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Licosídeos
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Os licosídeos (nome científico: Lycosidae) são uma família de aranhas, vulgarmente chamadas aranhas-lobo,[1] tarântulas ou aranhas-caranguejeiras (no Brasil).[2] São filogeneticamente próximos dos pisaurídeos, com os quais apresentam grandes semelhanças.[3] No entanto, as aranhas-lobo carregam seus sacos de ovos prendendo-os às fieiras, enquanto as dos pisaurídeos carregam seus sacos de ovos com suas quelíceras e pedipalpos.
Etimologia
A aranha originalmente chamada de "tarântula" foi a tarântula-do-mediterrâneo (Lycosa tarantula), uma aranha-lobo da família dos licosídeos nativa da Europa mediterrânica. Esse termo foi registrado pela primeira vez, em italiano, como tarantola no século XIV. Geralmente se considera que tarantola derivou do topônimo italiano Taranto (originado no latim tarento, a partir do genitivo grego tarantos, provavelmente a partir do ilírio darantos, "carvalho"[4]), uma cidade do sul da Itália, acrescido do sufixo -ola, onde estas aranhas são facilmente encontradas, embora possa ter igualmente derivado do gaulês reconstruído *tarāre, no sentido de "picar", “furar” ou "ferir com a boca", ou do francês tare, na acepção de "defeito" ou "deficiência biopsíquica". Seu primeiro registro em português ocorreu em 1702, como tarantola. Na crença popular, a picada da tarântula-do-mediterrâneo foi associada à indução de febre, dança e música, levando a manifestações coletivas de delírio convulsivo e movimentos frenéticos de dança (tarantismo).[2] Durante muito tempo acreditou-se, no sul da Europa, que uma pessoa picada pela tarântula seria tomada de extrema melancolia e poderia mesmo morrer se não se entregasse a uma dança frenética, a tarantela, capaz de eliminar o veneno pela transpiração.[5][6]
Posteriormente, o termo tarântula foi aplicado a quase todas as espécies de aranhas de grande porte, sobretudo as migalomorfas das regiões mais quentes da América (p. ex. licosídeos e terafosídeos), e alguns indivíduos do grupo das araneomorfas.[7][8] No Brasil, os terafosídeos são também referidos por vários outros nomes populares, como aranhaçu, aranhuçu, migala, mígala, aranha-caranguejeira ou somente caranguejeira.[9] Aranhaçu ou aranhuçu são termos híbridos, formados pelo nome latino aranha (aranĕus) com o sufixo tupi -uçu, com sentido de "aranha grande". Seu primeiro registro ocorreu no século XX.[10] Migala ou mígala derivam do grego mugalḗ (μυγαλή), no sentido de "musaranho" (tem relação com o latim musaranĕus, -i, "rato peçonhento", formado por mus ("rato") + aranĕus ("aranha")). Seu primeiro uso conhecido é de 1873, como mygala.[11] Por fim, caranguejeira é formada por "caranguejo" mais o sufixo -eira e foi registrada em 1608 como caranguejeira e em 1853 como carangueijeira.[12]
Descrição
Os muitos gêneros de aranhas-lobo variam em tamanho corporal (pernas não incluídas), de menos de 10mm a 35 mm.[13][14] Elas têm oito olhos, dispostos em três fileiras. A fileira inferior é composta por quatro olhos pequenos, a fileira do meio possui dois olhos muito grandes (o que as distingue das aranhas da família Pisauridae) e a fileira superior possui dois olhos de tamanho médio. Ao contrário da maioria dos outros aracnídeos, os quais geralmente são cegos ou têm visão ruim, as aranhas-lobo têm excelente visão.
O tapetum lucidum é um tecido retrorrefletor encontrado nos olhos. Este tecido refletor é encontrado apenas em quatro olhos secundários da aranha-lobo. Lançar um feixe de luz sobre a aranha produz brilho nos olhos; esse brilho nos olhos pode ser visto quando a fonte de iluminação é aproximadamente coaxial com o visualizador ou sensor.[15] A fonte de luz (por exemplo, uma lanterna ou luz solar) é refletida dos olhos da aranha diretamente de volta para o observador, produzindo um “brilho” que é facilmente notado. As aranhas-lobo possuem a terceira melhor visão de todos os grupos de aranhas, superadas pelas aranhas saltadoras da família Salticidae (que podem distinguir cores) e pelas aranhas caçadoras da família Sparassidae.
As aranhas-lobo são únicas na maneira como carregam seus ovos. O saco de ovos, um globo redondo e sedoso, fica preso às fieiras na extremidade do abdômen, permitindo que a aranha carregue consigo seus filhotes não eclodidos. O abdômen deve ser mantido em posição elevada para evitar que a caixa do ovo se arraste no chão. Mesmo com o saco de ovos acoplado, elas ainda são capazes de caçar.
Outro aspecto exclusivo das aranhas-lobo é o método de cuidar dos filhotes. Imediatamente depois que os filhotes emergem de seu saco protetor de seda, eles sobem pelas pernas da mãe e se amontoam no lado dorsal de seu abdômen. A mãe carrega os filhotes por várias semanas antes que eles sejam grandes o suficiente para se dispersarem e se defenderem sozinhos.
Hogna é o gênero com a maior das aranha-lobo. Entre as espécies de Hogna nos Estados Unidos, a de cor marrom escuro H. carolinensis (aranha lobo Carolina) é a maior, com um corpo que pode ter mais de 2,5 cm (1 pol.) de comprimento. Às vezes é confundido com H. helluo, que é um pouco menor e de coloração diferente. A parte inferior da H. carolinensis é preta sólida, mas a parte inferior do H. helluo tem uma mistura de tons vermelhos, laranjas e amarelos com tons de preto.
As aranhas-lobo desempenham um papel importante no controle natural da população de insetos e são frequentemente consideradas "insetos benéficos" devido à predação de espécies de pragas em fazendas e jardins.[16]
Veneno

As aranhas-lobo injetam veneno se forem continuamente provocadas. Os sintomas de suas picadas incluem inchaço e dor leve. No passado, picadas necróticas foram atribuídas a algumas espécies sul-americanas[17] e australianas[18], mas investigações posteriores indicaram que os problemas que ocorreram foram provavelmente devidos a picadas de membros de outras famílias[17] ou que a picada não chega a induzir esses efeitos.[18]
Habitats
As aranhas-lobo são encontradas em uma ampla variedade de habitats costeiros ou não. Isso inclui matagais, bosques, florestas costeiras úmidas, prados alpinos, jardins suburbanos e casas. Os filhotes se dispersam no ar; consequentemente, as aranhas-lobo têm ampla distribuição. Embora algumas espécies tenham necessidades de microhabitat muito específicas (como leitos de cascalho à beira de riachos ou campos de ervas montanhosas), a maioria são errantes sem lares permanentes. Algumas constroem tocas que podem ser deixadas abertas ou ter um alçapão (dependendo da espécie). As espécies das zonas áridas constroem torres ou tapam os seus buracos com folhas e pedrinhas durante a estação das chuvas para se protegerem das cheias. Frequentemente, elas são encontradas em locais artificiais, como em galpões e garagens.
Comportamento de acasalamento
Muitas espécies de aranhas-lobo possuem comportamentos de cortejamento muito complexos e características sexuais secundárias, como tufos de cerdas nas pernas ou colorações especiais, que são mais frequentemente encontradas nos machos da espécie. Essas características sexuais variam de acordo com a espécie e são mais frequentemente encontradas como modificações do primeiro par de pernas.[19] As modificações da primeira perna são frequentemente divididas em cerdas alongadas nas pernas, aumento do inchaço dos segmentos das pernas ou alongamento total do primeiro par de pernas em comparação com os outros três pares.
Alguns comportamentos de acasalamento são comuns entre gêneros de aranhas-lobo e muitos são específicos da espécie. No gênero de aranha-lobo mais comumente estudado, Schizocosa, os pesquisadores descobriram que todos os machos se envolvem em um componente sísmico de sua exibição de cortejo, seja através da estridulação ou batendo as patas dianteiras no chão; mas alguns também dependem de sinais visuais em sua exibição de cortejo em conjunto com a sinalização sísmica, como por exemplo, agitar as duas patas dianteiras no ar na frente da fêmea, concluindo que algumas espécies de Schizocosa dependem de comportamentos de cortejo multimodais.[20]
A família Lycosidae compreende principalmente aranhas errantes e, como tal, a densidade populacional e a proporção sexual entre machos e fêmeas exercem pressões seletivas sobre as aranhas-lobo quando encontram parceiros. As aranhas-lobo fêmeas que já acasalaram têm maior probabilidade de comer o próximo macho que tentar acasalar com elas do que aquelas que ainda não acasalaram. Os machos que já acasalaram têm maior probabilidade de acasalar novamente com sucesso, mas as fêmeas que já acasalaram têm menor probabilidade de acasalar novamente.[21]
Relação com Humanos
Embora as aranhas-lobo possam picar humanos, suas picadas não são perigosas. . As picadas de aranha-lobo geralmente resultam em vermelhidão leve, coceira, úlceras e, se o ferimento não for limpo, pode causar infecção. No entanto, as aranhas-lobo geralmente só picam quando se sentem ameaçadas ou manuseadas de forma equivocada.[22]
Descobriu-se que as aranhas-lobo são uma fonte vital de controle natural de pragas para os jardins pessoais ou mesmo para as casas de muitas pessoas, uma vez que a aranha-lobo ataca pragas percebidas, como grilos, formigas, baratas e, em alguns casos, lagartos e sapos.[23] Nos últimos anos, as aranhas-lobo têm sido utilizadas como controle de pragas na agricultura para reduzir a quantidade de pesticidas necessários nas plantações. Um exemplo notável é o uso de aranhas-lobo em pântanos de cranberry (airela) como meio de controlar a destruição indesejada de colheitas.[24]
Referências
- ↑ «Aranha-lobo». Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa. Consultado em 19 de maio de 2026. Cópia arquivada em 28 de fevereiro de 2024
- 1 2 Grande Dicionário Houaiss, verbete tarântula
- ↑ «Lycosidae». Fauna Europaea (em inglês). Consultado em 2 de maio de 2021
- ↑ Room, Adrian (2006). Placenames of the World. II. Jefferson, Carolina do Norte: McFarland & Company. 369 páginas. Cópia arquivada em 5 de agosto de 2025
- ↑ Fabre, Jean-Henri (1916). The Life of the spider. Traduzido por de Mattos, Alexander Teixeira. Nova Iorque: Dodd, Mead and Company
- ↑ Colman, Andrew (2001). Dictionary of Psychology. I. Oxônia e Nova Iorque: Oxford University Press Inc. 754 páginas. Cópia arquivada em 18 de dezembro de 2013
- ↑ «Tarântula». Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa. Consultado em 17 de maio de 2026. Cópia arquivada em 13 de janeiro de 2024
- ↑ «Caranguejeira». Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa. Consultado em 17 de maio de 2026. Cópia arquivada em 1 de abril de 2024
- ↑ Grande Dicionário Houaiss, verbete caranguejeira
- ↑ Grande Dicionário Houaiss, verbete aranhuçu e -uçu
- ↑ Grande Dicionário Houaiss, verbete mígala e migala
- ↑ Grande Dicionário Houaiss, verbete caranguejeira
- ↑ "Wolf Spiders: Lycosidae Sundevall 1833". Australasian Arachnology Society. Retrieved 2 October 2008.
- ↑ Ubick, Darrell; Paquin, Pierre; Cushing, Paula; Roth, Vincent (2017). Spiders of North America: an identification manual. Illustrated by Nadine Dupérré (2 ed.). Keene, New Hampshire: American Arachnological Society. ISBN 978-0-9980146-0-9
- ↑ 2013: [1] Archived 2020-01-13 at the Wayback Machine "In the lycosoid spiders, the secondary eyes possess a grate-shaped tapetum lucidum that reflects light, causing eyeshine when these spiders are viewed with approximately coaxial illumination
- ↑ The Xerces Society (2014). Farming with Native Beneficial Insects: Ecological Pest Control Solutions. North Adams, Massachusetts: Storey Publishing. pp. 204–205. ISBN 9781612122830.
- 1 2 Ribeiro, L. A.; Jorge, M. T.; Piesco, R. V.; Nishioka, S. A. (1990). "Wolf spider bites in São Paulo, Brazil: A clinical and epidemiological study of 515 cases". Toxicon. 28 (6): 715–717. doi:10.1016/0041-0101(90)90260-E. PMID 2402765
- 1 2 Isbister, Geoffrey K.; Framenau, Volker W. (2004). "Australian Wolf Spider Bites (Lycosidae): Clinical Effects and Influence of Species on Bite Circumstances". Clinical Toxicology. 42 (2): 153–161. doi:10.1081/CLT-120030941. PMID 15214620. S2CID 24310728.
- ↑ Framenau, Volker W.; Hebets, Eileen A. (April 2007). "A Review of Leg Ornamentation in Male Wolf Spiders, with the Description of a New Species from Australia, Artoria Schizocoides (Araneae, Lycosidae)". The Journal of Arachnology. 35 (1): 89–101. doi:10.1636/ST06-15.1. ISSN 0161-8202.
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- ↑ "Wolf Spiders". extension.psu.edu. Retrieved 2023-09-06
- ↑ Institution, Smithsonian. "Wolf Spider". Smithsonian Institution. Retrieved 2023-09-06
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