin America's new hard right: Bukele, Milei, Kast and Bolsonaro». The Economist. ISSN 0013-0613. Cópia arquivada em 20 de julho de 2025
- ↑ «Bukele Wins: Out With the Old, In With the New». www.idea.int (em inglês). Consultado em 10 de fevereiro de 2024. Cópia arquivada em 16 de janeiro de 2026
- 1 2 3 4 Ventas, Leire (5 de fevereiro de 2024). «Bukele: 3 coisas que você talvez não saiba sobre presidente de El Salvador». BBC Brasil. Consultado em 9 de julho de 2026. Cópia arquivada em 22 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 García Casas, Luis (31 de maio de 2024). «Economia é o maior desafio do segundo mandato de Bukele». Deutsche Welle. Consultado em 9 de julho de 2026. Cópia arquivada em 2 de agosto de 2025
- ↑ Phillips, Tom (7 de fevereiro de 2025). «Bukele-mania: El Salvador strongman's crime clampdown excites regional right». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Consultado em 27 de março de 2025
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Impulsionado por sua popularidade digital e um discurso fortemente antiestablishment, Bukele não apenas venceu as eleições presidenciais de 2019 em primeiro turno, como também foi reeleito em 2024 com ampla margem de apoio. A essência desses resultados está na adoção de uma espécie de “autoritarismo millennial”, conceito cunhado por Meléndez-Sánchez (2021) para descrever regimes que combinam práticas autoritárias — como a rejeição das regras democráticas, a deslegitimação da oposição, o incentivo à violência e a disposição para restringir liberdades civis — com uma marca pessoal moderna, construída, principalmente, por meio das redes sociais (Meléndez-Sánchez, 2021, p. 21).
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Ligações externas
- Perez Oliveira, Rodrigo (3 de junho de 2025). «O efeito Bukele no debate político brasileiro». Fórum. Consultado em 9 de julho de 2026
