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Álidas
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Os álidas (em árabe: العلويون) são os descendentes de Ali ibne Abi Talibe, primo e genro do profeta islâmico Maomé e quarto califa ortodoxo. Embora Ali tenha tido numerosos filhos e filhas de diferentes esposas, sua descendência tornou-se particularmente importante através dos filhos que teve com Fátima, filha de Maomé, sobretudo Haçane e Huceine, dos quais descendem, respectivamente, os haçânidas e huceínidas. Outras linhagens álidas remontam a filhos de Ali nascidos de outros casamentos, entre eles Maomé ibne Alhanafia, Abas ibne Ali e Omar Alatrafe. Por sua descendência simultânea de Ali, Fátima e Maomé, as linhagens haçânida e huceínida adquiriram especial prestígio no mundo islâmico, e seus membros foram frequentemente distinguidos por títulos como xarife e saíde.
Os álidas tiveram papel destacado na história política e religiosa dos primeiros séculos do islã. Após o assassinato de Ali, em 661, diferentes grupos de seus partidários reconheceram sucessivamente membros de sua família como seus líderes ou imames, processo estreitamente relacionado à formação e diversificação do islamismo xiita. Durante o Califado Omíada (661–750), a morte de Huceine na Batalha de Carbala, em 680, tornou-se um acontecimento central da memória xiita, enquanto sucessivas revoltas foram conduzidas em nome de diferentes membros da família de Ali. Sob o Califado Abássida (750–1258), as relações permaneceram marcadas pela rivalidade política e por períodos de perseguição, apesar de tentativas ocasionais de conciliação. Nesse contexto desenvolveram-se diferentes concepções acerca da legitimidade do imamato e consolidaram-se correntes como os zaiditas, ismaelitas e duodecimanos, todas vinculadas, por diferentes linhas genealógicas e doutrinárias, à descendência de Ali.
A dispersão dos álidas também contribuiu para o estabelecimento de movimentos e dinastias em diferentes partes do mundo islâmico. Alguns membros da família refugiaram-se em regiões afastadas dos centros de poder abássidas, especialmente no Magrebe, no Iêmem e nas terras ao sul do mar Cáspio, onde surgiram governos de ascendência álida. Entre eles estiveram os idríssidas do Magrebe, fundados pelo haçânida Idris I, além de diferentes dinastias zaiditas e dos hamúdidas do Alandalus. O Califado Fatímida (r. 909–1171), por sua vez, reivindicava descendência huceínida através da linhagem ismaelita, embora a autenticidade dessa genealogia tenha sido objeto de controvérsia. Assim, além de constituírem um conjunto de linhagens descendentes de Ali, os álidas estiveram ligados à formação de importantes tradições religiosas, movimentos políticos e casas dinásticas ao longo da história islâmica.
Filhos de Ali
Além de dezessete filhas, diferentes fontes afirmam que Ali teve onze, catorze ou dezoito filhos homens.[1] Seu primeiro casamento foi com Fátima, filha do profeta islâmico Maomé, com quem teve três filhos, Haçane, Huceine e Almocine, embora o último não seja mencionado em algumas fontes.[1] Almocine teria morrido ainda na infância[2] ou sido abortado depois que Fátima foi ferida durante uma incursão contra sua casa destinada a prender Ali, que se recusara a prestar juramento de fidelidade ao primeiro califa ortodoxo, Abu Becre (r. 632–634).[3] O primeiro relato aparece em fontes sunitas, enquanto o segundo é encontrado em fontes xiitas. Haçane e Huceine são reconhecidos, respectivamente, como o segundo e o terceiro imames do islamismo xiita, e seus descendentes são conhecidos como haçânidas e huceínidas.[4] Ambos são reverenciados por todos os muçulmanos como descendentes de Maomé, e seus descendentes receberam títulos de distinção como xarife e saíde.[5] Ali e Fátima tiveram também duas filhas, Zainabe e Ume Cultume.[6] Após a morte de Fátima, em 632, Ali voltou a se casar e teve outros filhos. Entre estes, sua linhagem prosseguiu através de Maomé ibne Alhanafia, Abas ibne Ali e Omar Alatrafe, cujos descendentes receberam a designação de álidas (lit. "de Ali"). Suas mães eram, respectivamente, Caula Alhanafia, Ume Albanine e Ume Habibe binte Rabia (Açaba).[1]
Álidas na história
Período Omíada (661–750)

Moáuia assumiu o poder após o assassinato de Ali, em 661, e fundou o Califado Omíada,[7] durante o qual os álidas e seus partidários foram duramente perseguidos.[6] Depois de Ali, seus seguidores (em árabe: شيعة) reconheceram como imame seu filho mais velho, Haçane. Após a morte deste, em 670, voltaram-se para seu irmão Huceine, mas ele e sua pequena caravana foram massacrados pelos omíadas na Batalha de Carbala, em 680.[4] Pouco depois, em 685, ocorreu a revolta xiita de Almoquetar Atacafi, realizada em nome de Maomé ibne Alhanafia.[4] Muitas outras revoltas xiitas se seguiram, lideradas não apenas por álidas, mas também por outros parentes de Maomé.[4][8] Os principais movimentos desse período foram os atualmente extintos caissanitas e os imamitas. Designados a partir de um comandante de Almoquetar,[9] os caissanitas opuseram-se energicamente aos omíadas e foram liderados por diversos parentes de Maomé. A maioria deles seguiu Abu Haxime, filho de Maomé ibne Alhanafia. Quando Abu Haxime morreu, por volta de 716, esse grupo passou a seguir Maomé ibne Ali ibne Abedalá, bisneto do tio de Maomé, Alabás ibne Abede Almotalibe.[10] O movimento caissanita alinhou-se, assim, aos abássidas, isto é, aos descendentes de Alabás ibne Abede Almotalibe.[4][11] Os imamitas, por outro lado, eram liderados pelos descendentes politicamente quietistas de Huceine através de seu único filho sobrevivente, Ali Açajade (m. 713), seu quarto imame. Seu filho Zaíde ibne Ali constituiu uma exceção, pois liderou uma revolta fracassada contra os omíadas por volta de 740.[4] Os seguidores de Zaíde deram origem aos zaiditas, para os quais qualquer haçânida ou huceínida instruído que se levantasse contra a tirania estava qualificado para ser imame.[12]
Período Abássida (750–1258)
Para derrubar os omíadas, os abássidas mobilizaram o apoio dos xiitas em nome dos Ahl al-Bayt, isto é, da família de Maomé. Muitos xiitas, porém, ficaram desiludidos quando o abássida Açafá (r. 750–754) se proclamou califa, pois esperavam que um álida assumisse o poder.[13] Os abássidas logo se voltaram contra seus antigos aliados e perseguiram os álidas e seus partidários xiitas.[4][14] Em resposta, o xiismo passou a restringir doutrinariamente sua liderança aos álidas, muitos dos quais se revoltaram contra os abássidas, entre eles os irmãos haçânidas Maomé ibne Abedalá (m. 762) e Ibraim ibne Abedalá.[1] Outros álidas refugiaram-se em regiões remotas e fundaram dinastias regionais nas costas meridionais do mar Cáspio, no Iêmem e no Magrebe Ocidental.[4][15] Por exemplo, a revolta do haçânida Alhoceine ibne Ali Alábide foi reprimida em 786, mas seu irmão Idris I (m. 791) conseguiu escapar e fundou no Magrebe a primeira dinastia álida.[1][14] Da mesma forma, diversos governos zaiditas surgiram no norte da Pérsia e no Iêmem, tendo este último sobrevivido até a época contemporânea.[16][4]
Alguns dos imames quietistas dos imamitas provavelmente também foram mortos pelos abássidas.[17] O sétimo imame, Muça Alcazim (m. 799), por exemplo, passou anos nas prisões abássidas e morreu enquanto estava encarcerado, possivelmente envenenado por ordem do califa Harune Arraxide (r. 786–809), a quem também é atribuída a morte de "centenas de álidas".[18] Posteriormente, o califa Almamune (r. 813–833) tentou uma reconciliação ao nomear, em 817, o oitavo imame, Ali Arrida, como seu herdeiro aparente. Outros abássidas revoltaram-se contra a medida em Bagdá, obrigando Almamune a reverter sua política, e Ali Arrida morreu aproximadamente nessa época, provavelmente envenenado por Almamune.[19][20] Ali Alhadi (m. 868) e Haçane Alascari (m. 874), o décimo e o décimo primeiro imames dos imamitas, foram mantidos sob estreita vigilância na capital, Samarra.[21] A maioria das fontes imamitas afirma que ambos foram envenenados pelos abássidas.[22] Seus seguidores acreditam que o nascimento de seu décimo segundo imame, Maomé Almadi, foi mantido em segredo por temor da perseguição abássida e que, desde 874, ele permanece em ocultação por vontade divina, até seu reaparecimento no fim dos tempos para eliminar a injustiça e o mal.[23][24] Esses seguidores ficaram conhecidos como duodecimanos.[25]
Enquanto isso, a única cisão histórica entre os imamitas ocorreu após a morte, em 765, de seu sexto imame, o quietista Jafar Açadique,[4][25] que desempenhou papel fundamental na formulação das doutrinas imamitas.[26] Alguns sustentaram que seu sucessor designado era seu filho Ismail, que na realidade havia morrido antes de Açadique. Esses seguidores separaram-se permanentemente dos demais e posteriormente deram origem aos ismaelitas.[4] Alguns deles negaram a morte de Ismail, mas a maioria reconheceu o imamato de seu filho Maomé ibne Ismail.[27] A morte de Maomé ibne Ismail, por volta de 795, foi negada pela maioria de seus seguidores, que aguardava seu retorno como Mádi, enquanto uma minoria reconheceu a continuidade do imamato entre seus descendentes.[27] Os ismaelitas opuseram-se ativamente aos abássidas,[28] e seus esforços culminaram no estabelecimento do Califado Fatímida (r. 909–1171), no Norte da África.[4] A ascendência ismaelita dos califas fatímidas, contudo, foi questionada por alguns autores.[1] A fracassada Revolta Zanje contra os abássidas eclodiu no Iraque e no Barém em meados do século IX sob a liderança de Ali ibne Maomé Saíbe Azanje, que afirmava descender de Abás ibne Ali. A poesia dos descendentes de Abás ibne Ali foi reunida no al-Awraq, compilado pelo estudioso turco Alçuli (m. 946–947). Um de seus descendentes, Abas ibne Haçane Alalaui, alcançou renome como poeta e estudioso durante os reinados de Harune Arraxide e Almamune.[29]
Dinastias álidas
Diversas dinastias reivindicaram descendência de Ali, frequentemente através de seu filho Haçane. Entre as dinastias haçânidas encontram-se os idríssidas e os xarifes do Magrebe, no Norte da África, bem como os hamúdidas no Alandalus, situado na atual Espanha.[4] O Califado Fatímida reivindicava ascendência huceínida.[1]

Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Lewis 2012.
- ↑ Buehler 2014, p. 186.
- ↑ Khetia 2013, p. 78.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Daftary 2008.
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